Placas de gelo se fragmentando no extremo sul do planeta ajudam a explicar ondas de calor sufocantes, chuvas torrenciais e erosão costeira (Aline Martinez/Divulgação) A próxima ressaca que avançar sobre a orla de Santos pode ter começado a se formar a 4 mil quilômetros daqui, no gelo que derrete na Antártica. O que parece um fenômeno distante, placas de gelo se fragmentando no extremo sul do planeta, ajuda a explicar as ondas de calor sufocantes, as chuvas torrenciais e a erosão costeira cada vez mais frequente na Baixada Santista. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! “O que estamos vendo na região, com erosão costeira, ressacas frequentes, ondas de calor e chuvas fortes e constantes, tem origem no degelo da Antártica”, afirma o professor Ronaldo Christofoletti, membro do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus Baixada Santista, e do Com-Antar, o programa que divulga estudos e resultados de trabalhos desenvolvidos pelo Programa Antártico Brasileiro (Proantar). Ronaldo está há dois meses na Ilha Rei George, onde fica a Estação Antártica Comandante Ferraz do Proantar, junto com outros pesquisadores brasileiros. O Com-Antar divulgou na última sexta-feira o estudo mais recente que mostra o recorde de degelo no planeta e implicações com a realidade brasileira. Desde 1976, o planeta perdeu 9.179 gigatoneladas (Gt) de gelo nas geleiras globais, segundo dados consolidados do World Glacier Monitoring Service (WGMS). Desse total, 98% foram perdidos após 1990, e 41% apenas desde 2015. Para dimensionar, uma gigatonelada equivale a 1 trilhão de quilos. As cerca de 9 mil Gt de gelo desaparecidas desde 1990 correspondem a 18 mil vezes a massa de toda a população mundial atual. Nas grandes calotas da Antártica e da Groenlândia, o ritmo é ainda mais acelerado: aproximadamente 8 mil Gt foram perdidas desde 2002, de acordo com satélites da Nasa. Em pouco mais de duas décadas, quase o mesmo volume que as geleiras do restante do mundo perderam em quase cinco décadas. Para Christofoletti, o degelo é um alerta inequívoco. “O degelo é, antes de mais nada, um sinal de que também a Antártica está sofrendo com o aquecimento global. Temos um planeta cada vez mais quente. O desbalanço da temperatura do ar e do oceano gera ondas de calor e chuvas intensas”, afirma. Oceano febril O pesquisador explica que o oceano, ao absorver calor em excesso, perde parte da sua capacidade de regular o clima. “O oceano está febril e além de perder sua capacidade de regular o clima também joga muito mais umidade na atmosfera. E essa umidade, quando encontra uma frente fria, provoca chuvas mais intensas”, diz. O documento lançado por pesquisadores brasileiros na COP30, em Belém (PA), em 2025, sobre frentes frias aponta que as massas de ar frio que saem da Antártica também sofrem influência desse estresse climático. “As massas de ar vêm desse mesmo estresse, ou seja, gelo derretendo e mais massa de ar frio para o litoral. Quando essas massas de ar frio chegam à Baixada Santista, por exemplo, condensam a água que está na atmosfera do oceano febril. Por isso temos choques térmicos cada vez mais intensos e frequentes”. Correntes sob pressão O impacto não se limita à atmosfera. Pesquisas realizadas no âmbito do Proantar, inclusive por cientistas do Instituto Oceanográfico da USP, mostram que o aumento do degelo já altera as características físicas e químicas das águas da Península Antártica. No verão de 2019/2020, a Baía do Almirantado registrou redução significativa da salinidade superficial devido ao maior aporte de água doce. “Quando a água do degelo vem para o oceano, baixa a salinidade, alterando as correntes climáticas que fazem as trocas entre os continentes. São essas correntes marítimas que regulam o clima. A hora que houver falha nesse sistema, o clima do planeta que conhecemos hoje não existirá mais”, alerta o professor. Ele lembra que, no ano passado, a corrente do Atlântico Norte deu o primeiro sinal de instabilidade, um indício de que os grandes sistemas oceânicos podem estar sob pressão crescente. “Não somos capazes de prever exatamente o que pode acontecer. O grande alarme futuro é esse”. Impactos na região Para a Baixada Santista, os efeitos se cruzam. A elevação do nível do mar, impulsionada pelo derretimento das calotas polares, combinada à maior frequência de frentes frias, amplia o risco de ressacas e acelera a erosão costeira. “Quando o nível do mar aumenta porque as geleiras estão derretendo e cresce a frequência de frentes frias, teremos cada vez mais ressacas, e mais fortes”, explica Christofoletti. Em uma região com praias urbanizadas, infraestrutura costeira sensível e forte dependência econômica do mar, o fenômeno deixa de ser uma abstração científica. Ondas de calor, tempestades intensas, alagamentos e o avanço do mar sobre a faixa de areia passam a ser expressões locais de um sistema climático em transformação. O que começa no gelo que se fragmenta na Antártica termina na maré que sobe em Santos. E o alerta, segundo os pesquisadores brasileiros no continente gelado, já não é sobre o futuro distante — é sobre o presente. Sobre o Proantar Criado em 1982, o Programa Antártico Brasileiro (Proantar) garante ao Brasil a condição de membro consultivo do Tratado da Antártica desde 1983 e promove pesquisas científicas na região, integrando ciência, preservação ambiental, logística e política externa. O projeto Com-Antar, liderado pela Unifesp, conecta ciência e sociedade, promovendo a conexão do conhecimento acadêmico com a devida comunicação de resultados à sociedade.