[[legacy_image_307737]] Oceano Atlântico, litoral da Província do Rio Grande do Norte, 10 de abril de 1892. Em uma remota comunidade costeira do sul potiguar, pescadores avistaram uma jangada solitária ao pôr do sol. Ao se aproximarem, encontraram Charles Jones, um engenheiro inglês cuja aparência mostrava as marcas do sol inclemente. Embora visivelmente exausto, Jones insistia em ser levado a Recife, alegando que estava em uma missão de vida ou morte que envolvia mais de 200 pessoas. Entre murmúrios e sotaques do homem estrangeiro, ele compartilhou sua trágica história, que teve início oito anos antes, na cidade de Santos, quando seu destino tomou um rumo inesperado. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Em 1884, Jones, então com 39 anos de idade, era inspetor e engenheiro auxiliar na São Paulo Railway (SPR), conhecido por sua dedicação e amabilidade no trabalho, mas também por seu problema com a bebida que o fazia oscilar entre extremos de humor. Sua inclinação por excessos incluía noitadas com meretrizes nos hotéis à beira do cais e jogos de cartas, levando ao esbanjamento de dinheiro, angustiando a esposa e entristecendo sua filha de 5 anos. Naquele período, Santos abrigava uma população de cerca de 13 mil habitantes, com sua área urbana se estendendo da Rua da Penha (atual Marquês de Herval) à Rua São Leopoldo, próximo ao Saboó, e da Rua Otaviana (atual Conselheiro Nébias) à região que se tornaria o futuro Bairro Paquetá. Um domingo, em 6 de abril, Jones, prometendo melhorar seu comportamento à esposa, planejou uma viagem com a família de volta à Inglaterra, obtendo licença da diretoria da SPR e reservando passagens no transatlântico Tagus, da Royal Mail, com partida para Liverpool programada para a tarde daquele mesmo dia. Entretanto, o destino tinha outros planos para o engenheiro. Depois de almoçar no Hotel Europa, Jones se dirigiu à Estação do Valongo, onde se encontraria com seu chefe, Paulo Emilio Villmersdorf, um alemão de 40 anos, casado e pai de sete filhos, que comandava a estação há 12 anos. Após uma longa conversa, Paulo pediu licença para conferir as finanças da manhã, deixando a porta do escritório aberta. O que se seguiu foi uma atrocidade sem testemunhas oculares, restando apenas relatos e versões. A família de Paulo estava próxima, e dois de seus filhos menores ouviram um baque seguido de gemidos abafados, chamando por socorro ao acreditarem que o pai estava passando mal. Quando o criado Francisco Algarve investigou a situação através de uma vidraça, deparou-se com a cena horrenda: Paulo no chão, coberto de sangue, enquanto Charles Jones empunhava uma pequena machadinha, desferindo golpes na cabeça da vítima. Ao tentar intervir, Francisco também foi atingido e desmaiou. Em seguida, no exame de autópsia, foi determinado que Jones havia atingido fatalmente o chefe da estação na nuca e infligido golpes fatais que esmagaram os ossos parietais e occipitais do crânio. A comoção se espalhou pela cidade como um rastro de pólvora, enquanto multidões curiosas se aglomeravam na Estação do Valongo para testemunhar o terrível cenário. Santos estava mergulhada na consternação, solidarizando-se com a viúva e os sete filhos do chefe da estação. Prisão e julgamentoCharles Jones foi detido na prisão pública da Praça dos Andradas e submetido a julgamento, presidido por José Vergueiro, sobrinho do Visconde de Vergueiro. O promotor João Galeão Carvalhal encabeçou a acusação, enquanto o defensor público José Emílio Ribeiro de Campos assumiu a defesa. Inicialmente, Jones tentou alegar distúrbios mentais, afirmando sentir dores e confusão ao tentar recordar os eventos, mas essa estratégia de defesa foi prontamente rejeitada e condenada pela imprensa e opinião pública. Apesar da aparente insanidade, Jones manteve um claro discernimento ao perceber que a prisão se tornaria insuportável, após seu plano de fingir insanidade ter falhado. Assim, ele começou a articular uma fuga, obtendo de alguma forma instrumentos, cordas e outros recursos. Seu plano estava bem elaborado e quase teve sucesso, não fosse por uma circunstância inesperada. Durante uma revista da prisão, o carcereiro descobriu ferramentas escondidas sob a tarimba, incluindo serras, uma lima de aço e cordas. Jones havia até mesmo modificado o assoalho da Sala da Câmara para criar uma rota de fuga, mas a tentativa foi interrompida quando o carcereiro encontrou suas ferramentas. No entanto, o revés não o desencorajou, e ele fez uma segunda tentativa, conseguindo descer pela janela da Câmara antes de ser capturado por uma sentinela. As autoridades não conseguiram identificar os cúmplices de Jones que o ajudaram em suas tentativas de fuga. Em seu primeiro julgamento, em 16 de setembro de 1884, Jones foi condenado no grau médio dos artigos 192 e 205 do Código Criminal. No segundo julgamento, ocorrido em 14 de março de 1885, ele recebeu a mesma pena. Com isso, foi sentenciado à prisão perpétua e deveria cumprir sua pena na ilha de Fernando de Noronha, destinada aos prisioneiros mais perigosos do Brasil. Vilão a heróiApós sete anos na isolada ilha atlântica, uma situação grave se abateu sobre a colônia penal, com a interrupção das comunicações com o continente e a falta de provisões. Mais de 200 homens, entre condenados e funcionários, enfrentavam a fome e o desespero. Foi Charles Jones, o mesmo homem que cometera um terrível homicídio e fora condenado à prisão perpétua, quem se propôs a enfrentar o oceano em uma jangada improvisada. Numa tentativa quase suicida, o inglês se lançou ao mar e navegou por 12 dias, enfrentando tempestades, tubarões e a incerteza. Finalmente, avistou o litoral, sendo resgatado por pescadores em uma comunidade potiguar no Rio Grande do Norte, tornando-se um improvável herói ao poder salvar a vida de muitos na ilha. IndultoCharles Jones chegou ao Recife e imediatamente alertou as autoridades sobre a crise em Fernando de Noronha, resultando no envio urgente de provisões que salvaram a todos na ilha. Sua história de heroísmo rapidamente se espalhou pelo país e ele recebeu apoio financeiro para viajar ao Rio de Janeiro e se reunir com sua família em São Paulo. Em 1895, Jones, a esposa e a filha embarcaram para Liverpool, de onde nunca mais voltariam. Em novembro de 1896, o presidente do Estado de São Paulo, Campos Salles, concedeu o perdão a Charles Jones, considerando sua pena cumprida e honrando o ato corajoso que salvou dezenas de vidas. Foi uma espécie de indulto divino que o acompanhou até o litoral, dadas as circunstâncias extraordinárias. Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de Santos. 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