Idealizados pelo engenheiro Saturnino de Brito, contribuíram na drenagem e na expansão habitacional e econômica de Santos. Viraram pontos de referência (Vanessa Rodrigues/AT/Arquivo) Quando Santos começou a expandir-se em direção à orla, no início do século 20, uma obra de engenharia mudou o desenho da Cidade: os canais que cortam seu território. Projetados pelo engenheiro Saturnino de Brito (1864-1929) para drenar áreas alagadiças e possibilitar a urbanização, eles se tornaram parte da identidade santista. Mais do que estruturas para escoamento de águas, eles viraram pontos de referência e receberam nomes de personagens da política e da história nacional e internacional. O historiador Dionísio Almeida, da Fundação Arquivo e Memória de Santos (Fams), explica que os canais numerados de 1 a 7 foram inaugurados gradativamente entre 1907 e 1968, em períodos distintos da vida política brasileira. “A escolha dos nomes tem ligação com homenagens feitas por vereadores da época a personalidades de destaque, muitas vezes sem relação direta com Santos, mas com relevância para o País”, afirma. O primeiro a ser construído foi o Canal 1, em 1907, localizado na Avenida Pinheiro Machado. O nome é uma homenagem a Pinheiro Machado, político gaúcho influente na República Velha, que foi senador e líder governista. Ele acabou assassinado em 1915, tornando-se figura marcante da política nacional. Três anos depois, em 1910, foi inaugurado o Canal 2, que leva o nome de Bernardino de Campos, advogado e político que se destacou como governador de São Paulo, além de ter atuado como deputado e senador. Arborização às margens dos canais é um elemento marcante na paisagem santista (Alexsander Ferraz/AT) Na década de 1920, outros dois canais receberam nomes de figuras ligadas à política e às revoltas militares da época. O Canal 3, de 1923, batizado em homenagem a Washington Luís, faz referência ao político que iniciou sua carreira em São Paulo, onde foi vereador, prefeito e governador, até chegar à presidência da República, entre 1926 e 1930. O Canal 4, também de 1923, recorda Siqueira Campos, militar que participou da Revolta do Forte de Copacabana, em 1922, do Levante de São Borja, da Coluna Prestes e da Revolução de 1930. Em 1927, foi inaugurado o Canal 5, que homenageia o almirante Thomas Cochrane, militar escocês que lutou pela Independência do Brasil, comandando a Marinha contra forças portuguesas no Norte e no Nordeste. Pelo seu papel decisivo, recebeu o título de Marquês do Maranhão. O Canal 6, de 1919, é um dos poucos no qual se homenageia alguém ligado diretamente a Santos: o coronel Joaquim Montenegro, que foi vereador, vice-prefeito e prefeito de Santos nos anos 1920, que instituiu iniciativas sociais relevantes na época. O último a ser inaugurado foi o Canal 7, em 1968, durante a ditadura militar. Ele leva o nome do general José de San Martín, militar argentino que teve papel fundamental nos processos de independência do Chile e de outros países da América do Sul. Coronel Joaquim Montenegro, que foi prefeito de Santos, denomina Canal 6, de 1919 (Alexsander Ferraz/AT) A Cidade cresceu A construção dos canais permitiu que Santos ocupasse áreas antes inabitáveis. Até 1907, a Cidade se restringia basicamente ao Centro, enquanto a região entre o José Menino e a Ponta da Praia era formada por terrenos alagadiços. Com a drenagem, a população passou a se deslocar para novos bairros, e a economia ganhou força. “A partir da década de 1950, o crescimento se intensifica com a inauguração da Via Anchieta e a expansão do Porto e do Polo Petroquímico de Cubatão. O comércio, antes concentrado no Centro, se pulverizou em bairros como Gonzaga, Embaré e Vila Mathias”, explica Almeida. Em 1968, na Ponta da Praia, o 7, último dos canais da orla: Av. General San Martin (Alexsander Ferraz/AT) Além do impacto urbano e econômico, os canais guardam curiosidades. A ideia inicial era que eles fossem navegáveis, tanto que registros das inaugurações mostram pequenos barcos em suas águas. Ao longo do tempo, também se transformaram em pontos de referência para os santistas, que se localizam pela numeração. “Dizer que algo fica no Canal 1 ou no Canal 4 virou parte da linguagem cotidiana.” De tempos em tempos, surgem propostas de cobrir os canais, mas essas ideias sempre encontram resistência da população, que vê neles parte essencial do cotidiano da Cidade. Mais recentemente, os desafios têm sido os transbordamentos em dias de chuvas intensas e marés altas, fenômeno agravado pelas mudanças climáticas. Na década de 1990, chegaram a ser instaladas comportas como tentativa de conter a entrada da água, mas as estruturas pouco alteraram a realidade. Canal 1, o primeiro, inaugurado em 1907 e com o qual se iniciou transformação urbana (Alexsander Ferraz/AT) Embora os mais conhecidos sejam os numerados de 1 a 7, Santos possui outros canais, como os das avenidas Jovino de Mello (Santa Maria e Areia Branca), Campos Salles (Vila Mathias e Vila Nova) e Francisco Manoel (Jabaquara). Todos fazem parte de um sistema que, mais de um século depois, continua cumprindo a função para a qual foi criado. Para Almeida, o legado é incontestável. “Eles são únicos no Brasil. Não há nada parecido no Estado de São Paulo. Representam uma obra visionária, que continua a cumprir seu papel e se tornou parte da memória e da identidade de Santos.”