[[legacy_image_315024]] Porto de Santos, 21 de maio de 1929. Numa agradável manhã de terça-feira, o transatlântico Conte Verde, da Lloyd Sabaudo, atraiu atenção ao atracar no movimentado cais do armazém 17. A expectativa maior foi gerada pelo aguardado encontro da aclamada Deusa Negra, Josephine Baker. Sua presença na Cidade, exaltada por sua fama nos palcos europeus, era o centro das atenções dos repórteres, inclusive sendo associada à liquidação anual da Casa Excelsior, que anunciava: “Josephine Baker vira a Santos com o exclusivo fim de escolher presentes para seus admiradores na Casa Excelsior, à rua General Câmara, 24, cuja liquidação anual é o maior acontecimento destes últimos tempos”. Dois meses antes, a Vênus Negra havia gerado grande expectativa, levando dezenas de pessoas ao porto santista em 19 de março, sob a crença de que a renomada artista estivesse a bordo do navio Conte Rosso. A desilusão tomou conta dos fãs e dos jornalistas quando descobriram que Josephine não estava presente. Apesar disso, o jornal Praça de Santos estampou em manchete: “Josephine Baker ‘quase’ passou ontem pelo Porto de Santos”, e aproveitou a ocasião para publicar uma entrevista fictícia com a artista, buscando chamar a atenção de seus leitores. AntecedentesEm 1929, Josephine já era celebrada na imprensa mundial e em Santos. Os cinemas exibiam com destaque o filme de enorme sucesso estreado pela dançarina em 1927: O Despontar de uma Estrela. Em agosto de 1928, a imprensa dava como certa a sua vinda ao Brasil, o que parecia ser um alívio para o setor teatral no País. Especialistas em cultura daquele período alegavam que a renovação no teatro se tornava cada vez mais necessária, tanto em termos de repertório quanto de artistas. Enfim, BrasilDepois de tanta espera, finalmente, no dia 20 de maio de 1929, notícias vindas do Rio de Janeiro davam conta da passagem entusiasmada e meteórica de Josephine Baker pela então Capital brasileira. Ela estava acompanhada pelo marido na época, o autoproclamado conde Pepito Abatino. Os cariocas a descreveram como “uma mulher franzina, com grandes olhos de veludo e pele acobreada. Risonha e afável, falava um francês carregado no ‘r’, com ligeiro sotaque britânico. E era muito agradável aos jornalistas, a quem dizia serem seus melhores ‘amiguinhos’”. Em 21 de maio, a Vênus Negra chegava, enfim, a Santos. E lá foram novamente os repórteres dos principais jornais de São Paulo ao armazém 17 do Porto, sonhando em entrevistar, desta vez de verdade, a celebridade internacional. No entanto, os jornalistas foram surpreendidos, desta vez com a informação de que Josephine não tinha pretensão de descer do navio e, tampouco, subir ao tombadilho do convés para acenar ao povo santista. Tudo porque o navio chegara à região no início da manhã, e a artista adotara hábitos parisienses de não se levantar cedo. Ela só pretendia sair de sua cabine na “hora protocolar”, às 11 horas, conforme informou seu marido. O problema é que o Conte Verde faria uma escala bem curta em Santos, de poucas horas, e, para os jornalistas locais e da capital, era tudo ou nada. Foi aí que veio a surpresa. Abatino informou que Josephine estava disposta a recebê-los em sua própria cabine. Conhecimento sobre a cidadeAo entrarem no amplo e luxuoso espaço dedicado à estrela de Paris, os visitantes encontraram Josephine trajada num amplo quimono futurista. Ela estava recostada em um divã, observando os convidados como se fosse um belo animal exótico, envolto em um cocktail de cores malucas. Quando os repórteres estavam acomodados, ela se levantou, estendeu as mãos aos presentes e sorriu, com o mais cenográfico de seus sorrisos. A conversa, então, teve início, na língua francesa. — Alô, Josephine! — disseram os jornalistas. — Estou encantada com a sua saudação — respondeu a artista. — Aqui, você é nossa velha conhecida — arriscou um dos repórteres, com um francês arranhado, mas entendível. — É certo. Conheci muitos brasileiros em Paris. E tenho até alguns endereços aqui de Santos. — Pode nos mostrar, Josephine? — perguntou o jornalista de A Tribuna, curioso para saber quem era os amigos santistas da Vênus Negra. — Oh! Não... Seria uma indiscrição. Posso adiantar apenas que se trata de nomes respeitáveis — emendou a artista, com um sorriso no rosto. — Não lhe pergunto qual a sua impressão de Santos, porque você ainda não viu nada — disse outro jornalista. — Mas posso dizer que é a melhor possível. Pelo que me informaram os amigos de que já lhe falei, isto é uma terra estupenda. As bananas aqui são fabulosas. Gostaria de ver um cacho. Disse-me uma vez, em Paris, o Roberto Simonsen (empresário santista, dono da Companhia Construtora de Santos), que chegam a pesar 500 quilos. Mas, o que me interessaria ver, em Santos, era uma queda do Monte Serrat. Quando cai? (Claramente, Josephine se confundiu sobre a queda do Monte Serrat, acreditando se tratar de uma cachoeira, quando, na verdade, fora uma queda de barreira ocorrida em março do ano anterior, causando mais de 80 mortes e considerada a maior tragédia da história de Santos.) — Todos os dias de chuva — comentou, ironicamente, um dos repórteres, porém, não repercutindo o assunto para não criar constrangimentos. Assim, o resto da entrevista transcorreu tranquilamente. E, apesar da promessa, Josephine Baker não retornou a Santos para ver a “queda do Monte Serrat”. Mas, certamente, quando deixou o Porto, no final daquele dia 21 de maio de 1929, observou de longe a famosa cidade santense, de tantas glórias e lutas, e certamente sentiu orgulho por ter tido essa grande oportunidade. SERGIO WILLIANS É JORNALISTA E PESQUISADOR DA HISTÓRIA DE SANTOS. CONHEÇA SEU TRABALHO NO SITE WWW.MEMORIASANTISTA.COM.BR