Em Praia Grande, assim com em Santos, casas próximas à praia dão espaço a edifícios (Alexsander Ferraz/ AT) Apesar da paisagem cada vez dominada por prédios, morar em casa ainda é o desejo de muitos habitantes da Baixada Santista. Em Santos, no entanto, esse tipo de imóvel vem se tornando mais raro, mais disputado e, consequentemente, mais caro, cenário impulsionado pela verticalização e pelo interesse de construtoras nos terrenos da cidade do litoral de São Paulo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Dados da Prefeitura de Santos mostram que, em 2025, foram aprovados 53 projetos para construção de novas casas, sobrados, sobrepostas e vilas. Já no primeiro trimestre de 2026, foram apenas nove, contra 15 no mesmo período do ano anterior. No caso das reformas de casas, foram 42 projetos aprovados em 2025 e nove entre janeiro e março deste ano, também abaixo dos 12 registrados no mesmo período de 2025. Segundo a Prefeitura de Santos, grande parte dos prédios é composta por construções de dois a três andares, sem elevador. Recém-dono de uma casa, o advogado Hélio Marcos, de 53 anos, deixou Cubatão para morar no Embaré, em Santos. “A estrutura de Santos em relação ao lazer e qualidade de vida é muito superior. Sempre tive o sonho de morar na Cidade, mais próximo da praia”. A escolha por uma casa, e não um apartamento, passou diretamente pelos custos e pelo estilo de vida. “Os condomínios dos apartamentos que atendiam nossas necessidades chegavam a R\$ 2,5 mil ou R\$ 3 mil por mês. Hoje conseguimos assumir, mas no futuro isso poderia comprometer nossas finanças”. Além disso, ele destaca a liberdade como fator decisivo. “A comodidade de espaço para carros, bicicletas, coleções e a liberdade individual pesaram muito”. Encontrar o imóvel ideal, porém, não foi simples. Hélio afirma que o processo durou oito anos. “Foi o mais difícil. Quase optamos por outra cidade, mas insistimos porque o sonho era Santos”. Segundo ele, embora existam opções, muitas casas são antigas e exigem reformas significativas. “No Embaré ainda existem várias casas à venda, mas a maioria está cercada por edifícios, o que tira a privacidade”. A percepção do comprador é confirmada por profissionais do mercado imobiliário. De acordo com o diretor da R3 Imobiliária, Sthefano Lopes, há demanda por casas, mas falta produto. “O número de casas isoladas vem diminuindo. Elas são muito assediadas por construtoras, que compram para construir prédios. Isso acaba reduzindo a oferta”, afirma. Ele explica que o principal interesse não é o imóvel em si, mas o terreno. “Para a construtora, o que importa é o potencial construtivo. O valor do terreno muitas vezes supera o da casa”. Oito anos O advogado Hélio Marcos, de 53 anos, deixou Cubatão para morar no Embaré, em Santos. Entretanto, não foi fácil encontrar uma casa. Ele conta que o processo durou oito anos. “Foi o mais difícil. Quase optamos por outra cidade, mas insistimos porque o sonho era Santos”. Há opções para todos os bolsos, de R\$ 230 mil a R\$ 35 milhões A escassez de casas em Santos impacta diretamente os preços, segundo o diretor da R3 Imobiliária, Sthefano Lopes. Ele afirma que é possível encontrar imóveis mais simples, na faixa de R\$ 230 mil a R\$ 260 mil, em bairros como Zona Noroeste. Já as sobrepostas de padrão médio podem variar entre R\$ 1 milhão e R\$ 2 milhões. Lopes afirma que as casas isoladas, mais raras, em bairros nobres como Ponta da Praia, Embaré e Aparecida, chegam a custar entre R\$ 3,5 milhões e R\$ 4 milhões, enquanto de alto padrão, como no Morro Santa Terezinha, podem atingir R\$ 35 milhões. O gerente geral de vendas da Família Imóveis, Ricardo Novoa, conta que a valorização está diretamente ligada à disputa com construtoras. “Um construtor precisa de três ou quatro casas para viabilizar um empreendimento. E o proprietário sabe disso. Uma casa que valia R\$ 2 milhões passa a ser anunciada por R\$ 4 milhões”. Para ele, o lançamento de casas é raro. “O mais comum é comprar uma casa antiga e reformar. Terreno disponível praticamente não existe mais”. Novoa também destaca que, hoje, encontrar casas próximas à praia é exceção. “O que tinha virou comércio ou deu lugar a empreendimentos”. Para o diretor regional do Secovi (sindicato das empresas de compra e venda de imóveis), Carlos Meschini, a verticalização é um caminho sem volta em Santos. “A tendência é verticalizar cada vez mais. O espaço para casas grandes praticamente não existe mais”. Ele explica que imóveis antigos, tanto casas quanto prédios baixos, estão sendo substituídos. “Ou a casa é vendida para construção de prédio, ou perde privacidade com os edifícios ao redor. Em muitos casos, vira comércio”. Segundo Meschini, o público que ainda busca casas é, principalmente, de classe média, com perfis específicos. “É quem quer espaço, ter animais, receber amigos, e não pagar condomínio”. Ainda assim, ele aponta que o mercado é restrito. “Nunca vai acabar, mas será cada vez menor”. Procura em alta Mesmo com a redução da oferta, a procura por casas voltou a crescer nos últimos anos. Para o gerente geral de vendas da Família Imóveis, Ricardo Novoa, um dos principais motivos é o aumento das taxas de condomínio. “Muita gente paga R\$ 1,2 mil, R\$ 1,5 mil por mês e começa a fazer conta. Prefere investir esse valor em uma casa, com mais espaço e privacidade”. Além disso, ele cita a proximidade entre prédios como fator de incômodo. “Hoje você tem um prédio colado no outro. A pessoa sente falta de privacidade e passa a considerar a casa novamente”. A segurança, por outro lado, ainda é um ponto de atenção. Hélio Marcos relata que precisou investir em proteção. “Instalamos cerca elétrica e câmeras. Mas isso é uma preocupação em qualquer lugar”. Mesmo com as dificuldades, o desejo por morar em casa permanece. “Se a pessoa tem esse sonho, deve buscar. Para nós, valeu muito a pena”, resume Marcos. Praia Grande registra uma oferta mais equilibrada Diante das dificuldades para encontrar casas em Santos, compradores passam a considerar Praia Grande. Segundo o presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis de São Paulo (Creci-SP), José Augusto Viana Neto, na Cidade o cenário é diferente, com uma oferta mais equilibrada. “Em Santos, sempre tivemos uma predominância de apartamentos. Já em Praia Grande, sempre foi mais ou menos equivalente o número de casas e apartamentos”, afirma. Dados da Prefeitura de Praia Grande mostram crescimento nas aprovações: foram 237 alvarás em 2024 e 368 em 2025. Em janeiro passado, foram emitidos nove. De acordo com ele, há uma tendência de aumento na procura por casas, impulsionada principalmente pelo custo dos condomínios. “As taxas condominiais estão muito altas e isso tem gerado reclamação. Já atendi cliente que queria sair do apartamento e pegar uma casa justamente por causa disso”. Viana também destaca que, na prática, a preferência pelas casas é maior, embora nem sempre se concretize por conta da oferta. “A preferência por casas é muito superior à por apartamentos. O que acontece é que, na nossa região, a oferta de apartamentos é muito grande”. Ele aponta que ainda é possível encontrar imóveis com preços mais acessíveis. “Com cerca de R\$ 450 mil já é possível encontrar uma casa em boa localização”. Bairros como Canto do Forte e Boqueirão concentram as casas mais valorizadas, enquanto outras regiões, como Vila Matilde, se destacam pelo perfil mais residencial e ruas mais tranquilas. A localização, inclusive, é um dos principais fatores na decisão de compra. “Quanto mais próxima da praia, maior o interesse. E outro ponto muito valorizado é a casa ser isolada, com terreno, quintal e espaço livre”, afirma. Apesar desse cenário, a Cidade também acompanha o movimento de transformação urbana. “Casas bem localizadas, principalmente próximas à praia, já estão sendo substituídas por prédios. A oferta hoje é muito menor do que há 15 anos”. Segundo ele, o perfil de quem busca casas está concentrado principalmente na faixa de 35 a 50 anos. “São famílias com filhos, que querem mais liberdade, espaço e a possibilidade de receber parentes e amigos”. Para Viana, o custo-benefício ainda pesa na decisão. “Santos tem preços muito altos. Já em Praia Grande você encontra valores mais baixos e uma boa qualidade de vida”.