[[legacy_image_70629]] No início dos anos 1950, o então menino Geraldo Pierotti nem imaginava que parte de seu coração já batia do outro lado da parede da casa geminada da família, na Rua Antônio Bento. Mais precisamente no número 75 – ele, os pais e o irmão maior moravam no 73. Na residência ao lado vivia quem Pierotti relembra como Neusa Coca-Cola. A casa seria uma espécie de quartel-general da batucada e ali nasceria, em 1955, por via e obra de Dráusio da Cruz, a hoje lendária escola Império do Samba. Seria por ela que o Carnaval santista acolheria um Pierotti já adulto como um de seus maiores compositores, nos anos 1970. Mas não se pode atravessar o ritmo: essa história ainda está, literalmente, na infância. A vida do menino Pierotti, embora austera, era relativamente tranquila. Nessa época, o pai, Mansueto, ainda tentava emplacar a sua empresa de suprimentos a navios e a mãe costurava para fora. Já os irmãos, junto com a molecada das redondezas, na Vila Mathias, pegavam os carrinhos de rolimã e iam para a feira livre, ajudar as donas de casa a carregar as compras, mediante, claro, uma moedinha ou duas para financiar doces e sorvetes. De Carnaval, nesse tempo, havia apenas os blocos de sujos improvisados pela criançada. Fantasiados de pirata, com capuz preto, ou vestidos de mulher, iam batucando latas pelas ruas, passando pelas casas e recolhendo outras tantas moedinhas. Para mais doces e mais sorvetes. Mas a glória comercial dos irmãos Pierotti acontecia aos domingos, no Cine Carlos Gomes, na Avenida Ana Costa, 55. Havia duas sessões, às 14 e às 16 horas. Lá iam eles, com uma penca de gibis novinhos que o pai ganhava dos marinheiros embaixo dos braços – nos navios, sabia-se dos filhos pequenos do seu Mansueto. Os irmãos paravam à porta do cinema, antes da primeira sessão, e abriam o mercado informal. O negócio era bom para todo mundo: tinha Capitão Marvel e Roy Rogers por menos da metade do preço, a molecada se juntava como abelha no mel. E os irmãos mal conseguiam segurar nas mãos pequenas todos os trocados para poderem assistir à segunda sessão do cinema... Da poesia ao samba “Na adolescência, fazia poesia. Conforme fui ficando mais velho, comecei a fazer paródias”, conta. As paródias, a maioria impublicável, permearam os cinco anos da faculdade de Direito. Acabaram por lhe render a fama de compositor e o convite, ao final do curso, para tecer o hino de despedida da turma. Nasceram os versos: Cinco anos são passados/Foi como o vento/Bate-papos, brincadeiras/Foi um bom tempo/Tanto choro e desespero/Não querendo aceitar/Que para mim, chega a hora do adeus/Eu vou partir. As incursões na música da folia também são desse tempo. Pipocaram os convites para participar de concursos de sambas e marchas para bandas, como a da Casa Amarela, ligada ao Direito, que saía nos sábados de Aleluia; ou da Bubas, Banda Universitária da Baixada Santista. Foi ganhando um atrás do outro, e a fama, crescendo. Nessa época, a Mansueto Pierotti & Filhos já estava bem estabelecida. Geraldo já cursava a segunda faculdade – Administração de Empresas – e estava envolvido na firma. Aliás, esse é o seu trabalho até hoje, só que na G.Pierotti, a sua própria empresa de suprimentos a navios. As idas e vindas pelos becos e avenidas do samba prosseguiram. Até que, após Geraldo participar do júri para escolher o samba-enredo da Império do Samba em 1976, Dráusio, não o da Cruz, mas de Oliveira, do time de compositores da escola, virou para ele: “Não quer fazer samba?” Gravação santista Assim, para o Carnaval de 1978, o samba Os Pastores da Noite, de Geraldo Pierotti, musicava o enredo baseado no livro homônimo de Jorge Amado, depois de vencer a concorrência. A escola não figurou entre as campeãs, mas Pierotti firmou-se no mundo do samba santista. Além de receber uma carta elogiosa do próprio Jorge Amado sobre o samba, também inaugurou uma era. De repente, pensou: “Por que não podemos gravar o samba?” Colocou tudo na ponta do lápis: o valor dos batuqueiros, instrumentistas, estúdio em São Paulo, transporte, arte da capa, cervejinha, que ninguém é de ferro... Dividiu em 20 cotas e arrecadou na camaradagem com seus pares empresários. O resultado foi o primeiro samba de um santista gravado em vinil – abrindo as portas para gravações futuras. Desde então foram mais de 50 sambas – fora os jinglesde campanhas políticas e, claro, as paródias. Em 1986, emplacou ainda na Império o A Deusa de uma Raça, cujo enredo inspirava-se no livro Do Batuque à Escola de Samba, do Marechal J. Muniz, em que se conta ser o culto à deusa africana Samba, em Angola, uma das possíveis origens do nome do ritmo, por aqui. Esse samba foi responsável por um nó na garganta de Pierotti. À época, uma treta entre a União das Escolas de Samba da Baixada Santista e Dráusio da Cruz, presidente da Império, impediu a gravação. “Isso me deixou muito triste”. Trinta anos depois, no aniversário de 70 anos, a surpresa: familiares, amigos e parceiros realizaram a gravação frustrada. Já faz algum tempo, o compositor anda recolhido. Abriu alas ao empresário (“Se tivesse sido só músico, não teria atingido o padrão que dei à minha família”). Mas o pendor à arte fustiga e seduz. “Tô tentando diminuir o trabalho. Quem sabe sobra tempo?” O Carnaval santista agradeceria.