Primeira publicação do jornal A Tribuna sobre a caça às bruxas policial de 1920 (Arquivo/A Tribuna) Quando se pensa em caça às bruxas, é comum imaginar uma cena de um passado distante. Quem prestou atenção nas aulas de história provavelmente vai imaginar um cenário situado na Europa, entre os séculos XVI e XVIII. Mas será que é preciso ir tão longe? Do outro lado do Atlântico e com alguns séculos de atraso, Santos viveu sua própria caça às bruxas em 1920. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Há 104 anos, segundo registros do jornal A Tribuna, a caça às bruxas santista foi uma iniciativa policial que começou na Vila Mathias. Na capa da edição de 1º de janeiro de 1920, uma nota foi publicada para informar a população sobre a “campanha contra a bruxaria” que seria empenhada em toda a cidade. O texto chega a mencionar que algumas das suspeitas mudaram de endereço para evitar serem abordadas pelos policiais. Neste 31 de outubro, não faltam referências da cultura-pop para celebrar o Dia das Bruxas. De Harry Potter ao Agatha Desde Sempre, série em exibição no streaming da Disney, a feitiçaria permeia o imaginário de diversas obras fantásticas. Mas o quanto a figura da bruxa está próxima do mundo e do tempo real? “As pessoas nunca dão crédito para as bruxas, ou falam sobre a caça às bruxas, até o momento que elas estão perseguindo alguém sob acusação de bruxaria”, diz o jornalista Cristiano (Chris) Rantin, mestre em comunicação, especialista em religiões pela Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR). Pesquisador da figura da bruxa, Chris é autor de um artigo acadêmico que destrincha o episódio da Bruxa do Guarujá: o caso de Fabiane Maria de Jesus, vítima de linchamento aos 33 anos pela população do bairro Morrinhos após ser confundida com uma suposta criminosa que estaria sequestrando crianças para rituais de magia negra. O que poderia ser uma história da época da Inquisição aconteceu em 2014 e mostra que, mesmo com todo o avanço científico e tecnológico, a caça às bruxas pode estar muito mais perto no tempo e no espaço do que se imagina — apenas um século ou há uma década de distância. As ‘bruxas’ santistas A empreitada contra as bruxas santistas ganhou destaque no jornal A Tribuna logo em janeiro de 1920. Seis dias após a primeira nota publicada que noticiava o início da campanha, foi noticiado que a polícia da Vila Mathias fazia um belo serviço combatendo às “exploradoras da ignorância pública”. no dia 7. O texto menciona uma investigação contra uma bruxa chamada Anna Rosa, moradora da Rua Senador Feijó. A suposta bruxa vivia dos “magros tostões” obtida com seus benzimentos, orações e “água de azeite”. A nota descreve que Anna Rosa foi chamada para tratar de uma criança doente que morava na mesma rua. Com quartos de oração e azeite derretido na água, a benzedeira teria curado o menino após três dias. “A criança sofria coisas que os médicos não descobriam: era quebranto. Resolveu, assim, a Anna Rosa, que é para os idiotas uma espécie de ‘santificada’”, diz o texto. Anna Rosa teria apontado que o quebranto — suposta influência maléfica de feitiço, por encantamento a distância. Em outras palavras, o famoso mau-olhado — do menino vinha de uma alguma vizinha invejosa. Isso gerou uma briga na rua que terminou com a bruxa e os envolvidos na confusão presos pela polícia, que continuaria a perseguir outras feiticeiras espalhadas por Santos. “E continua a coisa assim: a polícia a perseguir todas as mulheres ‘honestas’ que vivem de uns magros tostões, e que só encontram a defendê-las os que devoram estes ‘tostões magros’”, diz o texto de A Tribuna. Embora pareça estranho sob a perspectiva de hoje que a cura de uma criança tenha sido o motivo da perseguição de uma "bruxa", o pesquisador Rantin explica que isso também faz sentido dentro da lógica da caça às bruxas. Hoje, a cultura pop ajuda a atrelar a concepção de bruxaria à símbolos que vão contra a fé cristã, mas, historicamente, o cristianismo não era um escudo contra a acusação de bruxaria. As "bruxas boas", na verdade, eram até vistas como mais terríveis que aquelas que assumiram o lado satânico, pois elas enganavam a pessoa a comprometer sua própria alma. "A cura mágica era um dos pontos que era muito condenado", diz. "Era preferível morrer da doença do que curá-la e condenar o espiríto". A segunda e a terceira publicação do jornal A Tribuna sobre a caça às bruxas policial de janeiro de 1920 (Arquivo/A Tribuna) No dia seguinte à prisão da benzedeira Anna Rosa, a notícia publicada era de que a polícia havia descoberto mais um ‘conventilho’. Hoje, o termo pode ser usado para se referir à casas de prostituição, mas o que foi descoberto na época foi a casa de uma cartomante na Rua João Macuco. A bruxa apontada pelo texto era Emma Ferraz, de 60 anos. Ela foi surpreendida pela polícia durante uma sessão de leitura de cartas. Quando os policiais chegaram, encontraram a “bruxa”, seu amante e vários clientes em uma casa infestada pelo cheiro de alecrim queimado usado como incenso. Todos os presentes foram presos em flagrantes e, segundo A Tribuna, a polícia apreendeu baralhos, figurinhas da Guiné, rosários, patuás e “outras tantas traficâncias usadas para as feitiçarias”. Mestre em história social pela Universidade de São Paulo, o santista Arnaldo Ferreira Marques Júnior cogita um motivo para a perseguição da benzedeira Anna Rosa. “Esse tipo de postura nos anos 1920 me parece que tem por trás a comunidade de médicos, que se via afrontada com essa ação das benzedeiras. Seria um exercício ilegal da medicina, encalcada em superstições”, diz. Ele explica que, na época, essas campanhas eram feitas pela polícia de costumes, que se preocupava em fiscalizar comportamentos considerados “desviantes”, como também era o da cartomante. “Acredito que fosse mais a ação dos médicos da época do que da própria Igreja Católica, que talvez não se preocupasse tanto”, opina o historiador. Fabiane de Jesus foi confundida com um retrato falado (Arquivo Pessoal) A bruxa do Guarujá Quase um século depois, o medo das bruxas não tinha ficado no passado. Maio de 2014 ficou marcado por uma tragédia já foi abordada pelo programa Linha Direta e também serviu de inspiração para a novela Travessia, ambos da TV Globo: o assassinato por linchamento da dona de casa Fabiane Maria de Jesus. O jornalista e pesquisador Rantin entende que Fabiane, além de ter sido alvo de uma fake news (notícia falsa), era a “vítima ideal” para servir de bode expiatório. Naquele 3 de maio, ela fatalmente se encaixou em muitos dos estereótipos que permeiam a figura da bruxa: não era muito conhecida no bairro, estava com um suposto livro de magia negra nas mãos (na verdade, era uma Bíblia), ofereceu uma fruta, tal como a madrasta da Branca de Neve, a uma criança desconhecida e estava com os cabelos despenteados e recém-pintados. Para piorar, quando foi acusada de sequestrar crianças, ela ficou em silêncio, pois sofria de bipolaridade e um dos sintomas do transtorno era não conseguir falar quando ficava nervosa. “Por mais que a gente goste de pensar que está alheio a símbolos e conseguimos ter um pensamento crítico sobre eles, somos bombardeados por símbolos que carregam significados o tempo inteiro. A gente tem várias noções que talvez a gente não perceba, mas que interpretamos, ainda que sem querer”, explica o pesquisador. Familiares e amigos fizeram passeata pedindo Justiça contra os agressores (Alexssander Ferraz- Arquivo) Quem tem medo de bruxas? A morte de Fabiane poderia ser uma ficção medieval, mas ela foi produto do século XXI. Em uma perspectiva histórica que abrange mais de 2 mil anos, o episódio aconteceu praticamente ontem. O boato dos sequestros, por exemplo, surgiu nas redes sociais — e é válido mencionar que posteriormente a polícia comprovou que não havia sequestradora alguma sendo procurada em Guarujá. Como que uma população com acesso à internet tenha um medo tão retrógrado quanto o medo de bruxas? “É a soma de vários medos e conceitos que a gente tem ao longo de muito séculos”, explica Rantin. Desde o Egito Antigo até a contemporaneidade, esse personagem da bruxa foi absorvendo diversos conceitos através da cultura: do demônio noturno a outras criaturas sanguinárias que assassinavam crianças. Pensar que o medo de bruxas é algo retrógado é comum, mas longe do que mostra a história. O historiar Arnaldo Ferreira explica que, até mesmo nos anos 1920, Santos era uma das maiores cidades do país e recebia as principais novidades, como as emissoras de rádio comerciais. No entanto, justamente essa importância era o que embasava uma atuação policial ainda maior sobre o artigo 157 do Código Penal de 1890, que discursava sobre a prática do "espiritismo, a magia e seus sortilégios". "Santos tinha uma modernidade muito grande, era uma cidade muito rica e tinha uma importância muito grande como a segunda maior cidade do Estado. Então o governo tinha uma máquina muito grande aqui, tanto judicial, quanto policial. E aí esses temas das grandes cidades, entre eles, a exploração da fé pública, a bruxaria acabava atraindo, até por uma pressão tanto dos médicos, quanto dos religiosos, a perseguição dessas dessas figuras", explica. Código penal de 1890 embasava caça às bruxas em Santos (Reprodução/Arnaldo Ferreira) No fim, as diversas concepções de terror sobrenatural ao longo dos séculos convergiram na bruxa, embora muitas das acusações de crimes das bruxas também sejam aplicadas a outros grupos minoritários ao longo da história como judeus, leprosos e muçulmanos, por exemplo. Por isso, o jornalista e pesquisador Rantin considera que a caça às bruxas é ensinada de uma maneira errada quando é abordada como algo fantástico e fantasioso quando, na verdade, se tratou de uma perseguição muito bem organizada que vitimiza mulheres até os dias atuais. “A figura da bruxa é sempre essa coisa que vai passando pela história, pegando tudo que há de ruim e sendo atrelada à ela para gerar essa força temível e assustadora. O que é interessante é que, apesar de tudo isso, existe um fascínio por essa figura”, diz o pesquisador. Textos na íntegra 1º de janeiro de 1920 A campanha contra a bruxaria As medidas tomadas pela Central e as instruções expedidas às sub-delegacias são asseguradoras do êxito na campanha contra a bruxaria, iniciada em Vila Mathias e agora extensiva a toda a cidade. O que é necessário, imprescindível, é o que temos aqui repetido: tenacidade e nenhuma vacilação no agir. Aliás, parece ser esta a disposição da polícia, que está perfeitamente aparelhada a resistir a todos os embaraços e a alcançar mesmo os que se julgam "habilitados" a burlar a ação da autoridade na moralizadora campanha. Uma verdade a que a polícia não é estranha é a mudança precipitada de muitas exploradoras do "honesto mister" a fim de iludir o próximo, pretendendo assim furtar-se a umas explicações que lhes vão ser pedidas sobre a grande profissão. E com isso a tranqüilidade vai desertando de casas suspeitas que têm andado às moscas estes dias... Tudo isso são bons sinais. 7 de janeiro de 1920 A campanha contra as bruxas A polícia de Vila Mathias faz um belo serviço Vamos acompanhando com o maior interesse a campanha que a polícia vai desenvolvendo contra a bruxaria. O combate às exploradoras da ignorância pública vai assumindo tais proporções e com resultados tão positivos, que nós aqui pomos em ressalto a ação proveitosa desenvolvida especialmente pela polícia de Vila Mathias. O inspetor da polícia de Vila Mathias, sr. Isaac Evangelista dos Santos, vai agindo, sem dúvida alguma, com tenacidade e exato conhecimento do terreno. Ainda ontem, a polícia daquele distrito realizou uma diligência que deu completo êxito. Reside à Rua Senador Feijó a bruxa Anna Rosa, uma das que vivem dos "magros tostões" e que apanha os tolos com os seus benzimentos, orações e água de azeite. Anna Rosa foi chamada para tratar de um enfermo, um pequenote, filho de Rosália Alonso, que reside à mesma rua, 473. Foi a mulher "salvadora" pronta a resolver em três dias o caso, com uns três quartos de oração e... "azeite derretido na água". A criança sofria coisas que os médicos não descobriam: era quebranto. Resolveu, assim, a Anna Rosa, que é para os idiotas uma espécie de "santificada". A mulherzita começou a "coisa", que, ao fim, lhe daria, como de costume, um corte de blusa ou umas velas, um lucro, enfim, que não fosse em moeda do país, para que se não dissesse que ela vive disso... E começou. A oração foi comprida. O pequeno recobrou ânimo, mas sobreveio-lhe minutos depois uma coisa estranha. Anna Rosa foi chamada outra vez. - Resolva o caso, don'Anna - bradou o pai do menino; o "corte" já aí está. A mulher deitou de novo o verbo. E "reza" vai, "reza" vem, concluiu por diagnosticar... um novo quebranto, mais possante do que o primeiro. E de que teria resultado esse "quebrantão", esse mau olhado! Anna Rosa consultou os "espíritos" e replicou: - "D'alguma vizinha..." A Rosália, a mãe do pequeno, não esperou mais: um, dois, três, e como andava de ponta com a vizinha Consuelo Negarol, foi tirar a coisa a limpo... Discutiram bastante e, afinal, a polícia apagou o fogo: prendeu a bruxa e as briguentas. Anna Rosa, que é lavadeira nas horas vagas, arranjou boas evasivas, que lhe não tiraram o "quebranto" fora: a polícia quer saber como é que o "azeite" se esparrama ou não se esparrama n'água. E continua a coisa assim: a polícia a perseguir todas as mulheres "honestas" que vivem de uns magros tostões, e que só encontram a defendê-las os que devoram estes "tostões magros"... 8 de janeiro de 1920 A campanha contra as bruxas A polícia descobriu mais um conventilho Rabiscamos hoje mais algumas linhas referentes ao caso das bruxas para demonstrar aos leitores que essas inofensivas mulheres, apesar do rigor com que está sendo feita a campanha policial, nada temem e continuam a atender a sua clientela, não tirando resultado algum do seu "trabalhinho..." As adivinhas agem à socapa, julgando, talvez, que a polícia não tem bons olhos e não está a par do movimento. Puro engano. A polícia tudo sabe e tudo vê. Para prova lá vai a amostra: Ontem, a conhecida cartomante Emma Ferraz, de 60 anos de idade, residente à Rua João Macuco n. 261, afamada pelas suas "sensacionais" revelações, pensando enganar a polícia, recolheu uns clientes e, de portas fechadas, formou a "sessão". Um cheiro enfadonho de alecrim queimado rescendia ao longe. Era a bruxa que queimava seu ingrediente, porque, (diz ela), sem incensar a casa não pode trabalhar; os espíritos maus vêm para a mesa e atrapalham a nossa ação. Tudo era silêncio; o pessoal lá dentro falava baixo, a fim de não causar suspeitas aos vizinhos, que, no dizer da bruxa, são muito abelhudos. Mas a polícia inesperadamente compareceu, atraída, certamente, pelo cheiro do alecrim queimado. Emma Ferraz, a adivinha, seu amante Manuel Macário e vários clientes, foram apanhados com a boca na botija! A quiromante, o amante e também os restantes foram presos, sendo contra eles lavrado o auto de flagrante. A polícia apreendeu ainda vários baralhos, figuinhas da Guiné, rosários, patuás e outras tantas traficâncias usadas para as feitiçarias. A diligência foi efetuada pela polícia do Macuco por ordem do major Baccarat, subdelegado da central, para onde os presos foram removidos.