[[legacy_image_257779]] Santos, terça-feira, 3 de abril de 1923. Era final de tarde. O sol desaparecia lentamente no distante horizonte, bem longe dos olhares do povo da Vila Mathias, o pacato bairro santista habitado por operários e gente simples. Já passava das 19 horas quando as ruas, praticamente vazias, tinham sua tranquilidade afetada apenas pelo barulho estridente emitido pelo atrito das rodas dos bondes com os trilhos. Contudo, aquele início de noite parecia estar um pouco diferente dos outros. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Estranhamente, uma pequena multidão começava a se formar diante da porta de um modesto sobrado situado na Avenida Senador Feijó, quase esquina com a Avenida Rangel Pestana. Era, ali, a casa de seo Francisco Vanni Leone, um alfaiate italiano de Cosenza, que se mudara para Santos havia mais de 15 anos e trabalhava no Porto, casado com dona Perpétua, filha de um coronel do Exército brasileiro, que atuava como organista da Beneficência Portuguesa. Mas o povo, curioso, não estava ali por nenhum dos dois, e sim para ver de perto a filha mais velha do casal, a belíssima Maria José Leone, ou Zezé, como a chamavam carinhosamente. Quando a multidão pareceu mais compacta, um homem gritou: "queremos ver a rainha!" Diante da algazarra, os Leone foram à janela e o povo, assim que reconheceu Zezé, vibrou. Ao mesmo tempo, dentro da casa, o telefone tocava. Do outro lado da linha, estava o jornalista Galeão Coutinho, diretor da revista Flamma, semanário santista que havia, no ano anterior, promovido um concurso para escolher a mulher mais bela da cidade de Santos. Disputando com várias meninas da tradicional elite santista, Zezé vencera com facilidade, despertando ódio e inveja entre as derrotadas. Também ganhara o direito de representar a cidade portuária no grande concurso nacional Sua Majestade, a Mais Bela Mulher do Brasil, promovido pelo jornal carioca A Noite e pela Revista da Semana, o maior semanário do País na época. Entretanto, ganhar em casa era uma coisa, mas vencer outras 319 competidoras de cidades espalhadas de Norte a Sul do Brasil era algo muito maior e diferente, ainda mais por Zezé ser de uma cidade que não era capital. [[legacy_image_257780]] Era improvável, mas não impossível. E o incerto foi esmigalhado pela formosura santista, que ultrapassou todas as concorrentes e, em embate final com as representantes de Salvador (Hilda Luz de Castro Lima), Rio de Janeiro (Orminda Ovale) e Porto Alegre (Dorothildes Adams), acabou coroada como a Rainha da Beleza Brasileira. Rosto escultural No dia seguinte, o nome de Zezé foi citado em dezenas de jornais brasileiros. Enfim, o primeiro concurso, a nível nacional, para a escolha da mais bela mulher do País havia acabado, após quase um ano e meio de avaliações e julgamentos. Os preceitos da competição se fundamentavam nas formas e linhas do rosto das candidatas. Nada de desfile, provas de postura ou articulação de ideias. A vencedora precisava, sim, ter um rosto e um corpo bem esculpido, tanto que os julgadores eram três artistas plásticos: o renomado pintor, professor e diretor da Escola Nacional de Belas Artes João Batista da Costa, o famoso escultor José Otávio Correia Lima e o ilustrador especialista em anatomia humana Raul Pederneiras. A santista Zezé, enfim, foi abalizada como a formosura em pessoa, o rosto de anjo que representaria, então, a partir dali, a beleza da mulher brasileira. Fama sem precedentes A conquista do título de Sua Majestade, a Mais Bela rendeu a Zezé Leone alguns prêmios e muita notoriedade. Durante meses, ela foi assediada por empresários ávidos por estampar seu rosto nos reclames de seus produtos, por socialites que disputavam a tapa a sua presença em eventos de todas as naturezas, por jornalistas que desejavam exclusivas para chamar a atenção de seus leitores e até mesmo por cineastas, que sonhavam levar às telas do cinema o rosto e a graça de Zezé. [[legacy_image_257781]] Neste último caso, a produtora carioca Botelho Filmes, de José Alves Neto, saiu na frente e conseguiu celebrar contrato de exclusividade para a produção de um documentário sobre a santista. Rodado em diversas locações de Santos, Guarujá e até numa aldeia indígena de Itanhaém, os brasileiros puderam lotar as salas de exibição para se deliciarem com a película intitulada Sua Majestade, a Mais Bela. Porém, uma outra produtora, a Independência Filmes, gravou sem autorização, durante uma festa em Santos, várias imagens da Rainha da Beleza, exibindo-as num pequeno filme que se chamou Sol e Sombra, pivô de uma enorme confusão, que culminou em processo judicial, da parte da santista, por direitos de imagem, o primeiro do gênero na história do Brasil. Homenagens e arrependimentos À parte as dores de cabeça que Zezé teve por conta da fama repentina e demasiada, muitas foram as homenagens recebidas em todo o País. Para se ter uma ideia do alcance de seu feito, uma locomotiva dada de presente pelo rei da Bélgica, Alberto I, por conta do centenário do Brasil, em 1922, foi batizada como Zezé Leone, justamente porque era uma belíssima máquina ferroviária. A santista foi inspiração para esculturas, músicas e até mesmo um doce mineiro, feito com vinho do Porto e creme de baunilha. Seu nome, enfim, se transformara em sinônimo de beleza. Contudo, apesar de todo o sucesso obtido, Zezé levou uma vida conturbada e cheia de arrependimentos. Logo após sua vitória, ela acabou aceitando se casar com o advogado Lincoln Feliciano da Silva, com quem teve um relacionamento difícil, especialmente depois de descobrir que tinha uma doença que lhe impediu de ter filhos. Nos anos 1930, em meio a um casamento esfriado, a ex-miss se separou de Lincoln e deixou Santos para trás, indo residir em São Paulo junto da irmã, Leonor. Zezé chegou a tentar a sorte em Paris, utilizando-se da antiga fama de ter sido a primeira Rainha da Beleza do Brasil, mas não conseguiu nada. Voltou a São Paulo e chegou a se casar mais uma vez, com o advogado Marcos Ribeiro dos Santos, de quem também se separou. Nos anos 1950, os concursos de beleza já não eram mais os mesmos e o que valiam eram as curvas das candidatas. Que o diga Martha Rocha, a primeira eleita neste novo modelo e concurso, em 1954! Sempre que procurada por repórteres para falar do seu concurso, Zezé era enfática em dizer que não guardara nenhuma saudade desse tempo. Levando uma vida simples e esquecida, a primeira mulher oficialmente escolhida como a mais bela do Brasil morreu na véspera de seu aniversário de 63 anos, na manhã de 30 de novembro de 1965, acometida por um derrame cerebral enquanto tomava banho. Um final triste para a história de uma mulher que pôs um País inteiro aos seus pés. Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de Santos. Conheça seu trabalho no site