Os 402 degraus da escadaria do Monte Serrat contam uma história sobre devoção, fé e promessas em Santos (Arquivo/Prefeitura de Santos) Os 402 degraus da escadaria do Monte Serrat contam uma história sobre devoção, fé e promessas. Com 14 nichos representando as estações da Via Sacra, o Caminho Monsenhor Moreira liga a cidade de Santos, no litoral de São Paulo, à Igreja de Nossa Senhora do Monte Serrat, no topo do morro, que além de um santuário religioso, se tornou um ponto turístico santista. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Antes de se tornar uma das atrações turísticas da cidade, o Monte Serrat já foi conhecido como Morro de São Jerônimo e Morro da Vigia. No começo do século XVII, uma capela dedicada a Nossa Senhora do Monte Serrat foi construída. Em seguida, o morro passou a ser um símbolo religioso para a cidade, conforme explica Sérgio Willians, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Santos, para A Tribuna. O Monte Serrat O pesquisador relata que a ligação dos moradores de Santos com o monte ficou ainda mais forte por conta de um episódio de invasão holandesa, no início do século XVII. “Pela tradição santista, parte da população buscou refúgio no morro e pediu a proteção de Nossa Senhora. Quando os invasores tentaram subir, ocorreu um deslizamento que teria atingido os perseguidores. O acontecimento passou a ser interpretado como um milagre e ajudou a transformar Nossa Senhora do Monte Serrat em uma das grandes referências religiosas de Santos, muito antes de ela ser oficializada como padroeira da cidade, em 1954, com a coroação solene em 8 de setembro de 1955.” Caminho Monsenhor Moreira Quando a escadaria ainda não existia, o caminho era precário, feito de terra, pedras e degraus. Mas a devoção era o que fazia os fiéis enfrentarem as dificuldades para chegarem até o topo até à capela, de acordo com Willians. A Via Sacra foi implantada no fim dos anos 1930 e começo dos anos 1940, com 14 nichos que representam a Paixão de Cristo. O percurso religioso também representa uma relação afetiva entre a escadaria e os santistas, que sobem o monte como uma expressão de fé. “Eles foram realizados com participação popular e transformaram definitivamente a subida num percurso religioso. O antigo caminho de terra e pedras acabou sendo pavimentado e consolidado com degraus. Por isso, a escadaria que vemos hoje é resultado de uma história muito mais antiga do que a própria obra física. Ela acompanha séculos de ligação entre os santistas e o alto do Monte Serrat.” Nichos da escadaria representam a Via Sacra (Acervo A Tribuna) A Padroeira A imagem da Santa também realiza o percurso durante as festividades religiosas. A Festa da Nossa Senhora do Monte Serrat é uma tradição santista em que a imagem da padroeira de Santos desce a escadaria até a Catedral de Santos. “Para muitos devotos, subir a escadaria é uma forma de peregrinação. Há quem faça o percurso para agradecer uma graça alcançada, cumprir uma promessa ou simplesmente demonstrar sua devoção à Padroeira. Tradicionalmente, algumas pessoas chegam inclusive a subir determinados trechos de joelhos, como expressão pessoal de fé”, explica Willians. “Os 14 nichos reforçam esse sentido porque representam a Via Sacra, ou seja, os momentos da Paixão de Cristo até a crucificação. Assim, a própria subida pode ser feita como um caminho de oração e reflexão. O esforço físico também acaba adquirindo um significado simbólico: é uma peregrinação que termina diante da imagem de Nossa Senhora do Monte Serrat. Isso fica particularmente evidente durante a Festa da Padroeira, quando milhares de pessoas participam dessa tradição”, completa. Fiéis enfrentam subida para chegar até a capela (Acervo A Tribuna) Ponto turístico Além do espaço religioso do Monte Serrat, o local passou a abrigar cassinos, bailes e espetáculos, de acordo com o pesquisador. “A transformação mais evidente em atração de lazer e turismo aconteceu nas primeiras décadas do século XX. Em 1927 foi inaugurado o sistema funicular e, poucos meses depois, o cassino do Monte Serrat. O local passou então a reunir duas coisas muito diferentes, mas que acabaram convivendo: de um lado, a tradição religiosa do Santuário; de outro, o lazer, os bailes, os espetáculos, o jogo e a vista panorâmica da cidade. Depois do fechamento dos cassinos em 1946, o caráter turístico permaneceu e acabou se fortalecendo.” Já o famoso bondinho, inaugurado em junho de 1927 para facilitar o acesso ao topo do monte e à capela, e em seguida, ao cassino, que foi aberto em setembro do mesmo ano, foi o que tornou o monte um dos pontos turísticos mais emblemáticos de Santos. “O funicular facilitava a chegada de visitantes ao cassino, ao mirante e ao Santuário, enquanto essas atrações aumentavam o movimento dos bondinhos. Foi essa combinação entre fé, paisagem, transporte e lazer que acabou transformando o Monte Serrat em um dos grandes símbolos turísticos de Santos”, ressalta Willians. Sistema de bondinho se tornou uma das principais atrações turísticas de Santos (Acervo A Tribuna)