Aos 19 anos, Carolina Miranda Aranha precisou abandonar a prova do vestibular para Medicina que mais queria fazer. Durante o exame da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em novembro de 2015, sentiu formigamento nas mãos e ficou com a visão embaçada. Cinco meses depois, receberia o diagnóstico de esclerose múltipla. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Naquele momento, surgiu outra pergunta: ainda seria possível ser médica? A resposta veio do pai. “O que você tem não vai mudar o que você é. Você quer fazer Medicina? Você vai fazer Medicina”, ouviu. Dez anos depois, Carolina é médica generalista, atua em pronto-socorro e atende pacientes com a mesma doença que descobriu em 2016. A esclerose múltipla é uma doença autoimune, inflamatória e crônica que afeta o sistema nervoso central. Os sintomas variam e nem sempre apontam claramente para a doença. No caso de Carolina, os primeiros sinais foram os que surgiram no vestibular. “Eu fiquei muito assustada, a ponto de não entender o que estava acontecendo”, lembra. Carolina considera que teve diagnóstico relativamente rápido, em comparação a pacientes que passam anos até fazer exames e confirmar a doença. O processo, porém, não terminou com o diagnóstico e “demora alguns anos para a ficha realmente cair”. Aos poucos, entendeu que seria necessário mudar o roteiro, mas não entregar à doença o direito de escrever o final. Ao se mudar para Santos para cursar Medicina, precisou adaptar-se. O calor poderia intensificar temporariamente alguns sintomas, e a rotina acadêmica exigiria cuidados. Antes de entrar na faculdade, pessoas próximas haviam sugerido outro curso, alegando que a Medicina seria pesada demais por causa da carga de estudos, do estresse e da rotina profissional. Carolina decidiu seguir. Hoje, reconhece que a doença impõe limites. Memória e velocidade para assimilar informações podem ser afetadas, fazendo parte das tarefas exigir mais tempo. A carga horária também precisa ser considerada. “Para uma pessoa com esclerose, ela dura um pouco mais”, explica, sobre o tempo necessário para estudar. “Então, o esforço na Medicina é redobrado.” Ela continua trabalhando em pronto-socorro, na Santa Casa de Santos, como médica clínica na Clínica Santa Marcelina e como médica do trabalho em clínicas ocupacionais. Também se prepara para seguir na ortopedia, especialidade escolhida apesar da expectativa de que, pela história, acabaria na neurologia. “Mais uma vez, eu não vou me focar na doença, eu vou viver outra coisa.” Limitações não definem identidade, afirma médica, que adota cuidados e avalia rotina A esclerose acompanha Carolina há dez anos. Sua manifestação é remitente-recorrente, com períodos de crises seguidos de recuperação. A segunda crise aconteceu nove anos depois do diagnóstico e não deixou sequelas. A estabilidade, segundo ela, está relacionada ao tratamento, que inclui medicação, suplementação de vitamina D e atividade física orientada. Hoje, musculação e beach tennis fazem parte da rotina. Antes, o receio dos efeitos da doença a fazia evitar exercícios. A condição continua impondo escolhas. Em um plantão prolongado ou diante de carga elevada de trabalho, precisa avaliar se o esforço é compatível com sua realidade. Ela não nega essas limitações, mas não permite que definam sua identidade. “Se eu tivesse abandonado a minha vida e falasse ‘agora vou viver para a esclerose’, eu não seria médica.” No pronto-socorro, Carolina passou a atender pessoas assustadas com sintomas neurológicos ou que já convivem com a esclerose e apresentam um novo surto. Em uma dessas situações, conheceu uma paciente que resistia à possibilidade do diagnóstico e se reconheceu nela. “Eu falei para ela: ‘Aceita o diagnóstico. Está tudo bem, ele não vai te definir’.” Desafio anterior A experiência pessoal também evidenciou um obstáculo para quem recebe o diagnóstico no Brasil: chegar até ele. Na avaliação da médica, a escassez de neurologistas especializados e a demora para exames, especialmente na rede pública, prolongam investigações já complexas. Ela cita pacientes que aguardam anos por ressonâncias magnéticas, fundamentais para a investigação. O problema, segundo ela, não está necessariamente na ausência de tratamentos disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS), mas na dificuldade de chegar ao especialista e confirmar a doença, pois, para quem espera, cada consulta adiada pode representar meses de incerteza. Por isso, dez anos depois de abandonar um vestibular por causa dos primeiros sintomas, decidiu falar sobre a doença. “Não mude a sua vida por causa disso. Não pare a sua vida por causa disso. E não deixe de sonhar por causa da doença”, aconselha.