[[legacy_image_323127]] “Nossos destinos foram traçados na maternidade”, é com um trecho da música Exagerado, de Cazuza, que começamos a contar a história de amor que começou há 75 anos, em 1º de janeiro de 1949, na Casa de Saúde de Santos, quando três mulheres desconhecidas dividiram um quarto com seus filhos recém-nascidos. Duas delas não tinham noção, mas os seus bebês se tornariam marido e mulher, 25 anos depois. Neusa Maria Jovino Gonçalves de Matos e Carlos Henrique Neves de Matos nasceram no mesmo dia e mesmo local, com poucas horas de diferença. Ela, pela manhã; ele, à noite. Mas, os pequenos bebês só foram se conhecer cerca de 20 anos depois, em um baile de calouros da turma de Economia no Clube Internacional de Regatas. Naquela noite, Neusa diz ter se apaixonado por Carlos à primeira vista, e ainda se lembra que ele tinha cabelos compridos e estava um pouco ‘alegre’. Eles ainda não sabiam que haviam dividido a maternidade, mas decidiram dançar juntos -e também não sabiam que dançariam muitas e muitas outras vezes na vida. “Eu acho que é uma mistura de coincidência com destino”, explica a mulher. O casal chegou a iniciar um breve relacionamento que não durou. Entretanto, aos 24 anos, após um período afastados, em janeiro de 1973, Carlos decidiu que queria passar toda a sua vida ao lado de Neusa e, então, pediu sua mão em casamento. Eles casaram-se em 15 de dezembro do mesmo ano, na Igreja Coração de Maria e, desde então, não se separaram mais. “Eu, pelo menos, aprendi que é preciso resiliência. Muita resiliência. Não foi fácil, não. Não foi brincadeira”, lembra Neusa sobre o maior aprendizado que teve durante essa trajetória. [[legacy_image_323128]] Histórias cruzadasO casal compartilhou com a família que haviam nascido no mesmo dia e local, e aí a história começou a fazer sentido. Segundo Neusa, sua mãe contava que no dia em que ela nasceu, uma mulher negra e aparentemente muito humilde deu entrada na maternidade. Essa mulher tinha escondido a gravidez e acabara de se casar - não se sabe ao certo, mas acreditam que ela deu entrada no hospital com pré-eclâmpsia, condição que altera a pressão arterial e exige atenção. Essa mesma mulher ficou no quarto em que estavam Neusa e Carlos, e deu à luz um menino. Neusa relatou que a mulher não tinha roupinhas para usar na criança, e também não conseguia amamentá-la. Foi então que a mãe de Carlos doou uma roupa para que o menino pudesse usar. A mãe de Neusa, por sua vez, amamentou a criança. “Pensei: ‘Não acredito, isto não é possível de ter acontecido’. Mas, o mais curioso é que a mãe de Carlos já me contou exatamente a mesma história”, lembra. E com os dois relatos iguais que o casal descobriu mais uma coincidência em suas vidas. Mas não parou por aí. Depois de se conhecerem, Neusa e Carlos foram, certa vez, a uma festa de São João, e lá descobriram que um tio dela era casado com uma tia dele -e ainda assim, nunca haviam se encontrado até o dia do baile de Economia. Outras vidasEspiritualista, Carlos acredita que tudo o que viveu ao lado de Neusa é coisa de outras vidas, e que tinha que acontecer. “Eu acho que a gente está pagando um resgate. E temos que aproveitar essa oportunidade para conseguir cumprir da melhor maneira possível aquilo que a gente em algum momento se comprometeu. Eu acho que a gente se compromete antes de vir [nascer]”, diz. [[legacy_image_323129]] CumplicidadeCom um olhar apaixonado, bom humor e muito carinho, o casal contou à reportagem de A Tribuna que o segredo para um bom relacionamento é a cumplicidade e o incentivo mútuo. “Eu acho que deve haver muita compreensão. Ele tem muito mais que eu. Aceitação, confiança no outro. Mas eu não acreditava, primeiramente, que a gente fosse viver tanto tempo. E depois, que a gente conseguisse manter essa parceria. E é muito bom. É difícil, mas muito bom”, conta Neusa. MemóriasApós cinco décadas, o casal ainda guarda a roupa que usou na cerimônia de casamento, uma coleção de fotos e memórias. O casal ama viajar, conversar, e ainda vão aos bailes dançar, como na noite em que se viram pela primeira vez. FamíliaDepois de 50 anos juntos, três filhos e sete netos, o casal é a inspiração para toda a família. “Tudo o que conheço de amor, vem deles. Desse companheirismo. Tudo o que eu sempre busquei ter com alguém, também é justamente o que eles têm. Estão sempre se divertindo juntos. É uma história de filme, que inspira, faz você ver a vida da forma como que eles veem. Aprendo muito com eles”, relata a neta Isabela Matos Pereira, de 24 anos. A filha mais velha, Cristiane Gonçalves de Matos Pereira, tem 48 anos e diz que sempre conta a história dos pais para todos com muito orgulho. “É uma alegria para toda a família. E eu me lembro deles, assim. Aos meus 48 anos não me lembro de crises graves que gerassem preocupação. Separação é algo que nunca esteve no 'pacote' de opções”, diz. Cristiane gosta de comparar a história dos pais com ‘Exagerado’, música de Cazuza que, segundo ela, parece ter sido escrita para eles. “Era pra ser. Era pra ser mesmo”, finaliza. [[legacy_image_323130]] O terceiro bebêA família já chegou a buscar o terceiro bebê envolvido na história. Entretanto, ainda não conseguiram. Mas, enfatiza que gostaria de ter a oportunidade de conhecer essas pessoas, que fazem parte desta história. Quer ajudar?Se você conhece alguma pessoa que tenha nascido em 1º de janeiro de 1948, na maternidade da Casa de Saúde de Santos, e esteja completando 75 anos em 1º de janeiro de 2024, envie uma mensagem para a reportagem de A Tribuna!