[[legacy_image_126090]] Tudo começou em 27 de novembro de 1986. O então prefeito de Santos, Oswaldo Justo, havia recebido denúncia de que funcionários da Prodesan (na época a empresa responsável pela coleta de lixo e limpeza urbana) estariam enterrando ratos na areia da praia, na frente até mesmo de banhistas. A presença de roedores era constante nos jardins da orla e cercanias, e incomodava a população. Os animais eram atraídos pelos restos de comida, provenientes dos trailers de lanches espalhados ao longo da avenida da praia. “Se eu pegar ou souber que algum funcionário da Prodesan está enterrando ratos na praia, enterro ele junto”, desabafou o prefeito. Justo dizia não acreditar que ato daquela natureza estivesse acontecendo, até porque a orientação era o encaminhamento dos animais mortos ao lixão da Alemoa, onde seriam descartados. Cobrado sobre a necessidade de criar ação eficaz para eliminar de vez o problema, o prefeito alegou que não concordava com o uso de venenos químicos (raticidas), já que prejudicavam a flora e acabavam vitimando outros animais que tinham os jardins da orla como habitat natural ou de passagem. Até mesmo os cães que passeavam com os donos estariam arriscados de sofrer as consequências em função da aplicação de venenos. “Como defensor da ecologia, não aceito essa prática, mesmo porque o veneno, além de matar os roedores, acaba atingindo passarinhos. Sou a favor do equilíbrio ecológico e, portanto, do uso de gatos para matar os ratos”. Todos ficaram surpresos com a proposta inusitada do prefeito, que alegou ter inspirado-se na história de uma senhora de 76 anos, moradora do Canal 2, que costumava levar os seus seis gatos para passear na orla, onde eles praticavam “caça aos ratos”. Após testes, a operação Depois de ter se pronunciado a respeito do caso dos ratos, o prefeito decidiu colocar a sua estratégia em prática, mas de maneira cadenciada. Começou de uma maneira bastante tímida, justamente em um dos trechos críticos, entre os canais 1 e 2. A discussão sobre a presença cada vez mais constante dos roedores ganhou tanta força na Cidade que o prefeito decidiu ir à guerra e juntar sua tropa de felinos em maio de 1988. A decisão para o sinal verde aconteceu durante uma das famosas “reuniões da madrugada”. Na ocasião, o chefe do Executivo santista ordenou o início da operação, que muitos chamavam de Tom & Jerry, em uma alusão ao clássico desenho animado de Hanna-Barbera, que a criançada curtia na televisão. “Espalhem gatos pelos jardins de toda a praia” foi a ordem de Justo aos seus secretários. Apesar de conhecerem bem as crenças do chefe, muitos ficaram surpresos com sua determinação. Justo tinha o argumento na ponta da língua: “A natureza é uma roda dentada, que gira encaixada. Quando um dos dentes falta, os problemas começam a surgir. No caso dos jardins da praia, houve, de fato, uma quebra no equilíbrio ecológico e, por isso, os ratos vêm se proliferando com tanta rapidez. Vamos, então, colocar gatos para acabar com eles. Afinal, o predador do rato é o gato!” Assunto nacional A ideia de utilizar gatos para combater os ratos da orla santista ganhou as páginas de jornais e revistas pelo País. A Tribuna publicava, em sua edição de 9 de maio de 1988, um editorial elogiando a estratégia de marketing do prefeito: “Enquanto a Embratur gasta dinheiro veiculando comerciais nos horários nobres das estações de televisão, para afirmar que o Rio de Janeiro é lindo e precisa ser visitado, o prefeito Justo, num golpe de mestre, projeta a Cidade sem qualquer ônus e, o que é melhor, conferindo um cunho infinitamente maior de credibilidade à mensagem”. Gatos dominam, população apoia Com o passar das semanas, a estratégia parecia estar dando muito resultado positivo. Vários trechos da praia, enfim, não registravam mais a presença de ratos, o que foi entusiasticamente comemorado pelos moradores, especialmente os da orla da praia. Além disso, muitos idosos passaram a interagir com os felinos caçadores e a adotá-los informalmente, fornecendo comida e bebida aos bichanos. Abrigo para os gatos Em outubro de 1988, um tradicional corretor de café da Cidade, José Carlos Vieira da Cunha, confessadamente apaixonado por gatos, sugeriu ao prefeito que ele construísse abrigos para os felinos na orla da praia. Cunha justificou que aquele tipo de animal era muito sensível às intempéries do tempo e, assim, poderia ficar doente com certa facilidade. Para ele, os abrigos poderiam ser instalados junto às folhagens dos jardins. Uma outra sugestão era sobre a comida dos gatos policiais. “Eles devem ser alimentados com pescoço de frango. Não é saudável que eles se alimentem apenas dos ratos caçados, uma vez que eles podem já estarem envenenados. Os gatos devem matar os roedores, e não comê-los”. Atendendo aos pedidos, um mês depois, o prefeito mandou instalar as casinhas para os gatos vigilantes. Foram colocados ao todo seis abrigos, feitos de madeira pintada com as cores da Prefeitura (azul e vermelho) e com o logotipo PMS. A entrega do primeiro abrigo de gatos foi feita pelo prefeito em pessoa, nos jardins do Canal 2. As casinhas, na verdade, eram singelas caixas de madeira com 40 cm de largura, 60 de comprimento e 20 de altura. Todas foram dispostas entre os arbustos, de modo a não ofender a paisagem e manter ambiente mais natural aos felinos. Os abrigos foram construídos pela Secretaria de Obras e Serviços Públicos.