Muito antes dos arranha-céus dominarem a orla de Santos e dos edifícios substituírem antigos casarões e hotéis luxuosos, um empreendimento já recebia turistas, empresários, políticos e famílias que desembarcavam no litoral de São Paulo em busca de descanso à beira-mar. Quase um século depois, ele continua exercendo exatamente a mesma função: hospedar visitantes. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Para o historiador, jornalista e escritor santista Sergio Willians, o Atlântico Hotel, inaugurado em 1928, no Gonzaga, é o hotel mais antigo do litoral de São Paulo que permanece em funcionamento ininterrupto no mesmo endereço. Embora existam estabelecimentos mais antigos na história da região, nenhum deles sobreviveu ao tempo mantendo a atividade hoteleira. "Existiram hotéis anteriores a ele no litoral paulista, alguns ainda no século XIX, mas esses estabelecimentos desapareceram, foram demolidos ou deixaram de funcionar como hotéis. Quando se acrescenta à antiguidade o critério da permanência da atividade hoteleira, o Atlântico ocupa uma posição especial", explica o pesquisador. O que faz um hotel ser o mais antigo? A resposta não é tão simples quanto parece. Segundo Sergio Willians, é necessário definir quais critérios serão considerados. Pode-se levar em conta a data de construção, a inauguração, o prédio original ou a continuidade da atividade. Há exemplos que ilustram essa diferença. O tradicional Grande Hotel La Plage, em Guarujá, surgiu em 1892, mas passou por três edifícios diferentes ao longo da história. Já o Hotel Internacional, inaugurado em Santos em 1895, foi demolido décadas depois. Por isso, quando o assunto é um hotel que continua recebendo hóspedes desde sua inauguração, o Atlântico Hotel assume uma posição única no litoral paulista. Antes mesmo do turismo de praia se consolidar, Santos já era uma cidade movimentada pelo Porto. Comerciantes, tripulantes, representantes comerciais, autoridades e estrangeiros precisavam de hospedagem, impulsionando o surgimento das primeiras hospedarias e hotéis próximos ao cais e à estação ferroviária. A chegada da ferrovia ligando São Paulo ao litoral ampliou ainda mais esse movimento. As famílias enriquecidas pelo café passaram a frequentar Santos durante o verão, os feriados e o Carnaval. Enquanto Santos se consolidava como polo urbano e comercial, o Guarujá despontava como destino planejado para o turismo balneário, tendo como principal símbolo o Grande Hotel La Plage. Inaugurado em 1928, o edifício preserva características originais da época e segue recebendo hóspedes quase um século depois (Vanessa Rodrigues) Muito além da hospedagem Na primeira metade do século XX, os hotéis eram verdadeiros centros de entretenimento. Além dos quartos, reuniam restaurantes, bares, bailes, banquetes, apresentações musicais e cassinos que movimentavam a vida social da Baixada Santista. O Parque Balneário Hotel tornou-se um dos maiores símbolos dessa época. Inaugurado em seu edifício definitivo em 1914, hospedou presidentes da República, ministros, artistas e integrantes da elite cafeeira. O Atlântico Hotel seguiu o mesmo caminho. Seu complexo reunia cassino, lojas, salões e áreas de convivência, transformando o Gonzaga em um dos principais polos turísticos do Brasil. Entre 1936 e 1946, período considerado a era de ouro dos cassinos, Santos possuía casas de jogos instaladas em empreendimentos como o Atlântico, Parque Balneário, Miramar e Monte Serrat, enquanto Guarujá e São Vicente também contavam com espaços semelhantes. A proibição dos jogos de azar, em 1946, alterou profundamente esse modelo de turismo de luxo. Os hotéis que desapareceram Grande parte dos ícones da hotelaria do litoral não resistiu às transformações urbanas. Entre os exemplos estão: Hotel Internacional (Santos), inaugurado em 1895 e demolido a partir de 1959; Parque Balneário Hotel, demolido em 1973; Grande Hotel La Plage, em Guarujá, demolido em 1959; Hotel Orlandi, também em Guarujá; Hotel dos Alemães, primeiro hotel de Praia Grande, inaugurado em 1928. Segundo Sergio Willians, a perda desses edifícios representa mais do que o desaparecimento de construções históricas: significa o apagamento de parte da memória econômica, arquitetônica e social do litoral paulista. O Atlântico Hotel permanece como um dos raros remanescentes desse período. O edifício ainda conserva elementos originais, como a tradicional porta giratória de madeira de lei e janelas de cristal europeu. Há registros de que um dos apartamentos chegou a preservar mobiliário da época de sua inauguração. Para o historiador, preservar esse patrimônio significa manter viva uma parte importante da formação do litoral paulista. "A história da hotelaria não pode ser separada da história dos transportes e das transformações urbanas. Os hotéis acompanharam o Porto, a ferrovia, os cassinos, os banhos de mar e ajudaram a construir a identidade turística da região. O Atlântico possui um valor excepcional porque continua exercendo, quase um século depois de sua inauguração, a atividade para a qual foi construído", afirma Sergio Willians.