[[legacy_image_241639]] A história de 477 anos de Santos é bastante conhecida e está registrada, inclusive nos livros escolares, dada a ligação da Cidade com a história do Brasil e do mundo. O presente está cristalino para quem anda pelas áreas insular e continental. Mas como será a Santos do futuro? Ou melhor, quais providências estão sendo tomadas pensando no Município daqui a 30, 40, 50 anos? É nesse ponto que a Cidade tem investido e, no dia do aniversário dela, o prefeito Rogério Santos (PSDB) fala com exclusividade para A Tribuna sobre ações no presente e investimentos para o futuro. Ao chegar à segunda metade do mandato, o chefe do Executivo estabelece quais metas pretende alcançar até 2024 nas áreas da educação, habitação, desenvolvimento, saúde, turismo, porto e, principalmente, na preservação da memória santista. Na pauta estão a segunda fase do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), o fomento à revitalização do Centro, além de outras medidas. A Santos de hoje é bem diferente do que era há 30 anos. O que projeta para a Cidade daqui para frente? Santos é uma cidade de vanguarda, desde a sua origem até seu desenvolvimento urbano. Foi a primeira cidade do Brasil a ter um plano de desenvolvimento urbano moderno, com os canais de Saturnino de Brito; a segunda cidade do Brasil a ter bondes, só perdendo para o Rio de Janeiro; a segunda cidade a ter iluminação pública; a primeira a ter o VLT. E sempre temos que citar que Santos possui o maior time de todos os tempos e o Rei do Futebol. E esse DNA precisa ser mantido. Hoje, o grande tema mundial é a nova economia e a sustentabilidade. E Santos já se destaca nesses dois temas, tanto que a Unesco fez na Cidade dois encontros internacionais, um sobre economia criativa, com mais de 98 cidades de todos os continentes representadas, e outro encontro justamente de sustentabilidade, sobre a cultura oceânica, que envolveu 25 cidades internacionais. E é esse o caminho que a gente deve trilhar: o planejamento urbano em cima da sustentabilidade, que envolve questões ambientais, sociais e a nova economia. Para isso, tem-se investido em uma das principais e mais importantes políticas sociais, que é a habitação. Neste ano, vamos entregar 1.120 unidades habitacionais, o que ajuda a atender pessoas do Dique da Vila Gilda e temos, já assinadas com o Governo do Estado, mais 1.100 unidades habitacionais, que também atenderão à população que vive em palafitas. Além disso, nós temos um projeto inovador, que será uma quebra de paradigma na habitação nacional, que é o Parque Palafitas, desenvolvido pelo Jaime Lerner (1937-2021) para a cidade de Santos. Já estamos fazendo projetos executivos, projetos básicos e licenciamentos. Isso também vai ajudar muito na habitação. Como funciona o projeto? Você reloca pessoas que vivem na área do Dique, mas, ao mesmo tempo, mantém algumas unidades habitacionais em formato de palafitas, mas unidades com estaqueamento, com casas pré-fabricadas, saneamento básico, energia solar, assim como existem até em resorts no mundo. É o que nós queremos replicar, porque, além da falta de terreno, as comunidades do Dique se reconhecem como comunidades. Então, é para preservar o conceito de comunidade, ocupar áreas de futuras novas invasões irregulares e trazer a possibilidade de mudança de visão na relação habitação com meio ambiente. Isso pode ser replicado futuramente em outras regiões. Há mais projetos? Dentro do plano habitacional e aproveitando a necessidade de trazer habitações para a região central, também vamos trabalhar em cima de projetos como as 36 unidades habitacionais no antigo Ambesp e estamos conversando com a iniciativa privada para a construção de habitações populares no Centro, incluindo um grande empreendimento na região do Valongo. Falando em região central, ainda vemos um Centro mais vazio do que foi há alguns anos. O que pode ser feito para que haja uma revitalização e o Centro volte a receber mais pessoas diariamente? Santos vive um modelo de cidade sustentável. Antigamente você tinha as áreas residenciais e o Centro como uma grande área comercial. Hoje, com as mudanças que fizemos nas leis, você permite comércio em todos os bairros. Isso resolve até questões de mobilidade urbana, porque as pessoas trabalham, fazem compras e moram no mesmo bairro, evitando grandes deslocamentos. Esse é o conceito de uma cidade inteligente. Mas isso não aconteceu no Centro. Na década de 50 eram proibidas as moradias na região central. Nós estamos trazendo novamente esse conceito de moradia por meio dos pojetos que temos em parceria com a CDHU e da iniciativa privada, que já começa a fazer retrofits e os estímulos fiscais para quem quer construir no Centro. O que vai revitalizar o Centro é moradia. Mas a gente não pode ficar esperando. Então, tomamos medidas importantes, como a revitalização de várias áreas, incluindo a Rodoviária, o Outeiro de Santa Catarina, a Casa do Trem Bélico, as praças, vários monumentos históricos. Trocamos toda a iluminação da região central por led. Trouxemos uma universidade pública para o Centro e, de início, vieram 1 mil alunos e para este ano estão previstos mais 500. O VLT a cada vez se torna uma realidade e será um grande pulso para o desenvolvimento da região central, até por comunicar São Vicente com a região central de Santos. Temos que estimular também as atividades na região central. Então, os grandes festivais, como o Geek, quando 70 mil pessoas participaram. Temos o Natal Criativo, com 60 mil pessoas vindo para a região central, o Festival do Café, o Festival do Imigrande, a Festa Portuguesa e neste ano, o Inverno Quente será feito na região central, na Rua do Comércio, trazendo o movimento das entidades sociais que montam seus restaurantes. Será também um atrativo na temporada de inverno. O senhor falou em mobilidade urbana. Santos, por ser uma ilha, não tem para onde crescer e as grandes obras viárias envolveriam muitas desapropriações. O que pode ser feito em prol da mobilidade urbana considerando esta realidade? Santos é a cidade mais verticalizada do Brasil por ser compacta. Temos a área continental, mas é uma área de preservação e de expansão portuária. Temos, ao mesmo tempo, uma das maiores frotas de automíveis do Brasil, com 1,4 habitantes por automóvel. Temos que trabalhar com conceitos inteligentes, como a Lei de Uso e Ocupação do Solo, que evita o deslocamento de pessoas, assim como o home office, hoje adotado por muitas pessoas. Em termos de locomoção temos o uso da bicicleta e uma malha cicloviária de mais de 50 km que queremos ampliar. Houve ainda uma adesão muito grande ao transporte por aplicativo e, com isso, uma diminuição drástica do uso do ônibus e isso nosa preocupa. Temos uma comissão interna da Prefeitura que está estudando novas linhas que tragam para o ônibus agilidade, conforto, frequência e a pontualidade. Quando esse sistema deve ser implantado? A partir da consolidação da segunda fase do VLT, quando muitas linhas serão desativadas. Com relação ao uso do carro elétrico: há projetos para a instalação de pontos públicos de recarga de automóveis? No meio ambiente já temos todos os ônibus movidos a biodiesel, além de termos um ônibus elétrico e um híbrido. A nossa intenção é reforçar essa frota com mais quatro trólebus, reativando os trólebus antigos, mas com uma configuração moderna no interior. Para a frota de carros elétricos, conversei com empresas que estão montando um planejamento para que tenhamos postos de recarga em regiões principalmente comerciais. As pessoas aproveitariam aquele tempo de compras com recarga, assim também como pontos turísticos. O Emissário, uma área na Ponta da Praia e há a ideia de usar aquela ilha do antigo abrigo de bondes na Conselheiro Nébias como um ponto de recarga de carro elétrico. Com relação a Pelé: depois do falecimento de Edson Arantes do Nascimento surgiu a ideia de homenageá-lo com o nome do Porto de Santos. Há outras ações em andamento? Conversei muito com os filhos do Pelé sobre projetos, inclusive no audiovisual e o incremento de ações no Museu Pelé, além de atividades culturais ligadas ao Rei. Faremos um grande monumento e entendemos que o projeto que o Oscar Niemeyer seria o mais interessante ali na Ponta da Praia, na entrada do Porto. Faremos uma série de homenagens e estamos estudando nomes de ruas e praças. A ideia é criar um circuito com o nome do Pelé. Já temos as homenagens, como a camisa 10 na entrada da cidade e a estátua na Padaria do Canal 5. Falando agora em empregos, há jovens escolhendo Santos na hora de cursar uma faculdade. Como estão os projetos para geração de empregos que evitariam que esses jovens fossem embora, assim como os jovens santistas, que também poderiam permanecer na cidade? Tudo começa na formação e Santos é uma cidade universitária. Hoje as universidades buscam cursos vocacionados para esta nova realidade. Existem os cursos tradicionais, que ainda são os mais procurados, mas hoje você vê uma demanda que não consegue ser suprida na área portuária. Há uma demanda nas empresas em algumas profissões que a gente não encontra as pessoas capacitadas. Hoje, por exemplo, existe uma retomada para Engenharia de Petróleo e Gás. E nós temos as indústrias em Cubatão, além do aeroporto de Itanhaém, o projeto para Guarujá e o do Andaraguá, em Praia Grande. São três aeroportos com vocações diferentes e a Engenharia Aeronáutica também é necessária. Hoje, a meta do porto de Santos é de 40% das cargas chegando por trens, o que dá outra possibilidade de frentes abertas. A indústria, o porto, a possibilidade de aeroportos, toda a cadeia de petróleo e gás e, principalmente o turismo, trazem possibilidades para a região. O Governo Federal tem uma pauta muito forte da reindustrialização. Hoje, o Porto de Santos é, basicamente, um importador e exportador de comodities agrícolas. O Brasil sofreu com o processo de desindustrialização nos últimos anos, com montadoras indo embora, a importação de produtos muito forte, o Brasil não gerando investimentos em tecnologia. Isso é uma esperança, porque temos também o porto-indústria. A cidades vem se preparando para este grande boom econômico. Além de ter essa característica da qualidade de vida, que é um fator importante para o home office. O que temos visto são pessoas vindo para Santos, que antes moravam na Grande São Paulo e buscam em Santos as condições de trabalho e vida pelo home office. A atração de empregos à distância, por conta da qualidade de vida, também é uma realidade em Santos. Você vê lançamentos de prédios porque justamente há uma expectativa muito grande de pessoas nesse fluxo por conta do home office. E a cidade, por meio do Parque Tecnológico, está construindo, junto com empreendedores que já estão na cidade, a possibilidade de ser também uma referência em tecnologia. [[legacy_image_241640]] Na Saúde está sendo preparado um trabalho voltado para a saúde mental. Como irá funcionar? O mundo está saindo do processo de uma pandemia e, além disso, vivemos uma geração muito ligada à tecnologia. Tanto a pandemia, que foi o isolamento, quanto o excesso de uso das redes sociais têm trazido problemas psíquicos e psiquiáticos e há um aumento no consumo de álcool e drogas no mundo todo. Isso tem trazido para a nossa cidade um questionamento em relação às doenças mentais. E hoje não vejo de uma maneira clara uma política nacional para a saúde mental. Então a cidade vai tratar dessa questão em um novo processo. Estou criando o Departamento de Saúde Mental para trabalhar de forma integrada nas policlínicas e nos centros de referência para que a gente possa atender a todos esses problemas que essa nova geração está enfrentando e que a gente vê questões sociais como pessoas em situação de rua, uma questão para a qual também não há uma política social, mas estamos tratando de maneira muito séria em Santos. Tive uma reunião com a prefeita de Paris e discutimos possibilidades. Lá eles têm o foco central na habitação. Então estamos estudando um projeto para moradias voltadas a pessoas em situação de rua. A saúde mental passa pelos problemas mais simples com as orientações das equipes da Saúde da Família. São os aconselhamentos, encaminhamentos, o tratamento do sofrimento. Isso pode ser resolvido dentro das policlínicas e com apoio social. Para os casos mais complexos temos os Caps. E vamos desenvolver com a sociedade, com as universidades, programas que envolvam esse drama. Na Educação, há uma meta de atingir 75% de ensino integral. Como chegar a esse número? Hoje, o Brasil tem média de 30%. Santos já está em 60% e queremos chegar ao fim desses quatro anos de governo com 75%. Para que a gente inclua esses conteúdos de Educação Financeira, Empreendedorismo, Cidadania entre outras grades, a gente tem que expandir o número de salas de aula. Por isso compramos, no ano passado, dois equipamentos: o Marza e a antiga Strong e, por meio desses novos prédios, teremos a capacidade de ampliar os alunos que estudariam em um período só para que ele possa estudas em dois períodos. E contratando mais professores. Os concursos públicos já estão sendo abertos, outros estão em andamento. Estamos reestruturando a educação, preocupados com o ensino integral e, para que a gente possa, ao longo dos anos, suprir essa defasagem escolar. Já estamos vendo mais duas unidades educacionais para que sejam compradas, começamos a obra do complexo educacional no Jardim São Manoel, que são o Azevedo Júnior e o Flávio Cipriano, este o maior complexo educacional de Santos, além da reforma em várias escolas e terrenos que podemos comprar para a construção de escolas. Em relação a obras. Há um anseio sobre a macrodrenagem na Zona Noroeste e outras que são mais de lazer. Como estão essas obras?A estação elevatória da Zona Noroeste seria entregue agora em janeiro, mas, por conta da importação de alguns equipamentos de bombeamento com capacidade para 6 mil litros por segundo houve um atraso. Essas bombas são fabricadas no exterior, estão vindo para Santos e em fevereiro ou março a estação será inaugurada. Teremos obras em outras estações elevatórias, como na região da Alemoa e também na entrada de Santos, que é o ponto mais crítico. ali é o local que mais alaga, porque é o local mais baixo de Santos. Está a 1,20m do nível do mar, ou seja, qualquer aumento de maré, mesmo sem chuva, é um local sucetível, então teremos uma estação de bombeamento que será construída pelo Governo do Estado. Outras estações elevatórias serão construídas ao longo desses dois anos e estamos buscando recursos para isso. Mas o que eu quero chamar a atenção é para um fato mais grave do que a Zona Noroeste, que são as regiões de morros. Hoje, com as mudanças climáticas, temos visto verdadeiras tragédias em Recife, Belo Horizonte... Tivemos no Guarujá em 2020, inclusive com mortes. Em Santos e São Vicente em 2020. As obras da Zona Noroeste são necessárias e continuam como prioridade. Quando há uma enchente, as pessoas perdem bens materiais. Mas hoje, nos morros, por conta das mudanças climáticas, o risco é de vida, o risco é de morte. Então, hoje, o município investe mais de R\$ 100 milhões em obras de contenção e estamos buscando mais recursos ainda para que sejam investidos. Então, as obras da Zona Noroeste continuam como prioridade, mas, hoje, os morros passam a ser a prioridade número 1. Obras de revitalização que trazem desenvolvimento urbano: o Quebra-Mar será entregue a penúltima fase no aniversário da cidade. Essa fase é muito voltada às crianças, porque entregaremos o parque aquático que, na verdade, são fontes interativas em formato de ondas e de brinquedos. Entregaremos o novo playground e o arco de entrada do parque e, no meio do ano, a pista de skate, o centro de treinamentos de alta performance para surf e skate e o centro de segurança do Quebra-Mar. Com isso, o parque se torna inclusive olímpico e com modalidades olímpicas modernas, como o skate, o surf, a patinação e a bicicleta, além do basquete três por três, que são modalidades novas de Olimpíadas. A pista de skate é uma parceria com a Confederação Brasileira de Skate, então há uma pactuação com a confederação para que atletas como a Raíssa Leal venham treinar em Santos, na nossa pista antes da Olimpíadas. Isso é uma obra de revitalização urbana. Dentro de uma parceria que nós temos com o Governo do Estado algumas ruas têm o cunho de revitalização e desenvolvimento econômico. Como foi a Rua da Gastronomia, na Zona Noroeste faremos a Rua do Comércio da Zona Noroeste, que é a Álvaro Guimarães, com ciclovia, pavimentaçao, novas calçadas, paisagismo. A Álvaro Guimarães será a Rua do Comércio, como já é, na Zona Noroeste, assim como a Rua Trabulsi, que é praticamente uma cidade. Moram mais de três mil pessoas na Trabulsi, em uma quadra e temos comércio. (A Trabulsi) também será revitalizada, com drenagem, nova calçada e pavimentação. A Azevedo Sodré, no trecho entre o Canal 3 e a Conselheiro Nébias, é a Rua do Designer. Já há muitas lojas ali. E teremos mais 94 ruas por todas as regiões de Santos. Então, é uma revitalização das ruas, o que traz uma qualidade urbana e propicia o desenvolvimento de atividades comerciais e econômicas. A respeito do Porto. Recentemente o Porto passou a receber navios de maior porte e esta será uma rotina. Até que ponto a modernização do Porto e o aumento do movimento podem impactar na cidade? Como ficará a relação Porto-Cidade? Conversei com o governador Tarcísio de Freitas quando ele era ministro e voltei a conversar durante o velório do Pelé sobre as questões da cidade, mas também conversamos com o ministro Márcio França. A relação Porto-Cidade é fundamental e o Governo Federal entende hoje a necessidade de que o Conselho de Autoridade Portuária volte a ter papel deliberativo, de decisão, não só consultivo. Com isso, as prefeituras e toda a comunidade portuária terão um papel mais decisivo nas questões do Porto. Nos últimos anos a decisão ficou muito em Brasília e, muitas vezes, com pessoas que não conhecem a nossa região. O Porto tem que ser pensado, planejado e decidido por pessoas que vivem a realidade local e os municípios têm que ter voz. O ministro se mostrou favorável a que o CAP volte a ter esse papel deliberativo e esse é um passo importante. Em relação ao desenvolvimento regional, obras como a entrada da Cidade, que o Governo Federal ainda não fez a parte dele. É importante a ligação seca Santos-Guarujá. Não adianda aumentar o número de balsas. O túnel é necessário e de forma emergencial. E já existem os licenciamentos. O que falta são os recursos. Mas falando do maior porto da América Latina e do Pacto Federativo, não é possível que o Governo não tenha esse olhar da importância da metrópole que é a Baixada Santista.