Maria Josefa nasceu no mesmo ano em que o pai começou a construir o chalé, no bairro Marapé: 1948 (Alexsander Ferraz/AT) Eles já foram comuns. Hoje, é preciso procurar para achá-los. Em uma Santos com grandes edifícios e terrenos valorizados, os antigos chalés de madeira aparecem como lembranças de uma outra cidade. Construídos principalmente entre o fim do século 19 e o início do século 20, nasceram como moradias populares e sobreviveram por gerações, carregando a história de famílias que encontraram nessas casas uma forma de construir um lar. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Segundo o arquiteto Gino Caldatto, os chalés surgiram em um período de forte crescimento populacional e crise habitacional. Com a expansão do Porto de Santos e a chegada de trabalhadores e imigrantes, especialmente portugueses, a madeira se tornou uma alternativa mais rápida e barata para construir uma casa. Na época, muitos trabalhadores viviam em cortiços superlotados. Ao mesmo tempo, Santos enfrentava epidemias, especialmente febre amarela, o que levou o Poder Público a implementar políticas de saneamento e reurbanização, que resultaram na destruição de cortiços e outras moradias consideradas insalubres. Com isso, grande parte da população trabalhadora se deslocou para os morros e áreas periféricas, onde o terreno era mais barato, visando a possibilidade de conquistar um lar mais estável. “Os chalés eram construções mais rápidas e fáceis. Alguns, inclusive, eram erguidos em fins de semana”, conta Caldatto. As construções também ganharam características próprias, como varandas, telhados de duas ou quatro águas, pilares e elementos decorativos de madeira. Segundo o arquiteto, o modelo santista é único no País e no mundo. Com o passar das décadas, porém, os chalés começaram a desaparecer. Caldatto cita a valorização dos terrenos, a expansão imobiliária e mudanças nas regras de construção como motivos que contribuíram para a substituição das casas. Memórias que permanecem Na Rua Francisco de Souza Dantas, no Marapé, a aposentada Maria Josefa Bitencourt Marcelino, de 78 anos, mantém viva uma dessas histórias. Filha de portugueses da Ilha da Madeira, ela nasceu no mesmo ano em que seu pai começou a construir a casa, em 1948. Sua infância inteira foi vivida naquele endereço, quando o entorno ainda tinha mato, valas, criação de porcos e bananal. “Era sossegado, tranquilo e feliz”, recorda ela, que voltou definitivamente para a casa em 1999, depois da morte do marido, e encontrou um cenário diferente. “Antigamente o Marapé tinha muitos chalés, mas eles foram transformados nesses prédios enormes”. A residência, porém, continuou a mesma. Portas, janelas, vidros e telhado do chalé são os mesmos da construção, o que dificulta a manutenção. “Essa madeira não existe mais”. Por outro lado, a raridade chama a atenção de quem passa. Segundo a aposentada, é comum as pessoas pararem na rua para fotografar o imóvel. O mesmo acontece no chalé do pintor de automóveis José Carlos de Souza Bento, de 70 anos, e da costureira Ana Cabral de Oliveira, de 67 anos. José Carlos tinha vontade de residir em um chalé: recordações da avó, que morou em uma casa assim (Alexsander Ferraz/AT) “Muita gente tira foto. Já veio gente aqui pedir para entrar para conhecer”, conta a costureira. O casal, que está junto há 33 anos, comprou o chalé, na Avenida Doutor Nilo Peçanha, no Marapé, há duas décadas. A casa, que já tinha aproximadamente 90 anos, chamou atenção justamente pela aparência. Além da beleza, a decisão foi tomada também por um desejo pessoal de José Carlos. “Minha avó morava em um chalé e eu adorava. Quando fomos procurar uma casa, falei dessa minha vontade”, conta o pintor. “Quando ele viu esse, ficou apaixonado”, completa a esposa. O casal afirma que a manutenção exige cuidados, como limpeza e pintura periódicas. Além disso, os dois apontam que a madeira pode deixar o ambiente quente no verão e frio no inverno. Apesar disso, não pensam em vender. “Só quando eu morrer”, diz Ana. Futuro Para Caldatto, esse vínculo entre casa e morador é justamente uma das razões para preservar os exemplares que restaram. “É um apelo bucólico, é outro tipo de morar”, afirma. Na avaliação dele, cada chalé que desaparece representa a perda de uma referência da memória e da história urbana de Santos. O arquiteto defende que é possível conciliar a valorização dos imóveis com o desenvolvimento da cidade, desde que sejam criadas alternativas para que os chalés possam permanecer. Entre os moradores, porém, a preservação por meio do tombamento não é vista como uma solução consensual. A possibilidade é rejeitada por quem vive nesses imóveis, principalmente pelo receio de que o instrumento limite reformas, adaptações e mudanças necessárias para a manutenção das casas. “De jeito nenhum”, diz Ana.