[[legacy_image_292876]] Diante da imagem de uma mulher preta no maior canal de televisão do Brasil, a frase ‘quem vê close, não vê corre’, ganha um novo sentido. Valéria Almeida, de 40 anos, hoje abrilhanta o 'Bem Estar', no 'Encontro', mas sua história com o Jornalismo começou nas ruas da Zona Noroeste, em Santos, quando ela ainda era uma menina. “Eu nasci e cresci no (bairro) Areia Branca, quando eu tinha dez anos a minha mãe faleceu e eu fui morar na Vila São Jorge, em São Vicente, mas depois retornei a Santos”, relembra. [[legacy_image_292877]] Valéria ainda conta que desde pequena via que seu bairro só aparecia em páginas policiais. “Mas eu conhecia pessoas incríveis e pensava ‘se eu for jornalista vou poder contar a história dessas pessoas’. Porque eram pessoas que me inspiraram, que eu era fã. Eu sou fã de pessoas do dia a dia. Eu tenho uma grande admiração pelas pessoas do cotidiano” E no final da sua adolescência, com anseio de contar histórias ela ingressou na faculdade de Jornalismo em Santos. Mas sua experiência como universitária foi entre altos e baixos. “Eu passei muitos anos estudando e fazendo acordos para conseguir pagar a mensalidade, mas ao chegar no último ano eles não aceitaram mais um acordo. Então eu entrava nas salas de aula e os professores eram orientados a pedir para que eu me retirasse”, relembra. Ainda sem entender o que estava acontecendo, uma professora contou que essa era a orientação que recebiam devido a sua situação de inadimplência. “A classe inteira foi para a reitoria, mas ela disse que não tinha o que fazer”. Apesar disso, Valéria nunca desistiu do seu sonho de se tornar uma ‘contadora de histórias’. Ao ser ‘expulsa’ da faculdade, se dedicou para pagar a dívida e assim então, poder retornar às salas de aula. “Eu me sentia muito culpada e envergonhada de dever. Mas eu segui acreditando que daria certo”. E entre os desafios para realizar o seu doce sonho de se tornar uma comunicadora, Valéria se viu trabalhando dobrado e até mesmo passando fome. Ela disse que foram incontáveis as vezes em que foi para a faculdade com dor no estômago. Mas também, que foram incontáveis as vezes em que pessoas a ajudaram, seja o dono de um albergue no Centro de Santos, que lhe dava um prato de comida, ou um motorista que permitia que ela pegasse o transporte sem pagar passagem. “Serei muito grata”. Em sua jornada, ela estagiou em Santos e Itanhaém como comunicadora, mas também trabalhou em outros lugares, como lojas locais. “Eu falo que a minha carteira de trabalho tem três registros: na papelaria, na Carta Capital e na Globo”, conta com orgulho. Por ter recebido críticas à sua imagem, de uma mulher preta com cabelos crespos, Valéria decidiu que iria dedicar-se ao fotojornalismo. “As minhas imagens contariam histórias”. [[legacy_image_292878]] Contadora de HistóriasO seu fascínio por registrar momentos começou na periferia santista, quando ela percebeu que queria captar o cotidiano das pessoas que eram como ela. E foi com esse desejo que ela foi contratada como assistente fotográfica de uma grande revista nacional, aos 23 anos, em 2007. Mas foi em 2011, que ela realizou o seu sonho de ir para a TV, no programa Profissão Repórter. Como ela já tinha ouvido críticas sobre seu cabelo não ser o ideal para televisão, na entrevista, perguntou ao jornalista Caco Barcellos, que comanda o programa, se teria que mudar o seu visual para se adequar ao programa. Não precisou. “Eu estava mostrando para o que vim. Meu cabelo falava muito sobre mim e meu posicionamento na vida”, conta. Valéria, com brilho nos olhos, relata suas experiências como repórter e o quanto seu coração pulsava por contar cada uma das histórias especiais que passaram pelo seu caminho. Alma CaiçaraApaixonada por praia, suas memórias afetivas são nas areias e nas águas de Santos e São Vicente. Foi neste lugar que criou lembranças com seus pais, com seus amigos e conheceu seu marido - que, segundo ela, desde a primeira vista, sabia que se casaria com ele, sentimento confirmado no primeiro beijo, no clube Ouro Verde, tradicional roda de samba no Marapé. “Eu sei que estava escrito que era proibido dançar junto, mas não estava escrito era proibido beijar. Então nos beijamos e um ano depois, nos casamos”, conta. Segundo ela, a praia é o seu lugar e todas as vezes que retorna a cidade e está calor, podem ter certeza que é em uma das praias da Baixada Santista que ela estará. “Para mim, onde tem praia, sempre tem uma memória bonita”. [[legacy_image_292879]] JornalismoAo relembrar o porquê da sua escolha com o Jornalismo, a mulher conta que quando era criança olhava a televisão e o jornal e pensava o quanto seria difícil alguém como ela chegar em um local como aquele. “Eu via a Glória Maria viajando tantos lugares. A Fátima Bernardes na Copa do Mundo, e eu pensava que se eu fosse jornalista eu iria viajar o mundo e contar histórias”. E ela realizou seu sonho de menina, viajando Brasil afora para contar histórias que marcaram o País. “Eu fui falar de cultura, de questões sociais e de problemas que achava que deveriam ser denunciados. Mas também fui falar da forma leve que as pessoas encontram para levar a vida”, conta. As aventuras da profissão a levaram a morar na Capital, mas ela afirma que sempre está pela Baixada, que é o seu verdadeiro lar. Hoje, depois de conhecer tantas pessoas e de uma vida dedicada ao Jornalismo, ela diz que não se arrepende do que viveu e olha com gratidão para o seu passado. “Se hoje eu fosse escolher, faria as mesmas escolhas. Certamente, eu escolheria o Jornalismo de novo”.