[[legacy_image_287974]] Na frente de uma loja, no número 205 da Avenida Conselheiro Nébias, na Vila Nova, em Santos, o 'Homem dos Relógios' chama a atenção há décadas. Mas foi em uma cidade pequena, no sertão de Sergipe, que Noãn Lopes iniciou sua trajetória como relojoeiro. Ele tinha 12 anos e aprendeu tudo na oficina do pai, que também exercia o ofício. “Era uma oficina pequena, de uns três metros quadrados; tinha duas mesas, uma ficava com o meu pai e outra com o meu irmão. Certo dia, ele disse que estava na hora de eu ir trabalhar lá também”, relembra. A princípio, Noãn apenas desmontava as peças e o pai limpava, arrumava e montava novamente. Logo, ele estava viajando com o pai para feiras na região, onde ele ficou conhecido como relojoeiro. “Quando eu tinha 14 anos, ele começou a me mandar para as feiras sozinho, como uma forma de teste, eu acho”. O pai deixava claro que não era para ele desmontar nenhum relógio durante suas idas solitárias às feiras. “Ele dizia ‘não desmonte relógio nenhum, apenas entregue os que estão prontos e pegue os que precisam de conserto. Mas, você sabe né… A gente é curioso”, brinca. [[legacy_image_287975]] Mas foi ainda aos 16 que ele começou a fazer o trabalho completo, enchendo o seu pai de orgulho. Pouco tempo depois, estava mudando de vida, embarcando rumo a Santos. ChegadaE aos 17 anos, no final da década de 80, ele recebeu a proposta de vir para o litoral de São Paulo, quando um tio, que morava Baixada Santista, foi visitá-lo e levou um relógio para que ele consertasse. “Meu tio disse ‘se você for para Santos vai ganhar bastante dinheiro”. Após um tempo, esse mesmo tio lhe enviou uma carta, convidando-o para morar na Cidade. Da chegada à iniciação no ofício, bastou a montagem da sua primeira banca, na Avenida Conselheiro Nébias. [[legacy_image_287976]] Dez anos após sua chegada aqui, Noãn prestou concurso e também se tornou funcionário público, conciliando os dois trabalhos. Além disso, ele se dedicou à capoeira, realizando até viagens internacionais pelo esporte. “Toda vez que eu viajava ou precisava fazer algo, meu pai vinha (de Sergipe) ficar na banca, no meu lugar”. Para a Reportagem, ele contou que o pai, já falecido, sempre teve muito orgulho e incentivou o seu trabalho. “Ele só não gostava da roupa que eu usava (bermuda e camiseta). Dizia ‘como é que vão entregar um relógio para um cara de camiseta e de bermuda?”. Um fato muito interessante é que o pai aprendeu a profissão com um cunhado, se apaixonou e se dedicou a ela. AtualmenteNoãn tem 51 anos e mora no bairro Vila Nova, próximo ao seu ponto de trabalho. Casado, é pai de duas filhas, que não seguiram o caminho da família, mas que ainda assim o enchem de orgulho. [[legacy_image_287977]] Apesar de trabalhar com as horas, ele diz não ver o tempo passar. “Às vezes, eu levo o trabalho para a casa. Quando percebo, já é de madrugada e eu estou consertando um relógio”. Mesmo com o ponteiro da vida correndo, apontando a brevidade da existência, Noãn afirma que quer viver todos os dias sendo relojoeiro. “Minha profissão sempre será essa. É uma coisa que eu não paro de forma alguma”, finaliza.