A escola dispõe de quatro salas de aula, sala de informática, brinquedoteca e parquinho (Fernanda Lopes) Há fachadas que guardam histórias. E há fachadas que abrigam futuros. No número 79 da Rua Sete de Setembro, em um casarão antigo e cuidadosamente preservado na região central de Santos, funciona há mais de um século uma instituição que resiste ao tempo com a sabedoria de quem entende que educar também é um ato de acolher: a Escola Portuguesa. Por trás dos muros do imóvel de 1910, o que se vê hoje é uma rotina cheia de vida. Risadas ecoam pelo pátio, pequenos passos cruzam corredores e vozes infantis ensaiam cantigas e danças típicas portuguesas para o Ranchinho Folclórico. Enquanto a cidade passa apressada do lado de fora, ali dentro o tempo parece caminhar em outro ritmo, mais humano, mais afetivo. Fundada em 24 de julho de 1921 por um grupo de portugueses, a escola nasceu com a missão de oferecer educação de qualidade aos descendentes lusitanos e preservar a cultura portuguesa em solo brasileiro. Mais de cem anos depois, ela continua fiel ao propósito de transformar vidas, ainda que o público tenha mudado. Atualmente, atende de forma gratuita 120 crianças de 3 a 6 anos em situação de vulnerabilidade social, vindas principalmente da Vila Nova, do Monte Serrat, do Centro e do Paquetá. Estrutura Mais do que Educação Infantil em período integral, a instituição oferece estrutura, dignidade e cuidado. As crianças recebem uniformes de verão e inverno, material didático, quatro refeições diárias, aulas de informática educativa e atividades recreativas. Em números, são cerca de 480 refeições servidas todos os dias. Na prática, é muito mais do que isso: a garantia de um ambiente seguro, afetivo e com oportunidades. “A criança vem para a escola para ter um ambiente especial. Um local para brincar, fazer amizades, aprender e, sobretudo, ser feliz. O maior objetivo nosso é que, estando dentro da Escola Portuguesa, ela esteja feliz”, resume a diretora Maria Regina Machado Prieto Franco, que está à frente da direção pedagógica desde a retomada da instituição, em 1986. A escola tem quatro salas de aula, sala de informática, brinquedoteca, cozinha, parque infantil — que, em breve, será reformado —, uma biblioteca em construção, banheiros adaptados e áreas administrativas e pedagógicas. Tudo mantido por uma equipe de 16 profissionais, entre professoras, coordenação, nutricionista, cozinheiras e funcionários administrativos. Eventos Mas manter viva uma estrutura centenária dedicada ao cuidado infantil exige esforço coletivo. E é justamente aí que entra uma das celebrações mais tradicionais da comunidade portuguesa na Cidade: a Festa de Portugal. O evento, nos dias 6 e 7 de junho, no Valongo, representa a cobertura de cerca de 20% do custeio anual da escola. “A festa é muito importante para que possamos continuar oferecendo educação de qualidade, com profissionais qualificados e todo atendimento às crianças”, explica o presidente da instituição, José Augusto do Rosário. Segundo ele, parte do orçamento vem da subvenção da Prefeitura de Santos, enquanto o restante é obtido por meio de padrinhos, doações e eventos beneficentes promovidos ao longo do ano. Recentemente, a instituição também deu um importante passo rumo à sustentabilidade e à redução de custos operacionais: implantou um sistema de captação de água da chuva, iniciativa que deve ajudar na otimização dos gastos de manutenção do prédio histórico. E manter um imóvel de 1910 em pleno funcionamento exige atenção constante. “Conseguimos também climatizar todas as salas com ar-condicionado. Antes, havia dias em que as crianças precisavam ficar sem o uniforme por conta do calor, já que essas paredes são muito grossas devido à idade do prédio”, conta José Augusto do Rosário. Interessados em fazer doações à instituição podem entrar em contato pelo (13) 97408-9535. Durante 13 anos, Jussara foi a caseira do imóvel centenário da Rua Sete de Setembro (Fernanda Lopes/AT) De caseira a professora Poucas histórias traduzem tão bem o espírito da Escola Portuguesa quanto a de Jussara Nobre Rodrigues, de 42 anos. Durante 13 anos, ela foi a caseira do imóvel centenário da Rua Sete de Setembro. Hoje, cruza os mesmos corredores não mais para cuidar do prédio, mas para ensinar crianças dentro dele. A mudança começou em 2019, quando a direção da escola percebeu nela algo que ia além do comprometimento cotidiano. Incentivada pela equipe pedagógica e com apoio da própria instituição, Jussara decidiu cursar pedagogia — uma escolha que transformaria completamente sua trajetória. “Fui caseira durante 13 anos e daí, com a faculdade, fui estagiária, depois auxiliar de classe e, por fim, professora”, conta, com orgulho sereno de quem conhece cada canto daquele imóvel como parte da própria história. Existe ainda um detalhe simbólico que torna essa trajetória ainda mais bonita: o cômodo onde Jussara morava virou sala de aula. O espaço que antes abrigava sua vida pessoal hoje acolhe crianças, aprendizados e sonhos.