[[legacy_image_261570]] Há quase dois anos, a artesã Tânia Fragoso dos Santos, de 58 anos, perdeu uma das pessoas mais importantes de sua vida: seu irmão mais velho e professor de português, Márcio Antônio Fragoso dos Santos. Ele foi vítima da Covid-19 em agosto de 2021. Dois meses depois, ela encontrou uma carta escrita por ele com um pedido para que ela transformasse seus poemas em um livro. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! "Quando ele tinha inspiração, saia escrevendo em qualquer papel que encontrasse. Eu dizia para ele guardar, anotar os poemas. Mas, ele dizia 'depois eu anoto'. Às vezes, eu mesma ia anotando. Éramos muito ligados. Ele dizia que eu era a conexão dele com a Terra", relembra Tânia. Márcio deu aulas de português em algumas das maiores escolas de Santos e, segundo sua irmã, era muito querido pelos alunos. Os primeiros poemas surgiram ainda novinho, aos seis anos de idade. Entretanto, os mais elaborados foram escritos quando o professor tinha 13 anos. Ele escreveu até os últimos dias de sua vida, deixando uma carta que dizia: "Se puderem, façam um esforço conjunto para publicar meus escritos em uma editora. Busquem orientação para organizá-los". "Em 17 de julho de 2021 tivemos uma reunião na casa do nosso irmão mais novo. Todos nós pegamos Covid e cada um foi se recuperando, mas o Márcio foi o que ficou pior. Ele foi internado no dia 27 e no dia 4 de agosto faleceu. Foi tudo muito rápido", lembra a artesã, que morava no apartamento ao lado do irmão. [[legacy_image_261571]] Por dois meses, Tânia adiou, mas certo dia em outubro do ano passado sentiu uma vontade de ir ao apartamento do irmão. Ela foi direto para o segundo quarto do imóvel, em uma determinada gaveta de uma cômoda. A primeira peça de roupa nessa gaveta era uma bermuda salmão. "Eu gostava quando ele a vestia. Aí peguei a bermuda e falei: 'olha só, ela está logo aqui'. Peguei pra cheirar, porque ele era muito cheiroso, quando senti alguma coisa no bolso. Como ele era muito desligado, pensei que era dinheiro. Mas, para minha surpresa, era uma carta". É aí que começa a busca de Tânia pelos poemas do seu irmão. Ela conta que olhou em cada cantinho do apartamento, já que ele tinha o costume de escrever em qualquer pedaço de papel que tivesse um espacinho. Ela encontrou poemas em livros, contas e boletos bancários. Além disso, de tempos em tempos, Márcio enviava à irmã e-mails com o título "Quase todos os meus quase poemas". Para reunir os textos a artesã levou cerca de seis meses, incluindo papeis, redes sociais e contato com amigos do professor. "Fiz esse trabalho sozinha. Meus irmãos perguntaram se eu estava em condições de fazer e eu falei que tinha que fazer. Porque tenho certeza que ele deixou essa carta para mim. Ele contava comigo. Agora não é mais um sonho dele, é um sonho meu", se emociona ela. Hoje, o livro está pronto e a família de Márcio criou uma vaquinha para conseguir transformar o sonho do professor em realidade. O valor foi estipulado em R\$ 15 mil e o dinheiro arrecadado com a venda será doado, segundo Tânia. "Seria o desejo dele doar. Ele queria construir um centro de vida saudável. Era ligado à instituição Mokiti Okada, que engloba a terapia de purificação feita pelas mãos. Éramos voluntários e fazíamos no apartamento dele às terças um trabalho gratuito de atendimento. Era a vida dele".