Fachada do Edifício Brumar onde moradores relatam contaminação da água após problemas na rede de esgoto em Santos; à direita, parte da estrutura hidráulica do prédio (Reprodução Redes sociais / Arquivo pessoal) Moradores do Condomínio Edifício Brumar, na Avenida Presidente Wilson, no bairro Pompéia, em Santos, no litoral de São Paulo, vivem dias de preocupação após a administração do prédio identificar uma possível contaminação nas caixas d'água. Desde a noite de sábado (4), comunicados internos orientam que a água da rede interna não seja utilizada nem para consumo, nem para higiene pessoal, devido ao risco de doenças. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Além das restrições, moradores afirmam que diversos condôminos passaram a apresentar sintomas como vômito e diarreia. Em mensagens compartilhadas no grupo do condomínio, a administração chegou a recomendar que pessoas com esses sintomas procurassem atendimento médico imediatamente e alertou para os riscos de doenças como hepatite e leptospirose, além de orientar que ninguém se automedique. "O prédio está com a água contaminada. Não podemos utilizar para banho, lavar louça ou roupas. Muitos moradores estão passando mal", relata a cozinheira Patrícia Barbosa, de 34 anos, que mora no edifício desde 2024. Segundo ela, toda a família foi afetada. "Meu esposo, meu filho, meu afilhado e eu apresentamos sintomas. Sabemos de outros moradores que também passaram mal e alguns precisaram procurar atendimento médico". A moradora conta que o primeiro sinal de que algo estava errado foi o cheiro da água. "O aviso chegou pelo WhatsApp e também foi colocado nos elevadores. Desde então, estamos comprando água mineral, porque o condomínio não fornece. Não temos previsão de quando a situação será resolvida". Patricia acrescenta que há idosos e outros moradores em situação de maior vulnerabilidade no prédio e que os próprios condôminos passaram a alertar os vizinhos para evitar o uso da água. Água acinzentada e com odor forte Outra moradora do condomínio, que preferiu não ter o nome divulgado, diz que os primeiros sinais do problema surgiram na quarta-feira (1º), quando ela e o marido perceberam que a água apresentava odor forte e coloração acinzentada. Como o casal já utilizava água mineral para consumo, inicialmente acreditou que a alteração pudesse estar relacionada ao abastecimento da Sabesp. Segundo a moradora, os avisos aos moradores foram desencontrados. "Recebemos a comunicação pelo WhatsApp na sexta-feira (3) à noite, mas soubemos que algumas pessoas foram avisadas ainda pela manhã. Também encontrei moradores que nem sequer haviam sido informados. Depois dessa confusão, colocaram avisos nos elevadores", relata. Água proibida até para banho Em um dos comunicados distribuídos pelo condomínio, a administração informa que foi identificada contaminação nas caixas d'água causada por infiltração de esgoto na estrutura hidráulica interna, suspendendo temporariamente o uso da água da rede interna. Os moradores foram orientados inicialmente a não utilizar a água para beber, lavar alimentos ou tomar banho e a recorrer exclusivamente à água mineral para consumo. Posteriormente, diante do agravamento da situação, novas mensagens reforçaram que a água também deveria deixar de ser utilizada para banho, permanecendo liberada apenas para descarga dos vasos sanitários. Diagnóstico aponta infiltração de esgoto Em um comunicado mais detalhado encaminhado aos moradores, a administração do condomínio informou que um técnico especializado em manutenção de redes de água e esgoto realizou uma vistoria e apontou que a origem do problema estaria na própria infraestrutura do edifício. Segundo o diagnóstico, por ser uma construção mais antiga, o Edifício Brumar possui a tubulação de esgoto em um nível mais profundo do que o dos prédios vizinhos, o que faz com que, além de enfrentar dificuldades para escoar o próprio esgoto, também receba parte do fluxo proveniente dos imóveis ao redor. Ainda de acordo com a avaliação técnica, a desobstrução completa da rede poderia ser realizada de forma emergencial, mas exigiria a abertura de bueiros e a interdição da rua, um serviço considerado de alto custo e que, segundo a administração, seria de responsabilidade da Sabesp por beneficiar toda a quadra, e não apenas o condomínio. O síndico informou aos moradores que avalia as medidas cabíveis enquanto aguarda uma solução definitiva por parte da concessionária. A administração do edifício também informou que novas inspeções constataram sinais de contaminação em outras caixas d'água, que antes não apresentavam alterações. Segundo o comunicado, a causa mais provável seria uma falha estrutural antiga, decorrente da ausência de impermeabilização em parte da estrutura hidráulica, permitindo que o esgoto infiltrasse nas paredes e alcançasse a água armazenada. Diante da situação, o condomínio informou que estuda acionar órgãos como a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e o Corpo de Bombeiros, além de manter as tratativas com a Sabesp para solucionar o problema. Gastos extras e incerteza Sem previsão para a normalização do abastecimento, a rotina dos moradores mudou completamente. Além da compra de água mineral para consumo, muitos passaram a buscar água em uma torneira instalada na entrada do condomínio, abastecida diretamente pela rede pública, considerada apta para uso após análise realizada no local. "Pegamos galões de 20 litros e vamos até essa torneira para conseguir lavar louça e tomar banho. Para beber, continuamos comprando água mineral. Também precisamos usar desinfetantes no vaso sanitário, porque o cheiro de esgoto invade os apartamentos sempre que damos descarga", conta moradora, que teve a identidade preservada. A condômina afirma que o número de moradores doentes aumentou nos últimos dias. Segundo informações repassadas pela portaria, até domingo (5), cerca de 20 moradores já haviam procurado atendimento médico, sendo que alguns deles foram hospitalizados. A moradora também demonstra preocupação com idosos e crianças que vivem no edifício. "Uma vizinha foi para a casa da sogra, porque tinha medo de as crianças abrirem a torneira e entrarem em contato com essa água". Apesar de o condomínio ter iniciado a higienização das caixas d'água nesta segunda-feira (6), a moradora acredita que a medida, sozinha, não resolverá o problema. "Se não eliminarem a causa da contaminação, que é o esgoto invadindo a galeria do prédio, tudo poderá acontecer novamente. Ainda estamos sem previsão". Prefeitura determina providências Após ser procurada pela reportagem de A Tribuna, a Prefeitura de Santos informou que equipes da Vigilância Sanitária estiveram no condomínio na manhã desta segunda-feira (6) e lavraram um termo de intimação. O órgão determinou que a administração apresente um novo certificado de limpeza e desinfecção das caixas d'água, além de um laudo laboratorial que comprove a potabilidade da água antes que ela volte a ser utilizada pelos moradores. Também foram exigidos reparos nos reservatórios danificados, com o objetivo de garantir a conservação das estruturas e a qualidade da água destinada ao consumo. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, o condomínio já iniciou as providências necessárias para regularizar a situação. Vistoria da Sabesp Em nota, a Sabesp informou que realizou uma vistoria técnica no edifício acompanhada por representantes da administração do condomínio, para verificar a qualidade da água fornecida ao imóvel. Segundo a companhia, não foi constatada qualquer irregularidade no abastecimento. A empresa também realizou inspeções na rede coletora de esgoto que atende ao prédio e afirmou que o sistema funciona de forma adequada, sem qualquer interferência entre a rede de água e a de esgoto. De acordo com a conclusão da equipe técnica, o problema está nas instalações hidráulicas e sanitárias internas do edifício, "cuja manutenção é de responsabilidade da administração do condomínio". A Sabesp informou ainda que repassou orientações técnicas aos responsáveis durante a vistoria e permanece à disposição dos moradores para prestar apoio. A companhia destacou que os canais oficiais de atendimento funcionam 24 horas por dia pelo telefone 0800-055-0195, WhatsApp (11) 3388-8000 e Agência Virtual.