Eduardo Magalhães participou da criação do Museu do Café no centro de Santos (Foto: Matheus Tagé) De São Paulo ao negócio da família, no auge da hiperinflação, Eduardo Carvalhaes, sócio do tradicional escritório Carvalhaes, transformou tradição em visão de futuro. No projeto Os Protagonistas, ele compartilha como Santos moldou sua trajetória pessoal e profissional, o peso de um sobrenome centenário no café e os desafios de manter relevância em um mercado global em constante transformação. Acompanhe a entrevista. Formado e atuando como engenheiro químico, em algum momento se imaginou construindo toda a sua carreira fora do café? Sou santista, formado engenheiro químico, e trabalhei por oito anos em São Paulo na minha área, em uma empresa de projetos para indústrias químicas, setor que cresceu muito durante o governo militar. Não planejava atuar no café e gostava da vida na capital. A hiperinflação dos anos 80, porém, inviabilizou muitas indústrias e afetou diretamente os projetos de engenharia. Percebi a crise logo no início, decidi sair e testar o setor de café, que vivia uma boa fase com meu pai e meus irmãos. Acabei ficando, e acertando. Hoje sou a quinta geração da família Carvalhaes dedicada ao café. Existe alguma memória da sua juventude, que hoje percebe como decisiva para moldar quem se tornou? Desde criança convivi com o café, com as famílias de meu pai e minha mãe trabalhando no setor. Era comum vir com meu pai aos sábados ao escritório, que está no mesmo endereço desde 1954. Qual foi a transformação mais disruptiva que presenciou no mercado de café e como se adaptou a ela? As transformações no comércio de café sempre caminharam junto com a evolução da comunicação. Saímos dos telegramas para a internet e a comunicação em rede. Comercialmente, a mudança mais disruptiva foi a velocidade com que o digital se tornou dominante, encurtando distâncias, acelerando decisões e tornando o mercado mais dinâmico e global. O Escritório Carvalhaes sempre buscou se antecipar a essas transições. Desde 1933 publicamos o “Boletim Semanal”, referência no setor. Fomos pioneiros no uso de rádio de ondas curtas, depois vieram DDD, telex, fax e, já em 1995, lançamos nosso site, provavelmente um dos mais antigos do setor cafeeiro. Em seguida, incorporamos celular, WhatsApp e outras ferramentas digitais. Como o senhor construiu sua credibilidade no setor cafeeiro? A credibilidade foi construída ao longo de gerações, com base em tradição e consistência. Meu bisavô, José Ildefonso Carvalhaes, chegou a Santos por volta de 1890 e integrou-se à Comissária e Exportadora Vicente Carvalhaes, iniciando a trajetória da família no setor cafeeiro. Quando comecei a atuar no escritório, ao lado de meu pai, Eduardo, meus irmãos Sérgio e Nelson e meu primo Fernando, o Escritório Carvalhaes já era respeitado no mercado. Gradualmente, fui assumindo a relação com a imprensa, no fim dos anos 1980 e, com o nome já consolidado, conquistamos a confiança do setor. A força do Porto de Santos como principal exportador de café do Brasil e do mundo, desde o século XIX, ajudou a consolidar essa tradição. A Associação Comercial de Santos (ACS), fundada em 1870, teve papel central nesse processo, impulsionando o crescimento dos negócios após a chegada da ferrovia. O centro histórico simboliza essa trajetória, e muitas empresas mantêm escritórios na cidade para agregar esse legado às suas marcas. Hoje, porém, a antiga “praça cafeeira” está majoritariamente na internet: é possível negociar de qualquer lugar do Brasil ou do exterior. Ainda assim, estar em Santos traz vantagens, como a proximidade com o porto para acompanhar operações logísticas, além da qualidade de vida e da proximidade com São Paulo, maior centro financeiro da América do Sul. O senhor esteve à frente de iniciativas que se tornaram marcos para Santos? A revitalização do Centro Histórico de Santos começou com um movimento nosso, ainda em 1994, quando criamos a Associação Centro Vivo. Naquele momento, escrevemos uma carta ao então governador Mário Covas pedindo a recuperação do prédio da antiga Bolsa Oficial de Café. Fizemos inclusive um pré-estudo com um arquiteto especializado em revitalização urbana para mostrar que era possível devolver vida àquela região. Em determinado momento, o governador reconheceu a importância do projeto e concordou com a restauração, mas fez uma provocação: que o setor cafeeiro assumisse a criação de um museu no local. Já tinha participado de um projeto como esse? Não sabíamos por onde começar. Levei a proposta à Associação Comercial de Santos, onde era diretor, expliquei a situação e assumi a responsabilidade de viabilizar o projeto. Com apoio da Secretaria Estadual de Cultura e a criação de uma associação de amigos reunindo entidades do café de todo o Brasil, recebemos dois andares do prédio para dar origem ao Museu do Café, hoje pertencente ao órgão estadual. A Associação transformou-se em uma OS. Em 2012, a Secretaria nos convidou a participar também da gestão do Museu da Imigração, pela mesma OS. Paralelamente, atuei por 20 anos como coordenador do Concurso de Qualidade do Café de São Paulo, que está em sua 24ª edição. Sempre entendi que preservar a história, valorizar a qualidade e fortalecer instituições é garantir o futuro do café. Como transformar tradição em inovação sem perder a essência, sobretudo em um segmento tão histórico e simbólico quanto o café? Valorizando essa história, melhorando e recuperando o centro histórico, além de investir cada vez mais na logística e na infraestrutura do porto e da cidade. Qual o simbolismo de escolher a Rua do Comércio como sede da BTP e de outras empresas logísticas? Essa decisão reforça a vocação histórica de Santos como polo estratégico do comércio e da logística? Reforça sim e dá ainda mais identidade à região. É uma decisão que leva a um “ganha/ganha”. Ganham as empresas e ganham a cidade de Santos, sua história e seu porto. O que mais o emociona na sua trajetória no café, reconhecimento, legado ou o papel de Santos no cenário mundial? O conjunto. As três atividades sempre estiveram interligadas. Cresceram em conjunto, interagindo e se realimentando. Com esta entrevista, a série Protagonistas chega ao final. Agradecemos a todos que participaram ao longo dessa jornada. Cada história compartilhada reforça a força, o talento e o potencial da nossa comunidade.