Santos, 25 de outubro de 1897. Faltavam poucos minutos para as 13 horas quando os sinais do Monte Serrat anunciaram a aproximação de um navio de guerra brasileiro, que acabará de surgir na entrada da barra. Era o cruzador Andrada, que regressava da Bahia transportando o 1º Batalhão da Brigada Policial Paulista, enviado meses antes para combater os seguidores de Antônio Conselheiro. A notícia espalhou-se pelas ruas e levou uma multidão às proximidades do cais. Os soldados haviam integrado a quarta e última expedição contra Canudos. Depois de sucessivas derrotas militares, o governo republicano mobilizara uma grande força para destruir Belo Monte, comunidade sertaneja que reunia milhares de habitantes. A resistência terminara naquele outubro de 1897, deixando o arraial arrasado e grande parte de sua população morta. A recepção no porto Conforme noticiou o Diario de Santos em 26 de outubro, lanchas a vapor partiram ao encontro do cruzador, levando autoridades, jornalistas, familiares e integrantes de comissões vindas de São Paulo. Entre elas estavam a Paula Pires, da Companhia Docas, a Roberto Vasconcellos, da Alfândega, e a Ipanema, da Comissão de Saneamento. Os militares ocupavam o convés e respondiam às saudações agitando seus bonés. Para muitos, era o primeiro reencontro com parentes e amigos depois de meses de combates e privações. O Andrada partira da Bahia no dia 20 de outubro e viajara por cinco dias, enfrentando problemas mecânicos durante o percurso. Trazia 438 integrantes da força paulista, entre oficiais e praças, além de 115 tripulantes. O coronel Elesbão dos Reis comandava o batalhão. Entre os que regressavam estava o major José Pedro, ferido no braço, peito e cabeça. Outros 32 praças viajavam feridos, e dez haviam permanecido na Bahia para tratamento. Às 15 horas, o cruzador fundeou diante da Rua Xavier da Silveira, enquanto a banda militar executava o Hino Nacional. Um trem especial trouxera da capital representantes de escolas, instituições e autoridades para participar das homenagens. À noite, uma passeata percorreu o centro, visitando a redação do Diario de Santos, a Sociedade Humanitária e a sede da Lyra Commercial. Festa ou frieza? O entusiasmo descrito pelo Diario de Santos não foi unanimidade. Décadas depois, o historiador Olao Rodrigues, em sua Cartilha da História de Santos, recuperou o relato do jornal Tribuna do Povo, segundo o qual os soldados teriam desfilado pelas ruas como se estivessem em terra estranha, diante de uma recepção surpreendentemente fria. É possível que as homenagens oficiais e a movimentação no cais não tenham correspondido ao acolhimento popular esperado. Os registros mostram como um mesmo acontecimento podia receber interpretações diferentes. O desembarque estava previsto para a manhã de 26 de outubro. Dali, uma composição ferroviária especial conduziria os militares até a capital paulista, encerrando o longo regresso de uma campanha celebrada pelo governo como vitória da República. As crianças de Canudos Mas havia outros passageiros naquele navio. O Diario de Santos registrou a presença de quatro crianças sobreviventes do arraial, chamadas pela imprensa da época de “jaguncinhos”. Maria, de 3 anos, e seu irmão José, de 4, eram filhos de Pedro Sant’Anna, morto nos combates de 1º de outubro. A menina viajava com o sargento Gonçalves de Vasconcellos; o menino, aos cuidados do capitão Sarmento. Joanna, filha de Amancio, também morto naquele dia, acompanhava o sargento Hermeto da Rocha Leão. Antonio, de 6 anos, era filho de Timotheo, igualmente morto em 1º de outubro. A notícia não esclarecia se possuíam outros familiares vivos, em que circunstâncias haviam sido entregues aos militares nem para onde seriam levadas. A ausência dessas respostas torna ainda mais doloroso o breve registro conservado nas páginas do jornal. A outra face da vitória Enquanto o país festejava a derrota de Canudos, aquelas crianças testemunhavam o preço humano da campanha. Os soldados regressavam à terra natal, recebiam homenagens e podiam reencontrar suas famílias. Maria, José, Joanna e Antonio faziam o caminho inverso: deixavam a terra onde haviam nascido, depois de perder os pais e ver destruída a comunidade em que viviam. Não sabemos que destino tiveram, quem as acolheu ou se algum dia puderam reconstruir os vínculos rompidos pela guerra. Seus nomes e idades, preservados quase por acaso, são o que resta de suas histórias naquele registro. Na tarde de 25 de outubro de 1897, Santos recebeu os homens que voltavam da guerra e, no mesmo navio, crianças para as quais a guerra ainda estava longe de terminar. SERGIO WILLIANS É JORNALISTA E PESQUISADOR DA HISTÓRIA DE SANTOS. CONHEÇA SEU TRABALHO NO SITE WWW.MEMORIASANTISTA.COM.BR