[[legacy_image_292578]] No Dia Nacional do Voluntariado, comemorado nesta segunda-feira (28), a Reportagem embarcou em uma tarde de sábado, quando duas voluntárias vestidas de doutoras-palhaças adentraram a um quarto da ala do Sistema Único de Saúde (SUS) de um hospital em Santos. Naquele dia, dispostas a levar um pouco de afeto para famílias que enfrentam um momento difícil, descobriram a real missão de um trabalho voluntário. O quarto pequeno e quente abrigava uma mulher, que devia ter seus mais de 70 anos. Magrinha e debilitada, ela estava acompanhada da família. E, entre uma piada e outra, uma música que dizia ‘como é grande o meu amor por você’, o ambiente se tornou melancólico. A família chorou e minutos depois alguém confessou que aqueles estavam sendo os últimos dias da paciente com câncer terminal. “Vocês mudaram a nossa tarde. O que fizeram hoje, sem dúvidas, ficará guardado para sempre”, disse um familiar, dando um novo sentido ao trabalho voluntário. Apesar de parecer incomum, essa é uma cena típica para os voluntários da Organização Não Governamental (ONG) Tchau Dodói, que nasceu em Santos, em 2015, a partir da visão de um grupo de amigos para levar alegria para adultos e idosos internados em hospitais da cidade. “Começamos os trabalhos com seis doutores, mas tomou uma proporção tão grande que chegamos a trabalhar com 32 voluntários”, conta Dário Corralero, de 61 anos, que hoje é presidente da Ong. De acordo com Corralero, conhecido dentro do hospital como Doutor Treze-Pada, levar esse momento lúdico para os pacientes é importante. “O teto do hospital, às vezes, é o único cenário da pessoa, que ali começa a projetar a sua vida: o que você fez, deixou de fazer e quais são suas expectativas. E algumas pessoas acabam fazendo grandes reflexões e aí um doutor palhaço chega para levar um momento de alegria”, explica. Para ele, a principal motivação para iniciar o trabalho voluntário foi fazer o bem sem olhar a quem. [[legacy_image_292579]] SuperaçãoPara Daiana Felix, de 42 anos, que nos dias comuns é analista de gestão de exportação e dentro do hospital é a doutora Lesa-Amnésia, o trabalho voluntário é mais que fazer algo bom para alguém, mas sim receber muito mais do que se pode imaginar. Lesa-Amnésia é dona das piadas sem sentido, mas por trás de toda a doação tem uma história de superação de luto. O voluntariado entrou como uma cura em sua vida. “Passei um tempo remoendo a dor da perda da minha mãe, fiquei com ela no hospital e depois, a vi partir estando no leito de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Eu tinha uma angústia muito grande dentro do peito, e acreditava que deveria curar isso”, conta. Um dia, ela viu mais sobre o voluntariado e se jogou, afirmando que hoje, o trabalho é sua dose mensal de carinho e sorriso. [[legacy_image_292580]] HumanizaçãoO corretor de seguros, Arnaldo Coutinho Duarte, de 52 anos, diz que decidiu dedicar seu tempo ao trabalho voluntário no hospital, após se identificar com o ideal de humanização hospitalar, se tornando o doutor Xaropepatosse . “Para mim, o voluntariado é dispor do seu tempo para levar o bem para aqueles que precisam, seja de um carinho, de afeto. É levar um acalento e arrancar um sorriso daqueles que estão em um leito de hospital”. Ele ainda ressalta que há pacientes carentes de atenção e que, muitas vezes, não são visitados nem mesmo por parentes. Além da atuação para adultos e idosos, Arnaldo faz parte do grupo que atende o Núcleo de Reabilitação de Excepcional São Vicente de Paulo (Nurex), em Santos, com outros voluntários. Ali a atuação é voltada para pessoas com deficiência. “Você sai da atuação revigorado. A gente entra (na atuação) achando que tem problema, e quando você sai se faz uma pergunta ‘que problema que eu tenho mesmo?’”. “Trabalho voluntário é um alimento para a alma”, diz a funcionária pública, Marli Siqueira, de 56 anos. Na organização, ela é conhecida como doutora Chica Mexerica, onde vive a realização de um sonho antigo. Ela ainda diz que sai renovada após cada trabalho e afirma que todo mundo deveria viver uma experiência como essa. Ela é uma colecionadora de momentos marcantes dentro dos corredores e quartos do hospital, os quais ela retrata com muito carinho e brilho nos olhos. “Significa tudo na minha vida. É fundamental e essencial. É indispensável para mim e, hoje, eu não sei viver sem fazer esse trabalho maravilhoso”, finaliza. [[legacy_image_292581]] TrabalhoAtualmente, a ONG atua uma vez por mês no Hospital Beneficência Portuguesa e no Nurex. Além disso, realiza alguns trabalhos pontuais em creches e asilos da Região, bem como trabalhos de doação de brinquedos, alimentos e donativos, quando solicitados. A equipe conta com 27 voluntários, sendo 22 doutores, quatro staffs e um fotógrafo. Todos trabalham em conjunto para um bem comum, que é levar o bem sem olhar a quem. 'O trabalho voluntário frequentemente leva à satisfação pessoal e a um senso de realização". A repórter que escreveu a matéria, participa da ONG e vivencia esta magia há cinco anos. [[legacy_image_292582]]