Fábio La Scala Teixeira continua na ativa e mantém freguesia. Aqui, conserta o carrinho de Pedro Mahfuz (Alexsander Ferraz/AT) Antes de jogar uma panela fora porque o cabo quebrou ou a borracha da tampa perdeu a vedação, há quem prefira dar uma segunda chance ao utensílio. Na feira livre da Rua Oswaldo Cruz, no Boqueirão, em Santos, esse tipo de solução ainda tem endereço certo. Entre bancas de frutas e verduras, trabalhadores mantêm vivos ofícios que, embora cada vez menos comuns, continuam quebrando o galho de muita gente. Aos 69 anos, o feirante Fábio La Scala Teixeira dedica mais de quatro décadas ao conserto de panelas, carrinhos de feira e chinelos. O serviço surgiu como uma extensão natural da venda de utensílios domésticos, mas acabou se tornando uma de suas principais atividades. Formado em Engenharia em 1981, Teixeira conta que entrou no comércio por falta de oportunidades na profissão. Um amigo ofereceu uma banca na feira e, na época, o negócio era financeiramente mais vantajoso do que trabalhar na área em que havia se formado. Hoje aposentado, ele continua trabalhando e mantém uma freguesia construída por décadas. Um deles é o professor universitário Pedro Mahfuz Junior, de 70 anos, cliente há 20, que esteve na banca nesta terça-feira (3) para consertar uma roda de seu carrinho de feira. Segundo Teixeira, a procura por consertos permanece significativa porque achar profissionais que façam esse tipo de serviço fora das feiras é cada vez mais difícil. “A maioria parou ou morreu.” Rumo incerto A feirante Jane Ribeiro, de 67 anos, percebe a dificuldade de manter atividades tradicionais. Há nove anos na feira, ela lembra que já encontrou profissionais que consertavam guarda-chuvas, guarda-sóis e cadeiras de praia, mas muitos deixaram de trabalhar. Para ela, os filhos e netos já não demonstram interesse em seguir os passos dos pais. “Eles querem uma profissão mais confortável, trabalhar em casa, no computador. Ninguém quer montar e desmontar uma barraca todo dia, no sol e na chuva.” Uma exceção é Gabriel Francelino da Silva, de 28 anos. Ele começou a trabalhar com consertos de panelas em 2016, seguindo os passos do pai, que também tinha uma banca. Depois de trabalhar com outros comerciantes do mesmo ramo, comprou o próprio ponto e ficou na atividade. Silva: clientes são pessoas mais velhas e que ainda consertam objetos (Alexsander Ferraz/AT) Silva relata que a clientela é formada principalmente por pessoas mais velhas, que ainda têm hábito de mandar consertar objetos. “O pessoal jovem, hoje em dia, compra tudo pela internet. Estragou? Joga fora e compra outro. Não tem esse negócio de levar para arrumar.” O feirante explica que trocar um cabo de panela custa cerca de R\$ 45,00, enquanto um utensílio novo pode chegar a R\$ 200,00. Mesmo assim, nem todos consideram que vale a pena reparar, pois, quando o produto acumula problemas, o custo do serviço pode se aproximar do preço de um item novo. Gabriel Silva tem uma perspectiva pessimista para o futuro da profissão. Ele avalia que a nova geração enxerga o conserto como “perda de tempo”.