[[legacy_image_39716]] Um dos principais players do mercado de eventos do mundo, a multinacional francesa GL events acaba de alçar ao cargo de CEO a primeira mulher em seus mais de 40 anos de atuação global. Milena Palumbo, que substitui Damien Timperio, que volta para a França. A GL é a empresa que administra o novo centro de convenções de Santos, na Ponta da Praia. Nesta entrevista, ela fala sobre o turismo de eventos e negócios, pilar econômico que movimenta mais de 50 outros segmentos, como rede hoteleira, restaurantes, transporte e comércio, entre outros. Para a região, esse setor é uma das apostas de desenvolvimento econômico, mas que está parado desde o início da pandemia. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Segundo Milena, está descartada a possibilidade dos eventos presenciais que antes existiam serem substituídos pelos virtuais, modelo que se tornou popular durante a pandemia. Ela acredita em retomada a partir do segundo semestre. A senhora assume o comando da GL em meio a uma pandemia, que impactou fortemente o setor de eventos. Como a GL está enfrentando esse momento? É possível dimensionar prejuízos? Quantos eventos que estavam programados no Brasil precisaram ser cancelados/adiados/suspensos? Por conta da pandemia, a receita anual da GL events, que era de 1.3 bi de euros em 2019 (R\$ 8,4 bi), foi de 479,4 mi de euros em 2020 (R\$ 3,1 bi), uma queda de 59,1% no comparativo anual. O resultado do quarto trimestre foi ainda mais acentuado, denotando uma queda anual de 65,3% nas receitas. O mercado nacional enfrenta a sua pior crise, mas não só acreditamos na recuperação do setor como pretendemos seguir com a ampliação de nossa atuação no país. Por seu tamanho continental e potencial turístico, há várias possibilidades de negócios e o Brasil tem tudo para se consolidar como o principal hub de eventos da América Latina. É por ter essa visão e estarmos dispostos a apoiar o país a alcançar essa posição que estamos fazendo investimentos relevantes, dobrando a quantidade de equipamentos administrados e nos posicionando como um dos principais players de eventos na região. A GL trabalha com algum cenário de retomada? Para quando? Para 2021, temos previsões mais positivas. Com o processo de vacinação acontecendo no mundo todo, podemos prever um segundo semestre de retomada, especialmente no último trimestre do ano, quando haverá uma grande concentração de eventos que acabaram represados ao longo do ano. Claro que com as adaptações necessárias e seguindo todos os protocolos de segurança, mas já com um cenário mais estável. O Brasil já figurou entre as dez primeiras posições no ranking anual da ICCA no início dos anos 2000. Atualmente, está na 20ª posição. Na América Latina, perde para a Argentina. Como a senhora avalia esse cenário? Primeiramente é importante pontuar os critérios para um evento ser ICCA: mínimo de 50 participantes; ter ocorrido, no mínimo, em três países diferentes; estar, no mínimo, em sua 3ª edição; ter alguma regularidade/periodicidade definida. E, a partir disso, valem duas observações: obviamente, a capacidade da Europa em conseguir atrair congressos é muito maior, pelas facilidades de circulação. E quando olhamos para a América Latina, o destino Brasil ainda é muito representativo, apesar de perder posições, porque tem excelentes equipamentos e infraestrutura adequada para receber os principais congressos do mundo, sobretudo no eixo Rio-São Paulo. A posição atual do Brasil reflete três anos atrás e a retomada nos exigiria pelo menos mais dois anos, que é o tempo médio de captação de congressos internacionais. Infelizmente, a percepção internacional sobre a condução do nosso país em relação à pandemia também vai impactar no tempo desta retomada. Mas a tendência é de que isso ocorra, sim, em médio prazo, justamente pela boa percepção que o Brasil ainda tem como sede de eventos para congressos médicos e científicos. A falta de ações de promoção do Brasil no exterior, por meio da Embratur, contribui para esse quadro? Que medidas de curto e médio prazos a senhora aponta como caminhos para que o Brasil volte a ocupar posição de mais destaque nesse segmento? A liberação de visto foi uma excelente movimentação feita pelo governo federal para atração de turistas. No entanto, entendemos que a publicidade de massa ainda é muito voltada para o turismo de lazer, sem articulação estratégica definida para atração e captação de grandes produções e congressos médicos e científicos internacionais – como já ocorre em outros países. O mundo está cada vez mais nichado e é preciso identificar em que clusters o Brasil tem potencial diferencial, para atacar esse ecossistema como um todo, a exemplo da Costa Rica, que explora significativamente seu potencial no mercado audiovisual através do fomento e promoção de seu próprio governo. Como disse, temos infraestrutura e atrativos, mas precisamos explorar melhor. O Rio de Janeiro, por exemplo, está muito bem qualificado para receber eventos esportivos. Então, entendemos que, para cada segmento, o Brasil deveria implementar uma agenda estruturada de atração e captação, como roadshows muito bem planejados, produção de materiais de promoção, interlocução com os players locais participação em eventos especializados de cada segmento. Com a pandemia, eventos tradicionalmente presenciais acabaram se tornando 100% virtuais. A senhora acredita que essa seja uma tendência mesmo após a pandemia? Isso preocupa a GL? A necessidade do presencial, até para o estabelecimento de relações corporativas e networking, é um 'sentimento' que a empresa tem percebido entre os organizadores de eventos? Que eventos poderão retornar 100% presenciais, na sua opinião? O presencial é insubstituível em grande parte dos eventos. Pelo contrário, ele demonstrou ser ainda mais essencial. A sociedade está esperando por isso, ninguém aguenta mais ficar recluso. E já se sabe que é possível realizarmos eventos com público e de forma absolutamente segura. O ser humano é social, precisa do encontro e o evento proporciona isso não apenas no entretenimento – que mostrou sua essencialidade nessa pandemia – quanto eventos B2B, pois há setores que precisam “ver de perto” os produtos em feiras antes de comprar, como o mercado têxtil e de estética, para citar apenas dois exemplos. O isolamento está mostrando o quanto a interação presencial é importante, tanto para o entretenimento como para os negócios, o que garante que os eventos em breve vão voltar. Apesar das adaptações virtuais funcionarem como paliativos em alguns casos, eles não substituem – e nem nunca substituirão - o presencial. O virtual ganhou importância, sem dúvidas. Além de estender a existência do evento, durante todo o ano, também agrega valor em conteúdo e vendas. E o torna muito mais relevante e especial quando por ocasião da data presencial. Com isso, os promotores deverão se esforçar e criar muito mais peso para que o físico ganhe muito mais em emoção, conteúdo e entretenimento. Os eventos que se tornaram 100% virtuais são produtos que viraram a chave porque já tinham tendência para isso. O fato é que os formatos vão se alimentar. Para eventos B2C, por exemplo, entendo que o público acabará mais qualificado por todo conteúdo robusto que os eventos digitais vão proporcionar. Esses visitantes chegarão aos eventos físicos, considerando-os o verdadeiro ápice, uma oportunidade de complementar essa experiência. Pense em um evento artesanal, ali, o visitante poderá tocar e cheirar o produto. A Baixada Santista é uma região que vive fortemente ligada ao turismo, e tem feito um esforço para se tornar também um destino para o turismo de eventos e negócios. Que ações têm sido feitas para promover o destino Santos? Já há eventos planejados / pensados / fechados para os próximos anos? Quais? A GL está organizada em 5 grandes mercados: entretenimento; corporativo; feiras; congressos (congressos médicos regionais paulistas que são enormes, algumas vezes superaram os brasileiros); e-sports e Esportes. Esse modelo permite que a gente trabalhe para ter musculatura ao planejar e viabilizar eventos, de forma a promover uma capilaridade para irrigar a nossa rede de equipamentos. Uma praça alimenta a outra. No cenário do entretenimento, por exemplo, quando negociamos artistas e eventos para Rio de Janeiro ou Salvador, conseguimos estimular que seja replicado em outras praças. No caso de congressos médicos – os paulistas, por exemplo, são maiores que os congressos brasileiros –, podemos propor que haja um rodízio entre os destinos para os anos seguintes. No caso do e-sport, o Rio tem um enorme potencial para atração e também pode contribuir nesse sentido. A empresa mantém para Santos as mesmas expectativas de quando assumiu: tornar Santos um destino para eventos internacionais? Certamente. Além de ser um destino já consolidado, a prefeitura de Santos planejou e construiu um dos melhores centros de convenções do país. O projeto foi fruto de uma parceria entre o Poder Público e o Grupo Mendes (proprietários do antigo Mendes Convention Center) para o desenvolvimento do futuro equipamento da cidade. Ter um espaço tão qualificado e versátil, com um projeto tão bem elaborado, foi o que nos fez ter a certeza de que valia a pena investir na cidade. Por estar junto ao Porto, o Santos Convention Center promete ser um hub de eventos de infraestrutura, logística, do setor marítimo e Offshore, além de corporativos e sociais, incluindo shows. A cidade entende a importância do setor de eventos e isso é um grande diferencial para o sucesso de qualquer equipamento como esse. Para além dos eventos corporativos, que atividades estão planejadas para o Centro de Convenções? Temos vários projetos que são desenvolvidos em cidades do mundo inteiro. Analisamos o mercado e avaliamos o que levar para Santos. Além de uma empresa de gestão de eventos, também organizamos. Então, temos o atendimento ao cliente promotor de eventos, e também temos, dentro do grupo, uma promotora que desenvolve produtos próprios. Na área de Porto, por exemplo, há a Intermodal, um dos maiores eventos do setor portuário no país, que acontece no São Paulo Expo, mas podemos desenvolver eventos que sejam desdobramentos da Intermodal acontecendo no centro de convenções de Santos. E também procuramos preencher lacunas do nosso calendário comercial com eventos próprios ou organizados com parceiros locais. Como o segmento de eventos movimenta mais de 50 outros segmentos, que recado a senhora daria a eles, aqui da região, que têm forte expectativa em tudo que pode vir a ser realizado aqui em Santos? Nós somos um grande parceiro e prezamos muito as relações que são construídas para longo prazo, não só com o poder concedente dos destinos em que operamos, mas com empresas locais para a produção e realização de eventos. Não será diferente em Santos. Vamos trabalhar para fomentar o nosso setor e desenvolver ainda mais a região, impactando também outros negócios, criando conexões, trazendo tendências e oportunidades.