O túmulo de Maria Féa encontra-se no Cemitério da Filosofia, no Saboó, em Santos (Sílvio Luiz/ Acervo A Tribuna) O Dia de Finados, celebrado nesta segunda-feira, 2 de novembro, é uma data dedicada à memória daqueles que já partiram. Nos cemitérios, entre flores, homenagens e orações, também estão guardadas histórias que ajudam a contar a trajetória de uma cidade. Em Santos, no litoral de São Paulo, alguns desses relatos atravessaram décadas e continuam despertando a curiosidade de moradores e visitantes. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! É o caso de Maria Mercedes Féa, vítima de um crime que ganhou repercussão nacional em 1928 e que, depois de sepultada no Cemitério da Filosofia, passou a ser lembrada por fiéis que atribuem a ela a realização de milagres. Uma mala, um crime e uma história que atravessou gerações Um dos crimes mais conhecidos da história policial brasileira teve um desfecho diretamente ligado à Baixada Santista. Em 1928, o italiano Giuseppe Pistone assassinou a esposa, Maria Mercedes Féa, que estava grávida de seis meses, em um apartamento no Centro de São Paulo. Depois, colocou o corpo em uma mala e tentou enviá-la para Bordeaux, na França, utilizando nomes e endereços falsos. O caso ficou conhecido como Crime da Mala e ganhou grande repercussão na imprensa da época. Giuseppe e Maria haviam se conhecido em 1925, durante uma viagem de navio entre a Itália e Buenos Aires, na Argentina. Os dois eram naturais de Canelli, na Itália, e se casaram após um relacionamento marcado pela oposição da família da jovem. Depois de passar um período na Argentina, o casal decidiu se mudar para São Paulo. Na capital paulista, Giuseppe trabalhava em uma casa de salames e vinhos de propriedade de um primo. O relacionamento com Maria Féa, entretanto, começou a enfrentar problemas financeiros e desentendimentos. A situação chegou ao extremo na manhã de 4 de outubro de 1928. Segundo a investigação, Giuseppe descobriu uma carta escrita por Maria à sogra, na qual ela revelava informações sobre os pedidos de dinheiro feitos pelo marido. Após uma discussão, ele sufocou a esposa com um travesseiro. Três dias depois, em 7 de outubro, a mala foi embarcada no navio Massilia, no Porto de Santos. No armazém 14 do cais, uma pancada provocou uma abertura na bagagem. O forte mau cheiro chamou a atenção dos trabalhadores, que descobriram o corpo. A descoberta também revelou a presença do feto de uma menina, com aproximadamente seis meses de gestação, além de roupas da vítima e da navalha utilizada por Giuseppe para preparar o corpo para ser colocado na mala. Diferentes crimes As investigações levaram a polícia até o marido, que apresentou diferentes versões para explicar a morte. Inicialmente, afirmou que Maria Féa havia morrido após um mal súbito. Depois, alegou ter cometido o crime ao encontrar a esposa com outro homem. Em 15 de julho de 1931, Giuseppe foi condenado a 31 anos de prisão por homicídio e ocultação de cadáver. Anos depois, teve a pena reduzida e conseguiu liberdade condicional em agosto de 1944. Morreu em 1956. Sepultamento em Santos Maria Mercedes Féa foi sepultada no Cemitério da Filosofia, em Santos, na Baixada Santista. Desde então, seu túmulo passou a receber visitas de pessoas que acreditam em sua intercessão e atribuem a ela a realização de graças e milagres. Com o passar dos anos, a vítima do crime passou a ser considerada por alguns devotos uma espécie de santa popular. A mala utilizada na ocultação do corpo, por sua vez, está exposta no Museu do Crime, em São Paulo. José Pistone e Maria Féa (Fotos de domínio público) Repercussão regional Na época, o Jornal A Tribuna noticiou a morte, tratando como o Caso da Mala Sinistra, também ressaltando os limites da crueldade humana. "Há crimes de tal natureza, misteriosos, que despertam e aguçam a curiosidade. (...) De quando em quando surge um desses acontecimentos trágicos, que deixam atônita a sociedade, pela frieza, perversidade e audácia com que são praticados", afirmou a reportagem. Em 8 de outubro de 1928, o Jornal A Tribuna noticiou o crime (Acervo A Tribuna/ Imagem editada por IA)