[[legacy_image_297756]] A poucos meses de completar 100 anos, a santista Carolina Ramos tem uma coleção de histórias para contar em mais de 20 livros publicados. Entre eles, poesias, trovas e biografias. Sua história com a escrita começou há 88 anos, quando ela ainda era uma criança, de apenas 11 anos, no Colégio São José. Ela relembra que uma professora muito exigente pediu uma redação e, naquela ocasião, ela se doou 100%, entregando o seu melhor nas palavras. “Foi um trabalho sobre como eu gostava de escrever, e eu fiz aquilo muito gostosamente. Até então, eu não sabia que gostava de escrever, mas escrevi. Eu abri a minha alma”. Mas, apesar disso, ao entregar para a professora, teve uma grande surpresa. A educadora não acreditou que a dissertação poderia ter sido escrita por uma criança. “Ela me chamou e me passou um sermão, dizendo para que eu nunca mais fizesse uma coisa dessas, porque era feio e que aquele trabalho não tinha sido feito por uma criança”. Carolina ainda conta que foi indiretamente valorizada, mas que se sentiu arrasada na época e que isso fez com que ela criasse uma insegurança com a escrita, escrevendo apenas o necessário para que não duvidassem dela. Mas, com o passar dos anos, as coisas mudaram e ainda estudando, ela voltou a se entregar ao que amava: a escrita e a arte. Posteriormente, ela se tornou amiga dessa mesma professora, que virou uma grande admiradora de seu trabalho. [[legacy_image_297757]] FamíliaCarolina foi filha única e relembra que quando era criança, seu pai andava pela casa recitando livros de poesia. “Naquele tempo eu nem ligava muito para poesia, mas aquilo marcou em mim”. A escritora também conta que sempre amou ler e se deleitava com os grandes escritores de clássicos brasileiros. Após a escola, em meados no século 20, a poetisa diz que sonhava em se tornar médica, mas a vida a levou para outros rumos e ela se tornou professora e claro, sempre se dedicando à arte, como ela sempre amou. Mas a poesia entrou na sua vida, de fato, após o nascimento de sua segunda filha, nos anos 50, que tinha restrição alimentar. “A princípio, ela não dormia a noite inteira, então, com ela no colo, um belo dia, não sei porquê, eu comecei a fazer poesia”, conta, enfatizando que de lá para cá, nunca mais parou. [[legacy_image_297758]] PublicaçõesO primeiro livro publicado por Carolina Ramos se chama ‘Sempre’, e ganhou vida nos anos 60, após o incentivo de um casal de amigos. Um deles, inclusive, encaminhou uma de suas poesias para A Tribuna na época. O seu livro foi tão impactante, que emocionou o considerado ‘príncipe dos poetas’, Guilherme de Almeida. “Ele disse ‘peça para essa moça o que ela quiser’. Eu devia ter pedido um prefácio, mas morria de vergonha”, conta divertida. De lá para cá, mais 22 livros foram publicados, entre eles ‘Meus bichos, bichinhos e bichanos’; ‘Histórias que a bisa conta’; ‘Destino’; ‘Canta…Sabiá’ e o ‘Príncipe da Trova’. A literatura foi e é a grande companheira da centenária, que encontrou nas palavras o seu refúgio e maneira de expressão. “A alma do poeta é aberta. Você sente e escreve. Então é o que vem e aqui tem de tudo” Aliás, a poetisa diz que seu trabalho evoluiu junto com a tecnologia. Quando começou sua jornada, usava uma máquina de escrever e hoje, apesar da idade, não se vê sem o computador. “Se é do meu tempo, vou usar”, brinca. Com cerca de cinco mil trovas escritas, em 2021, a escritora santista foi eleita a Princesa dos Trovadores do Brasil. [[legacy_image_297759]] AmoresE como uma boa poetisa, Carolina Ramos viveu intensas histórias de amor, que inspiraram sua escrita. A primeira delas foi com o motivo da publicação de ‘Príncipe da Trova’, Luiz Otávio, que lhe proporcionou uma paixão avassaladora por sete anos. Após a perda do seu primeiro amor, no final da década de 70, Carolina conheceu Cláudio, um jornalista e escritor da capital de São Paulo que veio para Santos a trabalho e se apaixonou por ela. Com ele, a jornada começou com uma bela amizade, que, aos poucos, se transformou em um amor que lhe acompanharia até o final da vida dele, em dezembro do ano passado, após 40 anos juntos. Em comum com os dois amores, estava a paixão pelas duas palavras. “Foram dois homens maravilhosos na minha vida”, conta. Carolina Ramos, deu sentido à uma frase que diz que se um poeta se apaixonar, a pessoa amada, jamais morrerá. Com esses dois homens, ela ressignificou o amor e se inspirou para outros livros. Além dos seus amores, a poetisa diz que encontra inspiração em muitos detalhes, inclusive na vista de sua janela. “Eu acho que a inspiração vem de fora para dentro, e de dentro para fora”. Sobre as dificuldades como escritora? Ela diz não ter encontrado nenhuma, pois sempre foi espontânea com o que acreditava. Mas que teve muito trabalho em algumas de suas obras. VidaUma estante na sala de sua casa expõe uma coleção de prêmios que ganhou ao longo de sua jornada. São tantos, que Carolina perdeu as contas. Eles contrastam com os quadros que ela mesma pintou e estão espalhados pela casa. [[legacy_image_297760]] A mulher que já foi Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Santos e da União Brasileira dos Trovadores, tem muito orgulho de sua trajetória. Com olhos meigos e uma voz doce, de quem tem quase 100 anos de experiência, Carolina diz que nunca se arrependeu do que escreveu e que a poesia estava com ela na alegria e na dor. “As palavras são a expressão da minha alma. Eu acho que se eu não tivesse palavras, se elas partissem da boca para fora, elas não diriam nada. Mas o que vem de dentro (coração) é a expressão da sua alma. É a expressão da sua vida, dos seus sentimentos”, finaliza.