[[legacy_image_273754]] Santos, 12 de junho de 1993. Marcio José, de 20 anos, e Ivy Simões de Lima, de 19, se olharam mutuamente e sorriram. Com um brilho no olhar, e inspirados pelo Dia dos Namorados, os dois jovens pombinhos, de maneira terna e apaixonada, tocaram seus lábios num profundo beijo de amor, no meio de uma verdadeira multidão. E assim ficaram por horas, dias, semanas e meses, numa prova de resistência que impressionou o Brasil, primeiro pelo inusitado e, mais tarde, pelo descontrole da situação. Até porque, várias duplas entre o povo que cercava o casal também repetiam o gesto, pois ali estavam como concorrentes de uma disputa que movimentou os santistas: a Maratona do Beijo. A ideia nasceu da cabeça dos responsáveis pelo Miramar Shopping. A proposta da ação era atrair consumidores para aquecer as vendas do Dia dos Namorados. Os organizadores pensaram até em envolver o Guiness Book of Records, pois acreditavam na possibilidade da quebra de uma marca estabelecida para o beijo mais longo da história (com intervalos), que fora de 17 dias, registrada em 1984, por um casal norte-americano. Mas o Guiness decidiu não enviar ninguém, o que não impediu o shopping a prosseguir com seus planos. [[legacy_image_273755]] Para atrair os beijoqueiros, foi estabelecido um prêmio e tanto: um automóvel zero quilômetro (um VW Gol 1000, avaliado à época em Cr\$ 342 milhões – equivalente hoje a R\$ 85 mil). Com isso, o número limitado para inscrição, 50 casais, foi preenchido mais rapidamente do que dar um "selinho". Festa e estresse A largada da prova foi dada no Dia dos Namorados. Ao sinal dos juízes, as bocas se colaram, e não podiam desgrudar de jeito algum. Entretanto, no começo, tudo era molezinha. Os casais se beijavam das 10 às 22 horas, com direito a um intervalo de uma hora para o almoço e dois de cinco minutos para idas ao banheiro. Mas, se quisessem dizer alguma coisa, deveriam fazê-lo com o canto da boca. É, não chegava a ser propriamente uma cena romântica. [[legacy_image_273756]] Estava mais do que claro que a paixão não foi, em nenhum momento, o combustível motriz que movimentou os "acalorados" beijos exibidos em público pelos participantes da curiosa maratona. Até porque, os que se arriscavam a manter contatos labiais, digamos, mais arrebatadores, estavam sujeitos a abandonar prematuramente a prova. E como não havia ninguém disposto a sair dali com as mãos abanando, a tática comum adotada pelos "atletas dos lábios" era a mesma: colar-se à boca do parceiro e manter-se, por horas a fio. Os casais ficavam expostos ao curioso público, que se aglomerava a cada dia em maior número, boquiaberto diante do esquisito espetáculo. Todos estavam cientes que os grandes inimigos da batalha seriam o cansaço físico e, sobretudo, o estresse mental. Para derrotar o segundo, a grande tática, que se tornou comum à maioria dos participantes, era ficar visualizando o movimento dos curiosos e contar o que havia à volta, fossem letreiros, objetos expostos nas vitrines das lojas e até o número de consumidores que subiam e desciam pelas escadas rolantes. A distração matemática, na maioria dos casos, funcionou como um bálsamo para a alma dos "apaixonados". Outro suporte à disposição dos concorrentes era uma equipe de atendimento médica e fisioterápica. Não era incomum testemunhar os participantes sendo submetidos à aferição de pressão arterial no pleno exercício do beijo. Mídia e polêmica O concurso atraiu rapidamente a atenção da opinião pública e, consequentemente, da mídia de todos os cantos do País. Assim, os casais, nos intervalos, geralmente eram interpelados por ávidos repórteres de jornais, rádios e emissoras de televisão, todos à caça das melhores e mais inusitadas histórias. As entrevistas revelavam motivações e táticas adotadas para que fosse ao menos mantida a dignidade diante da exposição extravagante. Desde o primeiro dia de prova, santistas e turistas se aglomeravam para ver de perto o espetáculo. Parte da sociedade chegou a rotular a Maratona do Beijo como um "espetáculo de gosto duvidoso". Para os organizadores, entretanto, o tiro foi considerado certeiro. Independentemente da visão dos curiosos, o faturamento do shopping foi catapultado para as alturas. Só a Mesbla do centro de compras faturou 900 mil dólares a mais em junho de 1993 em função da atração. Com quatro dias de prova, em 16 de junho, 26 das 49 duplas inscritas já haviam abandonado o "barco do amor". Mais quatro dias, outras seis desistências. No dia 26, somente 16 casais resistiam, contudo, à beira de um colapso estressante. No 45º dia, os ânimos dos competidores estavam à flor da pele e a situação ficou mais tensa com o arrocho nas regras. O início da jornada diária foi antecipado para as 7h30, com o shopping ainda fechado, e o encerramento das atividades beijoqueiras para as 2h30, quando as únicas testemunhas eram apenas os fiscais da prova. As idas as banheiros passaram a ser proibidas. Além do beijo muito puxado, teve gente que protagonizou o inevitável xixi nas calças. Houve quem apelasse às fraldas geriátricas. "É para derrubar mesmo", admitiu um dos coordenadores da Maratona. O fim Passados dois meses, a direção do Miramar e os organizadores do concurso, diante da perseverança demonstrada por três bravos casais sobreviventes, resolveu fazer uso, então, do que todos passaram a chamar de tática de "extermínio". A partir do dia 9 de agosto, o beijo passaria a ser 24 horas. Não haveria mais intervalo. A partir dali, era tudo ou nada. Desta forma, após 62 dias, 8 horas e 15 minutos de duração, terminava às 18h15 do dia 12 de agosto, enfim, a Maratona do Beijo. Dois casais ainda resistiam quando a direção da prova decidiu dobrar o prêmio, dando um carro para cada dupla. Assim, os jovens Marcio José e Ivy Simões, além de Sandro Gemelgo, 20 anos, e Neusa Ribeiro, 26, foram declarados os "campeões do beijo". Muita gente foi ver a entrega da premiação. Com as chaves dos carros nas mãos, os ganhadores distribuíram beijinhos (mais??) aos amigos e ao pessoal que acompanhou a competição desde o início. Neusa, uma das vencedoras, chegou a dizer que, ao final da maratona, ficou com fobia de beijo. "Quando subia a escada rolante para chegar ao beijódromo, a garganta secava e eu começava a tremer". Assim, fez-se mais uma incrível história da terra santista. Um beijo para vocês! Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de Santos. Conheça seu trabalho no site www.memoriasantista.com.br