A relação da Baixada Santista com o oceano foi colocada em debate, a partir da perspectiva de desenvolvimento que una geração de riqueza, preservação ambiental e participação da sociedade. A primeira edição do Blue Room, ontem, no auditório do Grupo Tribuna, reuniu autoridades, pesquisadores e representantes de diferentes setores para discutir a chamada Economia Azul. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O encontro marcou o início da Jornada de Transformação Azul da Baixada Santista, proposta que busca construir uma visão regional sobre as oportunidades ligadas ao mar e criar caminhos para uma economia oceânica sustentável e inclusiva. Durante os debates, especialistas destacaram que a região concentra características únicas, com a presença do maior porto da América Latina, áreas de preservação ambiental, comunidades tradicionais, turismo, pesca, indústria e desafios sociais que refletem conflitos encontrados em diferentes partes do mundo Olhar para o mar e para a terra A discussão sobre Economia Azul passa por uma mudança de perspectiva sobre a relação da sociedade com o oceano. Para o pesquisador em Ciências do Mar Ronaldo Christofoletti, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a Baixada Santista tem um papel estratégico nesse processo por concentrar, em um mesmo território, diferentes atividades econômicas, desafios ambientais e desigualdades sociais. De um lado, há o maior porto da América Latina, o polo industrial de Cubatão, áreas urbanas desenvolvidas e atividades econômicas de grande porte. De outro, existem comunidades tradicionais, áreas de preservação, manguezais, restingas e regiões com baixos índices de desenvolvimento humano. Para Ronaldo, justamente essa diversidade torna a região um território capaz de mostrar como diferentes setores podem conviver de forma sustentável. “Se conseguirmos trabalhar com o nível da Baixada Santista e mostrar os caminhos de reconhecer esses desafios e produzir uma economia oceânica, uma economia azul que seja sustentável e inclusiva, nós conseguimos ajudar o mundo”, afirmou. Na sequência, a professora Leandra Gonçalves, do Instituto do Mar da Unifesp, trouxe a discussão para a realidade regional, defendendo que a transformação azul não deve ser pensada apenas a partir do oceano, mas a partir da integração entre continente, costa e mar. Segundo ela, muitas das pressões que atingem o litoral têm origem em outras áreas do território, como rodovias, indústrias e cadeias produtivas que dependem da infraestrutura da região. “O mar da Baixada Santista começa a 80 quilômetros de distância”, explicou. Leandra destacou que a região reúne diferentes economias que disputam o mesmo espaço, como porto, pesca, petróleo e gás, turismo e conservação ambiental. Para ela, o desafio está em criar mecanismos para que esses setores deixem de atuar de forma isolada e passem a construir uma agenda conjunta. “A transformação azul não é sobre o mar, mas sobre como a gente decide sobre ele”, afirmou Leandra, ao defender a criação de espaços permanentes de diálogo entre governos, setor privado, universidades, comunidades tradicionais e sociedade civil. Planejamento, ciência e união entre setores são fundamentais Pierin: comunicação será pilar / Imai: pesca é sustentabilidade (Vanessa Rodrigues / AT) O futuro do litoral passa por deixar de enxergar o oceano como paisagem e compreendê-lo como um território estratégico de desenvolvimento responsável. Esse foi o ponto central das discussões do segundo painel sobre economia azul. O capitão dos Portos de São Paulo, Leandro Mendes, destacou que um dos principais desafios para o avanço da economia azul está na capacidade de transformar conhecimento em estratégia, com planejamento, metas e integração entre diferentes áreas. “Às vezes a gente sabe o que precisa fazer, mas falta saber como fazer. Precisamos de planos com metas claras, indicadores e acompanhamento para corrigir os caminhos quando necessário”. Entre os desafios, está o planejamento espacial marinho, que busca organizar diferentes atividades no oceano para evitar conflitos entre setores, além de questões relacionadas à governança, mudanças climáticas, transição energética e exploração de recursos minerais. O coordenador de internacionalização e pesquisa da Universidade Santa Cecília (Unisanta), Daniel Siquieroli, ressaltou que a formação de profissionais será um dos caminhos para consolidar a economia azul. Segundo ele, o tema exige uma atuação multidisciplinar, envolvendo áreas como biologia, tecnologia, gestão, economia, legislação e inovação. “Não é uma área restrita ao meio ambiente. Ela envolve economia, administração, tecnologia, logística e capacidade de diálogo com diferentes setores da sociedade”, afirma. Siqueiroli destacou o papel das universidades na conexão entre pesquisa e sociedade, levando conhecimento científico para comunidades tradicionais, autoridades públicas e população em geral. O historiador e criador do projeto Canal Azul, Gabriel Pierin, reforçou que a comunicação será fundamental para aproximar a população dos temas relacionados ao oceano. Para ele, o principal desafio é fazer com que as pessoas entendam que suas vidas dependem diretamente do mar. “O Brasil ainda enxerga o oceano como uma paisagem. Está nos cartões-postais, nas fotos e nas viagens, mas pouco se fala sobre a importância real que existe dentro dos oceanos”. O consultor na área de pescados Roberto Imai destacou a pesca como uma das atividades mais antigas relacionadas à economia azul e defendeu que a sustentabilidade precisa considerar os aspectos ambiental, social e econômico. “A pesca não vive sem sustentabilidade. Se não tiver peixe, não existe atividade. Precisamos de um oceano limpo, saudável e com respeito aos períodos de reprodução”. Tatsubô: Santos já trabalha / Siquieroli: formação irá consolidar / Mendes: conhecimento e estratégia (Vanessa Rodrigues / AT) Imai também ressaltou que a pesca deve ser vista como parte da economia real, gerando renda, empregos e mantendo tradições culturais da região. O diretor do Departamento de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Prefeitura de Santos, Fabio Tatsubô, afirmou que a economia azul já acontece no Município, mas precisa de uma estratégia conjunta para ampliar seus impactos. “O desafio agora é sair do eu e trabalhar mais no nós. Não basta assinar compromissos ou fazer fotos. Precisamos agir juntos”, afirmou. Blue Room recebe certificação por compensação de emissões de carbono (Vanessa Rodrigues / AT) Três organizadores do Blue Room receberam, ontem, um certificado de compensação por emissões de carbono (carbono zero): o diretor de Negócios do Grupo Tribuna, Demetrio Amono (à esq.), o diretor de Sustentabilidade da Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Santos, Cláudio Bastos (o 2º, da esq. à dir.), e o presidente da Rethinking Works, Mathias Mangels (à dir.). A entrega coube ao diretor da Sanches e Concí ESG, Erik Sanches, segundo o qual a certificação reflete o compromisso ambiental adotado na realização do encontro. A organização do Blue Room adquiriu créditos de carbono. Significa uma compensação do impacto ambiental gerado pelo evento: cada crédito neutraliza as emissões na proporção de um crédito para cada tonelada de carbono. O valor investido na aquisição é aplicado, por exemplo, em áreas ambientalmente preservadas ou no auxílio a atividades comunitárias sustentáveis.