[[legacy_image_146313]] O músico Jean William, cantor negro lírico de 36 anos, teve a arma apontada para si por um policial militar branco durante uma abordagem na travessia de balsas entre Santos e Guarujá na quinta-feira (27). Ele estava dirigindo seu carro, junto com um amigo, e foi questionado se era proprietário do veículo de luxo e se havia drogas dentro dele. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Em um dia de folga e de muito calor na cidade, Jean decidiu ir ao Guarujá para curtir um dia de praia junto com um amigo. O cantor dirigiu seu carro, considerado de alto padrão, e iria para a cidade pela balsa. Ele parou o veículo no início da embarcação. Com os vidros fechados e o ar-condicionado ligado, minutos depois Jean notou um policial apontando uma arma para ele. "O policial apontou a arma de uma forma muito ríspida e de muita autoridade, e eu sem entender nada do que estava acontecendo. Ele ordenou que eu e meu amigo saíssemos do carro, com as mãos para cima", relembra. Acompanhado por um outro soldado, o PM questionou, aos gritos, se o veículo pertencia a Jean e se havia drogas dentro dele. "Abriram o porta-malas, encontraram duas cadeiras de praia e deram mais uma olhada. E só". Depois da revista, Jean e o amigo entregaram documentos pessoais e informaram suas atividades. Eis que um terceiro policial apareceu e questionou a dupla se tinham feito algo estranho no caminho. "Ele disse que receberam uma denúncia de suspeitos e eu perguntei 'qual denúncia, moço?'. E simplesmente não me responderam. Perguntei do que estávamos sendo suspeitos e também não me responderam", relata. Depois disso, os policiais devolveram os documentos e deixaram o local, sem nada explicar. Segundo Jean, ele e o amigo se sentiram envergonhados. "Você pensa, estávamos na frente da balsa, com as mãos pra cima. A balsa lotada assistindo. Era praticamente um palco e todos nos carros assistindo ao espetáculo do menino com a mão pra cima. Foi um constrangimento, um susto enorme", diz. [[legacy_image_146314]] Pensamento ao longo do diaDepois do episódio, o passeio na praia continua, mas de um jeito totalmente diferente do planejado para a folga. Jean disse que passou o dia 'se remoendo'. "Não foi nada fácil. FIcamos nos remoendo toda a tarde, que era um dia livre, de folga, que tinha para descansar. Estava na praia tentando entender o que tinha motivado a polícia a agir daquela forma conosco". O artista desabafou sobre as consequências do racismo estrutural no dia-dia de pessoas negras. "Não tenho intenções e nem quero brigar. Tenho um profundo respeito pelos trabalhadores e trabalhadoras que prestam serviço para a sociedade. O racismo estrutural existe, né? A gente vê isso o tempo todo assim, quem sofre racismo, sente, percebe. É uma coisa tão enraizada que às vezes o indivíduo comete o ato de racismo e não percebe, porque não é uma cultura, é uma cultura estruturada", afirmou. Por fim, a PM ressaltou que seus procedimentos operacionais de abordagem e fiscalização são baseadas em princípios legais e técnicos. PerfilNatural de Sertãozinho, no interior de São Paulo, Jean atua na música clássica desde os tempos de adolescente, influenciado pelo seu avô. Ele entrou na Universidade de São Paulo (USP), se formando na Escola de Comunicação e Artes, quando conheceu o maestro João Carlos Martins, seu padrinho. Graças ao maestro, ele participou de diversas apresentações no Brasil e em todo o mundo. Jean já fez performances para o Papa Francisco, presidentes do Brasil, além de participações junto com cantoras como Laura Pausini e Sandy. Desde a pandemia, se mudou de São Paulo para Santos para realizar um sonho: aprender a surfar. Desde então, ministra aulas de canto online para alunos de todo o Brasil. [[legacy_image_146315]] DenúnciaNo dia seguinte, Jean entrou em contato com Elizeu Soares Lopes, ouvidor da Polícia Militar, para abertura de averiguação do caso. Em nota, a Polícia Militar esclareceu que não há registro de denúncia formal sobre os fatos relatados pela reportagem. A Corregedoria da instituição está a disposição da víitma para formalização da denúncia, junto à sede do Comando de Policiamento do Interior-6 (CPI-6), localizado na Avenida Coronel Joaquim Montenegro, 282, bairro Aparecida, em Santos.