[[legacy_image_69882]] Desde janeiro, quase todo dia por volta de 7 horas, um homem calça suas galochas e vai à praia – à Ponta da Praia. Em vez de uma caminhada pelo calçadão, Marco Antônio de Moraes, de 44 anos, vive nas pedras. Dali, retira todo o lixo que chega pelo mar. O costume lhe rendeu apelido: “Marquinhos, o amigo do mar”. Muita gente passa e cumprimenta o homem moreno, de cerca de um metro e oitenta, pai de três filhos, que semana passada fez aniversário e vestiu a roupa de que mais gosta entre as poucas que carrega na mochila: uma camiseta branca com a frase: “Tu és eternamente responsável por aquele que cativas” – uma variação de um trecho de O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. De fato, o homem criado em Vicente de Carvalho se motiva pelo sorriso das pessoas. Marquinhos foi estivador, portuário e até modelo na juventude. Como Garoto Verão num evento, conheceu a ex-mulher, de quem se separou há dez anos. Foi viver com a avó e os tios. Por um desentendimento, saiu de casa. Situação de rua Há três anos está em situação de rua. Primeiro, em Praia Grande. Depois, veio para Santos trabalhar no que ele nomeia como chamado espiritual. Conhece até algumas tartarugas. Segundo os santistas que também cruzam com o homem, ele nunca apareceu bêbado ou sob efeito de qualquer droga. Dormia num ponto de ônibus até a obra do bairro começar e ele perder mais um teto. Agora, se acomoda no chão, na descida da rampa para caiaques. Amizades Marquinhos é daquelas pessoas invisíveis para uns e importantes para outras. É mal visto, por exemplo, por alguns funcionários da Prefeitura, que se irritam quando ele tira o lixo do mar e o deposita no calçadão – porque não há lixeira de tamanho suficiente para todo o lixo recolhido. Daí, o amigo do mar ganha até defensores. Um deles é Ricardo de Carvalho, de 67 anos, aposentado que pesca por ali. “Você acredita que um dia um fiscal da Prefeitura brigou com ele, porque ele recolhe o lixo do mar e o coloca nas calçadas ao lado das lixeiras? Eu logo o mandei parar, pois o cara ainda está fazendo o trabalho que ninguém faz!”, lembrou. Quem também faz questão de parar a caminhada para um aceno ou conversa é Ivan Berger, jornalista e dono de uma distribuidora de pescados, de 67 anos. Foi ele quem apelidou Marquinhos como Amigo do Mar, contando sua história num blog pessoal e no Facebook. Mais que conversa, tem dono de restaurante por ali que o alimenta – fato que o deixa muito agradecido. “Tudo, até a cueca que uso, é doada”, diz Marquinhos, com humildade e nenhuma vergonha. O lixo Quem pensa que o homem faz um trabalho superficial, se engana. Ele mergulha – por isso conhece as tartarugas – e retira televisores, concreto com pregos, plásticos e outros tipos de lixo. “Mas o pior é o plástico, porque as tartarugas pensam que é comida e isso mata elas”, conta ele mostrando mãos machucadas. “Sabe o que é isso? Anzol que eu tiro de tartaruga. Elas são minhas amigas e nadam comigo. Estão sempre por aqui. A maior é a Esmeralda; a menor e mais clarinha é a Pérola e a outra é a Diamante”, contou ele sobre as três que apareceram algumas vezes durante a entrevista. Ainda mostrando o amontoado de lixo, Marquinhos diz que seu pagamento é a recompensa por ver o mar mais limpo e o sorriso das pessoas que o enxerga. Fazendo jus à camiseta, ele interrompe mais uma marcha e recebe abraços emocionados. Ali, divide sonhos de que tudo vai melhorar, inclusive a poluição. Sapatinho de boneca é símbolo de esperança e de amor Entre os penduricalhos que Marco Antônio de Moraes, o Amigo do Mar, leva na mochila, há iscas e outros apetrechos de pesca. Mas um objeto sai do lugar comum: um sapatinho de uma boneca abandonada na água. Ele está lá para lembrar de um de seus sonhos: conhecer a netinha, que nasceu há poucos meses. “O meu maior sonho, de verdade, era poder juntar minha família. Porque tudo o que tenho de mais importante na vida são meus três filhos, a Bianca de 24; o Bruno de 22 e a Sara, de dez. Queria dizer que eu os amo”, contou o pai, em lágrimas. Segundo ele, os três não sabem de seu paradeiro. O bebê a quem Marquinhos se refere é a filha de Bruno. Ele só soube que virou avô porque uma familiar o encontrou no calçadão e avisou. Perguntado sobre os motivos de ter saído de casa, esquivou-se. E se a família o perdoaria e o deixaria voltar para casa, no Jardim Boa Esperança, em Vicente de Carvalho, Marquinhos não soube dizer. Mas o contrário, sim. Lar doce Lar Como forma de agradecimento, Marquinho tem outro sonho para tornar o reencontro, se ocorrer, mais agradável. Ele queria que tudo acontecesse no quadro Lar Doce Lar, do Caldeirão do Huck, da Rede Globo. “Queria dar moradia digna a minha avó e ter onde descansar”, conta o amigo das tartarugas que topa qualquer emprego. “Porque aí vou ter como pagar e nas horas vagas, vou poder continuar mergulhando e fazendo a limpeza. Já que sonhar não paga, Marquinhos até sorri quando revela um último desejo: um barquinho para seguir o que ele se sente predestinado. “Aí seria maravilhoso”.