[[legacy_image_16954]] Uma mistura de dor, mágoa e inconformismo tomou conta da arquiteta M.M., de 37 anos. Moradora de Santos, ela é descendente de japoneses e foi hostilizada por um grupo de adolescentes a caminho de casa na tarde de quinta-feira (27). A pedido da entrevistada, o bairro não será revelado. M.M. estava voltando para casa, com o filho de 1 ano e 4 meses no colo, quando ouviu frases do tipo: “Coronavírus, volta para o seu país”. Antes, os três jovens, que tinham entre 12 e 17 anos, também importunaram uma outra pessoa. “Era uma senhorinha, também oriental, que estava um pouco mais a minha frente. Não consegui ouvir o que falaram. Mas percebi que mexeram com ela também”. M.M. diz que não respondeu até por medo de uma possível agressão. Mas se sentiu constrangida. Ao chegar em casa, abalada, chorou e desabafou com um grupo de amigas pelas redes sociais. “A gente corre o mesmo risco de se infectar que eles. Corre o mesmo perigo. Não é porque somos descendente de orientais que portamos o vírus. É uma coisa que a maioria da população leiga não sabe. É uma ignorância”. Situação grave Apesar de assustada, M.M. conta que, no fundo, já esperava passar por situações difíceis após os registros de casos da doença. Desde janeiro, já perguntaram para ela três vezes, em situação rotineira, como no supermercado, se era de origem chinesa. “Tenho muitos amigos chineses sofrendo ataques nas redes sociais. Uma delas relatou que perdeu amigos, que postaram ofensas e diziam que era culpada pela doença”. Outra amiga dela, também oriental e que está em Nova Iorque (EUA), teve uma corrida negada por um motorista de aplicativo nos últimos dias. “Ela estava de máscara e o motorista cancelou a viagem dela assim que a viu. Ela só conseguiu outra corrida depois que escondeu a máscara”. A arquiteta não planeja registrar boletim de ocorrência. “Prefiro que eles aprendam com um diálogo do que repressão. Eles não tiveram pais que orientaram ou alguém que explicou direito para eles”. Mesmo assim, a arquiteta faz questão de alertar as pessoas contra o preconceito. “É no momento de crise que os preconceitos afloram. O importante é conscientizar as pessoas, filhos, parentes, amigos. Quanto mais conscientização e mais informação for repassada, menos alarde se cria e combate-se o preconceito. Porque ataques não vão curar nenhuma doença”. Alerta A mestre em psicologia e professora da Unimes, Sandra Tarricone, afirma que informações corretas e precisas sobre a doença seria o caminho para combater o preconceito e a intolerância. “O desconhecido gera o medo e uma visão distorcida da realidade. É isso o que motiva o preconceito. Então, conscientizar a sociedade é muito importante no combate à intolerância”. Segundo ela, o lançamento de campanhas com divulgação do máximo de informações possível reforça a luta. “Mas tem de envolver as famílias e as escolas também”.