[[legacy_image_290678]] Uma cruz e muita polêmica. A peça sacra que fica na Praça Doutor Bruno Barbosa, em frente à Paróquia Sagrada Família, no Castelo, Zona Noroeste de Santos, viralizou na internet por conta de uma foto em que aparecia repleta de lanças, como se fossem 'espetos'. As publicações supunham que a medida teria sido tomada para impedir a concentração de moradores de rua, algo negado pelas autoridades. Na tarde deste domingo (20), a Prefeitura de Santos retirou as lanças do local. A situação chegou ao conhecimento do padre Júlio Lancellotti, conhecido no Brasil pela defesa da população de rua contra a chamada “arquitetura hostil”, que coloca obstáculos para impedir a presença e permanência de moradores de rua. [[legacy_image_290679]] “Impressionante, até na cruz. Aporofobia (termo para repúdio, aversão ou desprezo pelos pobres ou desfavorecidos)”, postou o padre nas redes sociais, marcando o perfil da Diocese de Santos na publicação. Após cobrar uma resposta da Prefeitura, A Tribuna foi ao local na tarde deste domingo (20). Ao chegar, as lanças eram retiradas da cruz por um funcionário da Administração Municipal. Logo depois, a Prefeitura disse, em nota, que "os pregos foram retirados" por ordem do governo, "apesar de não ter sido responsável pela instalação”. [[legacy_image_290680]] Ressaltou que o monumento retornou ao formato em que foi entregue, não sabendo informar quem teria instalado o material na cruz, que foi feita em 2018, na ocasião da celebração dos 50 anos da Paróquia Sagrada Família. ControvérsiaAs opiniões sobre os 'espetos' na cruz são distintas. Há quem defenda a presença dos objetos como “combate ao vandalismo”, quem concorde com a retirada “por oferecerem risco a idosos e crianças que passam no local” e quem defenda a Paróquia das insinuações de higienização social. “Não passo muito por aqui, mas já vi as crianças querendo brincar e os pregos todos para cima. Ali, deveria haver uma cerca em torno da cruz. Tem que pôr uma grade legal, para impedir que as crianças pisem ali”, diz a cozinheira de escola Danielle Oliveira da Silva. Já o técnico de áudio Flávio Luiz de Matos Xavier acredita que o vandalismo seja o principal motivo para a colocação dos pregos na cruz. “Cada um tem sua crença, mas é preciso respeito. As pessoas iam ali para tirar foto e encontravam a cruz com dejetos e urina, por exemplo. Alguns moradores de rua dormiam ali”, relata. Segundo ele, até práticas sexuais teriam ocorrido no local. A Reportagem também conversou com frequentadores da Paróquia que viram como “absurda” a publicação na internet da foto da cruz com os pregos. “É terrível esse tipo de insinuação. Nossa igreja ajuda muito os moradores de rua”, argumenta a gerente de loja Delba Feitosa da Silva. A autônoma Carla Alves dos Santos vai na mesma linha. “É triste quando a gente ouve isso. Acabam criando uma imagem negativa (da igreja) e muitas pessoas entendem como verdade, mesmo sem conhecer a comunidade”. DioceseA Diocese de Santos afirma, em nota, que "a Igreja de Santos acolhe os pobres, que são sempre bem-vindos e atendidos em nossas comunidades, que tem também muitas iniciativas de ajuda a moradores de rua”, citando, ainda, um mutirão no último dia 18, chamado Amigos do Banho, em que foi oferecida higiene a 43 pessoas em situação de vulnerabilidade social. “Em entendimento com a Prefeitura, estamos buscando formas de resolver a situação (da cruz), respeitando a todos os frequentadores da praça, e os devotos, que têm na cruz um símbolo sagrado de Cristo e de seu grande amor por nós”, argumenta a Diocese. Segundo a entidade, a comunidade pediu para que os itens fossem colocados na cruz, pois ela estava "sendo utilizada para outros fins, como namoros, manobras de skate" e não sendo "respeitada".