Longe dos olhares dos visitantes, a estagiária de Medicina Veterinária Beatriz Aguiar estreita laços com o falcão Baby (Vanessa Rodrigues) Ele tem 24,4 mil metros quadrados, dos quais 15 mil só de vegetação; possui cerca de 70 espécies de animais, sendo 400 indivíduos em 16 recintos de exposição. Além disso, comporta 1.800 plantas e cerca de 1.100 árvores e arbustos. Motivo de orgulho dos santistas, o Orquidário Municipal, no bairro do José Menino, em Santos, tem uma face aparente para turistas e visitantes - e outra que mantém o espaço operando nos bastidores. Segundo a Prefeitura, em 2023, foram recebidos 121.714 visitantes. Neste ano, já estiveram lá 44.090 pessoas. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! A reportagem de A Tribuna visitou o equipamento. De cara, uma constatação: a sensação de que a temperatura lá dentro é menor que do lado de fora. Os mais de 50 funcionários focam em cada detalhe, da alimentação aos cuidados médicos dos animais que vivem no Orquidário Municipal. O local “escolhido” pela bióloga Amanda Francisco Prado para trabalhar. “Conheci o Orquidário há cerca de 5 anos, quando eu vim para Santos. Quando bati o olho, pensei assim: que lugar lindo, quero trabalhar aqui. Há um ano e meio, deu certo”, descreve. Segundo ela, a preocupação com o bem-estar dos animais é regra. “Desde 2018, a gente tem um programa de bem-estar animal, onde eles recebem atividades para estimular comportamentos naturais”, acrescenta. Porém, tem momentos em que Amanda atua como uma espécie de “mediadora de conflitos”. “Meu trabalho consiste em manter esses animais bem alojados, bem alocados e com uma qualidade de vida. Mas tem alguns animais que, por conta da própria biologia, não podem ter outro indivíduo perto”, descreve. Carpas e o pavão Cutias, cágados, jabutis, além de bugios, saguis, araras e papagaios, entre outros, compõem a diversidade animal do Orquidário. Mais duas espécies têm um lugar especial no coração dos visitantes, especialmente os mais velhos: as carpas do lago e o pavão. “As carpas estão lá. É que, como ficam em um estado que a gente chama de semiliberdade, não consegue controlar exatamente o número delas. Mas há um monitoramento quando é feita a limpeza do lago”. E o pavão? “Ele fica solto no parque. Normalmente na hora do almoço ele vai para o lago, gosta de comer na bandeja das cutias, muitas vezes no horário do almoço ele está lá no lago se exibindo”, descreve. Cuidados Mas nem todos os animais estão à mostra para o público. Além de receber espécies apreendidas pela Polícia Ambiental, Guarda Municipal e outros entes policiais, um hospital veterinário ajuda na reabilitação deles. Há espaço até para carcarás recuperarem sua “autonomia de voo”. E, num desses espaços, a estagiária de Medicina Veterinária Beatriz Aguiar estreita laços com o falcão americano (quiriquiri) Baby. “Os animais que a gente recebe em resgate, geralmente, estão assustados. No caso do Baby, ele já está acostumado com o manejo”, explica. Uma iguana e uma jiboia também estavam sob cuidados da estudante. No comando das operações, o coordenador César de Souza Campos procura manter tudo em ordem no Orquidário, driblando toda sorte de problemas. “Eu vim de uma iniciativa privada, de uma área que não tem nada a ver com isso daqui. E coordenar um parque desse tamanho, com mais de 50 funcionários e deixar ele bom para o público, bom para o visitante, é um desafio diário”. As moedas jogadas na fonte onde fica a estátua da Ninfa, certamente, poderiam comportar pedidos para que esse espaço, que completa 80 anos em 2025, siga como um pulmão verde em meio à paisagem. Dedicação O Orquidário foi inaugurado em 11 de novembro de 1945 para expor as orquídeas cultivadas por Júlio Conceição, primeiro orquidófilo do Brasil, falecido sete anos antes. Pois a flor que motiva o nome do espaço segue bem-cuidada, pelas mãos de pessoas como o jardineiro José Aldino, há 36 anos no espaço. Suas “filhas” respondem ao carinho e dedicação com uma beleza especial. A coleção de orquídeas privilegia espécies da Mata Atlântica. Por isso, a maioria floresce no início do verão “Tem que ter prazer para cuidar delas. Gostar mesmo. Há orquídeas aqui que, quando florescem, você fica todo encantado”, descreve. Em sua casa, porém, elas não entram - por enquanto. “Eu não quero misturar as coisas. Agora, quando eu me aposentar, terei minha coleção em casa”, conta. (Vanessa Rodrigues) Botânica Responsável pela unidade de botânica, Fábio Ferreira Santos usa de sensibilidade para cuidar do setor. “Toda vez que as plantas florescem no cultivo, a gente coloca em exposição, porque antigamente ficava no mostruário de orquídeas. Espalhamos pelo parque, em painéis, para a população ver. Há ainda outras 600 instaladas em árvores. O desafio é tentar fazer o espaço mais aconchegante para o visitante”, descreve. O Orquidário também possui cerca de 1.100 árvores e arbustos. São árvores frutíferas e medicinais, além de nativas como o pau-brasil, embaúba, ipê-roxo e pau-ferro, totalizando 137 espécies arbóreas de 36 famílias. (AF) O jardineiro José Aldino sente alegria ao cuidar das orquídeas e se encanta quando elas florescem (Vanessa Rodrigues) Alimentação A alimentação dos animais que vivem no Orquidário Municipal é um capítulo a parte. O cuidado diário com o que é servido às espécies é uma demonstração do cuidado de um grupo de profissionais com um bem precioso do equipamento. É o caso da cozinheira Lizete dos Santos Pereira. Trabalhando no Orquidário há 12 anos, ela conta que são entregues 160 quilos em média por semana, entre frutas, verduras e legumes. Conforme recebemos, já higienizamos. Também recebemos peixes até duas vezes por mês”, conta. Na parede da cozinha, as dietas de cadas espécies, com horários e porções de cada refeição. São entre 120 e 150 dietas oferecidas todos os dias - uma dieta pode servir mais de um animal, por exemplo. “Os horários são, em geral, às 8 horas, ao meio-dia e às 16 horas. No domingo, por exemplo, eles fazem jejum. Teve um jacaré que chegou a ficar, por opção própria, quatro meses sem comer”, acrescenta Lizete. “Eu gosto do que faço, é com prazer”, resume. (Vanessa Rodrigues)