O tráfico de drogas pela área portuária de Santos é fator que contribui para alta taxa de cocaína na água do mar na região (Alexsander Ferraz/AT) A presença de cocaína na Baía de Santos deixou de ser um dado isolado e passou a representar uma ameaça real ao ecossistema marinho da região. A afirmação é do professor Camilo Dias Seabra, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que classifica a droga como um contaminante emergente preocupante, encontrado não apenas na água, mas também em sedimentos e organismos marinhos, como ostras, peixes e mexilhões. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A descoberta foi apresentada durante a FAPESP Week Illinois, realizada nos dias 9 e 10 de abril em Chicago (EUA). Segundo Seabra, os estudos apontam que os frutos do mar da região podem estar contaminados por cocaína em níveis alarmantes. O grupo de pesquisa da Unifesp, em colaboração com a Universidade Santa Cecília (Unisanta), identificou a presença da droga em amostras de água desde 2017. Inicialmente, suspeitava-se que os altos níveis estivessem relacionados ao período do Carnaval, devido ao aumento no fluxo de turistas. No entanto, análises sazonais mostraram que a contaminação persiste ao longo de todo o ano. “A cocaína hoje é, de fato, um contaminante da Baía de Santos. Encontramos a substância espalhada por toda a região”, afirmou Seabra. Os pesquisadores realizaram análises em laboratório para avaliar os impactos da exposição à cocaína em mexilhões-marrons (Perna perna), ostras de mangue (Crassostrea gasar) e enguias. Os resultados são preocupantes: a bioacumulação da droga em mexilhões chegou a ser mil vezes maior do que a concentração na água, além de provocar alterações em neurotransmissores como dopamina e serotonina — o que pode afetar o sistema reprodutivo desses animais. Estudos com enguias também revelaram que a cocaína interfere na maturação dos óvulos e na produção hormonal, atuando como um desregulador endócrino. Em ostras, a exposição à benzoilecgonina — metabólito da cocaína — causou efeitos citotóxicos e genotóxicos significativos, indicando risco ecológico elevado. Rota do tráfico Pesquisas geoquímicas com sedimentos estuarinos indicam que a presença de cocaína na região remonta à década de 1930, mas o aumento significativo ocorreu nas últimas décadas. A explicação envolve fatores como o tráfico internacional de drogas pela região portuária de Santos, o aumento no consumo de drogas ilícitas, como cocaína e crack, e a falta de tratamento de esgoto, que facilita a liberação de substâncias químicas nas águas. “O cenário é complexo e envolve questões ambientais, de saúde e de segurança pública”, destacou Seabra. A equipe da Unifesp pretende iniciar um programa epidemiológico baseado em águas residuais para monitorar o consumo de drogas na região. Além da cocaína, os pesquisadores também estudam os efeitos de contaminantes como o material particulado atmosférico, derivado da atividade metalúrgica e presente no chamado “pó preto”. Essas partículas contêm metais pesados e elementos raros, com potencial tóxico ainda pouco compreendido. Segundo Seabra, os primeiros resultados do projeto temático apoiado pela Fapesp mostram impactos significativos em invertebrados marinhos e peixes, além da possibilidade de bioacumulação no pescado. O que diz a Cetesb A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), em nota, informou que realiza o monitoramento sistemático da qualidade das águas costeiras, incluindo ensaios ecotoxicológicos. A companhia afirmou que os níveis de cocaína encontrados no estudo da Unifesp, na ocasião, não representariam risco para banhistas nem efeitos tóxicos diretos em mexilhões. A nota destaca ainda que os relatórios com os dados de monitoramento estão disponíveis para consulta pública no site da Cetesb. Estudos complementares, realizados por pesquisadores da USP, Unicamp e Universidade de Illinois (EUA), analisaram compostos químicos em sedimentos e águas do estado de São Paulo. As pesquisas identificaram que a contaminação por hidrocarbonetos, agrotóxicos e resíduos industriais na Baixada Santista se intensificou a partir das décadas de 1940 e 1950, com a instalação do polo industrial. Segundo César de Castro Martins, professor do Instituto Oceanográfico da USP, esse marco indica o início do Antropoceno — a era geológica dominada pela influência humana — nos estuários de Santos e São Vicente.