Iniciativa ocorreu na tarde desta quinta-feira (28), no auditório do Grupo Tribuna, em Santos. Planejamento urbano foi um aspecto tratado com profundidade (Alexsander Ferraz/AT) A discussão sobre o futuro de Santos passa pelos prédios. Mas, segundo os participantes do quinto encontro do projeto Santos 500+, nesta quinta-feira (28), no auditório do Grupo Tribuna, o debate da verticalização vai muito além da altura dos edifícios. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O que está em jogo, segundo arquitetos, urbanistas, gestores públicos e representantes da construção civil, é o modelo de cidade que Santos pretende consolidar nas próximas décadas: compacta, adensada e conectada; ou espalhada, dependente do carro e com pressão sobre áreas ambientais. “Santos escolheu, há décadas, crescer dessa forma”, afirmou o secretário municipal de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Sustentabilidade, Glaucus Farinello. Integrantes da construção civil argumentaram que o mercado apenas responde à demanda da população. E especialistas ressaltaram que o problema não está, necessariamente, nos edifícios altos, mas na maneira como se planejam cidades. A secretária municipal de Obras e Edificações, Larissa Cordeiro, apresentou dados sobre o crescimento urbano santista e destacou que a Cidade passou de 5 milhões para 30 milhões de metros quadrados (m²) construídos em cerca de 70 anos. Segundo ela, há cerca de 43 mil lotes na Cidade, e 67% das moradias estão em apartamentos. Ainda assim, apenas 2% dos edifícios têm mais de 30 andares. “Santos é a cidade mais verticalizada do País, mas não é a cidade com os prédios mais altos”, afirmou. Larissa também destacou que, entre 2021 e 2025, foram concedidos 1.294 alvarás para construções e reformas, a maior parte na Zona Leste. Segundo ela, 54 novos edifícios com mais de dez pavimentos receberam carta de habitação nos últimos cinco anos. Ela afirmou que a Prefeitura busca equilibrar crescimento e qualidade de vida com estudos de impacto de vizinhança e exigências de compensação pelos empreendimentos. Verticalização Um dos pontos mais debatidos do encontro foi a percepção popular sobre a verticalização santista. Para o engenheiro civil e cientista político Alcindo Gonçalves, há um entendimento distorcido sobre o tema. “A ocupação de Santos, nos últimos 40 ou 50 anos, foi basicamente feita por prédios baixos. É um erro dizer que Santos virou uma cidade de torres de 50 andares.” Pelos dados apresentados no encontro, grande parte da verticalização santista ocorreu com edifícios de pequeno e médio portes. Mais de 70% têm até dez pavimentos. Ao tratar dos impactos ambiental e urbano desse crescimento, Glaucus Farinello ponderou que a verticalização pode ajudar na preservação ambiental, ao evitar a expansão da ocupação sobre áreas protegidas. “Santos preserva 75% do seu território. Quando concentramos o crescimento urbano na área insular, conseguimos proteger áreas ambientais importantes.” O secretário acrescentou que a cidade ajusta leis urbanísticas para tornar empreendimentos mais sustentáveis, com ações sobre arborização, acessibilidade, mobilidade e integração com os espaços públicos. Entre os exemplos, estão a proibição de muros em novos grandes empreendimentos, o incentivo à mobilidade ativa e projetos de arborização urbana para combater ilhas de calor. Apenas 2% dos prédios têm mais de 30 andares, afirmou secretária (Alexsander Ferraz/AT) Mercado O presidente da Associação dos Empresários da Construção Civil da Baixada Santista (Assecob), Mateus Teixeira, afirmou que o setor imobiliário não define sozinho onde construir. Segundo ele, os empreendimentos se concentram na orla devido à procura por essa região. “O incorporador constrói onde existe demanda. E a população quer morar perto da praia, perto do jardim, perto de serviços e da infraestrutura urbana.” Teixeira rebateu dúvidas relacionadas à sobrecarga da infraestrutura urbana e disse que os novos empreendimentos também promovem melhorias nas redes de água, esgoto e energia. “Santos foi dimensionada para cerca de 800 mil habitantes. A cidade tem hoje pouco mais de 400 mil moradores”. Conforme estima o IBGE, eram 429,5 mil em 2025. Centro é uma aposta para redistribuir crescimento No encontro, também se debateu o futuro da região central de Santos. Para os participantes, o Centro aparece como uma das principais apostas para redistribuir o crescimento urbano da Cidade. Segundo Glaucus Farinello, a região tem potencial para receber novos empreendimentos residenciais, comerciais e projetos de retrofit, aproveitando imóveis já existentes. “O Centro não é apenas patrimônio histórico. O Centro também é oportunidade, desenvolvimento e moradia”, afirmou. O secretário destacou que parte significativa dos imóveis da região não possui restrições severas de preservação e que a Prefeitura vem criando incentivos urbanísticos para atrair investimentos. Entre as iniciativas citadas, estão as zonas especiais de renovação urbana, a revitalização do Parque Valongo e novos empreendimentos habitacionais previstos para a área central. O secretário citou o edifício residencial Novo Valongo, que será construído na região e terá mais de mil moradias, aumentando o fluxo de pessoas nas ruas do centro. A expectativa do Município é ampliar a ocupação residencial do Centro, estimulando comércio, circulação de pessoas e reativação econômica. “O que falta no Centro é gente”, resumiu Farinello. Santos “pode ser uma cidade de 15 minutos”, considerou Farinello (Alexsander Ferraz/AT) Um modelo melhor para caminhar Outro eixo central do encontro foi a discussão sobre mobilidade urbana e o excesso de dependência do automóvel. Durante as apresentações, participantes defenderam um modelo de cidade melhor para caminhar, com incentivo a transporte coletivo, bicicletas e deslocamentos curtos. Larissa Cordeiro afirmou que Santos precisa “devolver a cidade às pessoas” após décadas de urbanismo voltado ao carro. “Durante muitos anos, empilhamos carros. Agora, precisamos voltar a pensar no pedestre. As pessoas podem começar a aderir à carona solidária”, considerou. O secretário Glaucus Farinello reforçou que Santos já tem características favoráveis para esse modelo urbano por ser uma cidade compacta. “Santos pode ser uma cidade de 15 minutos. Você consegue acessar comércio, escola, farmácia e serviços rapidamente”, disse. O arquiteto e pesquisador Luiz Henrique Villanova criticou modelos urbanos espalhados, que obrigam grandes deslocamentos diários e aumentam a dependência do automóvel. “Quanto mais concentrada é a cidade, mais fácil é reduzir o uso do carro”, afirmou. Ele citou exemplos internacionais e defendeu modelos de planejamento urbano que conciliem adensamento, preservação histórica e qualidade ambiental. Larissa Cordeiro, Glaucus Farinello, Alcindo Gonçalves, Mateus Teixeira e Luiz Henrique Villanova (Alexsander Ferraz/AT) “O licenciamento urbano moderno deixou de analisar apenas o edifício isolado. Ele passou a avaliar também os impactos que ele causa na cidade”, Larissa Cordeiro, secretária municipal de Obras e Edificações de Santos “Santos preserva 75% do seu território. Quando concentramos o crescimento urbano na área insular, conseguimos proteger áreas ambientais importantes”, Glaucus Farinello, secretário municipal de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Sustentabilidade “A ocupação de Santos, nos últimos 40 ou 50 anos, foi basicamente feita por prédios baixos. É um erro dizer que Santos virou uma cidade de torres de 50 andares”, Alcindo Gonçalves, engenheiro civil e cientista político “O incorporador constrói onde existe demanda. E a população quer morar perto da praia, perto do jardim, perto de serviços e da infraestrutura urbana”, Mateus Teixeira, presidente da Associação dos Empresários da Construção Civil da Baixada Santista (Assecob) “Quanto mais concentrada é a cidade, mais fácil é reduzir o uso do carro. (...) A gente precisa parar de tratar verticalização como sinônimo automático de problema”, Luiz Henrique Villanova, arquiteto e pesquisador