(Imagem gerada por IA) Santos, 26 de junho de 1578. O porto amanheceu envolto por numa névoa morna, dessas que subiam do estuário como se o próprio mangue respirasse. As águas quietas do lagamar refletiam o casario ainda ralo, a torre singela da Misericórdia e os mastros das poucas embarcações que ainda vinham buscar o açúcar produzido nos engenhos espalhados pelas várzeas de São Vicente (nesta época, o mercado pendia mais forte para o Nordeste brasileiro). Foi nesse cenário de promessas e incertezas que um inglês, um súdito da rainha Elizabeth I, sentara-se para escrever a Londres. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Batizado como John Withall, nome de sonoridade áspera aos ouvidos lusitanos, acabou se tornando para os portugueses de Santos, afeitos a acomodar o estrangeiro à cadência da própria língua, um tal João Leitão. E não, não se tratara de uma alcunha jocosa e tampouco referencial ao pequeno porco que o vocábulo sugeria no vernáculo, mas, sim, uma simples adaptação fonética, dessas que nascem do esforço popular de traduzir sons estranhos em sílabas familiares. Assim, o Withall inglês, ao ecoar nas bocas vicentinas, convertera-se naturalmente em Leitão, numa transposição sonora que o tempo consolidou como identidade. Aliança com genoveses A carta de Leitão iria atravessar o Atlântico levando notícias de casamento, fortuna e oportunidades. O inglês relatara a um amigo, Ricardo Staper, que, em vez de regressar à Inglaterra como planejara, encontrara no Brasil ocasião mais vantajosa: escolhera entre três ou quatro pretendentes e ajustara matrimônio com a filha de um influente genovês, o enigmático Signor Ioffo Dore (João Adorno). O dote não fora modesto (dois mil ducados, parte num engenho que moía mil arrobas anuais de açúcar e a promessa de administrar sessenta ou setenta escravizados). Assim, sob o céu do trópico de Capricórnio, o inglês se convertia em senhor de engenho, consolidando seu elo entre o Velho e o Novo Mundo. Entre os colonos lusitanos Santos e São Vicente não eram, na época, vilas isoladas, mas pontos estratégicos de uma engrenagem maior que envolvia Portugal, Flandres e a Itália mercantil. Genoveses como os Adorno já haviam fincado raízes na capitania, participando do comércio açucareiro que abastecia refinarias em Amsterdã. O misterioso sogro de Withall, cujo nome a pena inglesa grafara como Ioffo Dore, fora descrito como homem que, ao lado do provedor Braz Cubas, governava a terra e se lançava à busca de minas de ouro e prata no sertão. O inglês, com a habilidade de quem soubera transitar entre idiomas e interesses, aproximara-se desses homens poderosos. Conversara com Braz Cubas sobre as supostas descobertas minerais e sobre o futuro da capitania. Sentira que aquele pedaço de Litoral, distante “duas mil léguas” de Londres, possuía riqueza latente e destino promissor. Não tardara a compreender que, para prosperar, precisava deixar de ser visitante e tornar-se parte da elite local. O casamento acabou sendo o selo dessa integração. E o nome também: John Withall dissolvera-se em João Leitão, aceitando o apelido que o povo lhe impusera, talvez por associação a famílias já estabelecidas na vila, como a dos Leitão que ali residiam. Mapa das Mercadorias A carta de Withall era um minucioso plano comercial. Ele desenhara rota precisa: o navio deveria partir de Londres em outubro, tocar nas Canárias para vender panos de Hampshire e Devonshire, adquirir vinho, azeite e peles de Córdova, tingi-las se necessário com açafrão, e então singrar direto para o porto de São Vicente, evitando a costa da Guiné. Ele enumerara com precisão quase obsessiva as mercadorias desejadas: panos de Holanda, baetas finas e ordinárias, algodões de Manchester, chapéus com tafetá, camisas grosseiras, jalecos de lona, fechaduras, anzóis, vidros de Veneza, mantilhas de lã, folhas-de-Flandres, especiarias, ferro, pregos, machados, cordas para instrumentos e até rendas coloridas. Nada escapara ao cálculo do inglês que enxergara no trópico mercado de lucros “de três por um”. O açúcar branco, comprado a quatro mil réis a arroba, regressaria aos portos do norte como cristal de riqueza. Ele acreditara que aquela viagem seria “tão proveitosa como qualquer ao Peru”. O entusiasmo revelara sua visão estratégica. O Porto de Santos, embora jovem, tornara-se nó vital entre o interior açucareiro e o Atlântico. O inglês percebeu o que muitos ainda não haviam compreendido: ali se desenhava uma geografia de interesses globais. A terra que o adotou Com o tempo, João Leitão deixara de ser simples mercador estrangeiro. Integrara-se às decisões políticas e econômicas da capitania. O engenho aproximara-o das dinâmicas da produção açucareira; o convívio com genoveses e portugueses dera-lhe influência. Santos era descrita por ele como terra sã, sem doenças. Via ali prosperidade futura, minas a serem abertas, riqueza a ser partilhada. O inglês tornara-se mediador entre Londres e o Brasil, propondo-se a consignar navios, organizar cargas e despachar açúcar. Sua identidade passara a ser dupla: súdito da rainha Elizabeth, mas aliado dos homens que governavam a vila sob a bandeira portuguesa. Um tradutor providencial Entretanto, o mesmo Atlântico que trazia oportunidades também conduzia ameaças. No final do século 16, as frotas de flibusteiros ingleses começaram a rondar o Litoral meridional do Brasil, já informadas das riquezas acumuladas nas vilas de São Vicente e Santos. Relatos, cartas e mapas circulavam na Europa, e a cobiça seguia-lhes os passos. E assim, na manhã de 16 de dezembro de 1583, quando uma nau e dois galeões de combate avançaram pelo estuário e lançaram âncoras diante da vila, trazendo cerca de 200 homens sob o comando do corsário inglês Edward Fenton, coube a John Withall papel decisivo naquele instante de incerteza. Tornado porta-voz da população, aproximou-se de Fenton e buscou negociar uma saída sem violência, tentando ganhar tempo e preservar a vila do saque. Naquela noite, ao lado de Adorno e do colono João Raposo, jantou com o capitão inglês, exercendo uma diplomacia tensa e delicada, enquanto os corsários permaneciam em terra sob o pretexto de reparar suas embarcações. A importância de Withall residiu justamente nessa mediação estratégica. Sua presença evitou ações precipitadas, manteve a comunidade organizada e permitiu que Santos atravessasse aqueles dias críticos sem sucumbir ao pânico ou à devastação imediata. Quando, semanas depois, a esquadra espanhola de André Higino surgiu e enfrentou os ingleses no lagamar, forçando a fuga de Fenton e a captura de uma de suas naus, a vila já estava coesa e alerta. Assim, John Withall consolidou-se como figura central naquele episódio: não pelo estrondo dos canhões, mas pela palavra firme e pela habilidade política que ajudaram a salvar Santos da invasão. Frutos de um tempo inquieto, como observou certa vez o pintor Benedicto Calixto séculos depois, João Leitão, ou John Withall, permaneceu na história de Santos como um personagem curioso, estrangeiro por origem, santista por destino e defensor por escolha. Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de santos. Conheça seu trabalho no site www.memoriasantista.com.br.