Cerca de 90% das pessoas com TEA sofrem com hipersensibilidade auditiva (Pixabay) A Câmara de Santos aprovou um projeto de lei complementar (PLC) que poderá obrigar responsáveis por locais de grande aglomeração a oferecer abafadores de ruído a pessoas que comprovem ter hipersensibilidade auditiva, comum em autistas. O PLC 59, de 2023, do vereador Fabrício Cardoso (Pode), propõe multa de R\$ 500,00 para quem desrespeitar a essa possível ordem, com valor dobrado em caso de reincidência. O Executivo tem até 2 de dezembro para sancionar ou vetar o texto. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A proposta estipula que os responsáveis devem manter disponíveis abafadores higienizados, acompanhados de protetores descartáveis, e que devem acordo com o que fixa a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). As pessoas que comprovarem hipersensibilidade auditiva poderão utilizá-los durante o tempo em que permanecerem em local com grande aglomeração e deverão devolvê-los mediante entrega de recibo. A hipersensibilidade auditiva é um transtorno do processamento sensorial. O médico Ítalo de Medeiros, responsável pelo Ambulatório de Otorrinolaringologia do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), explica que se trata de sensibilidade ao som externo. Os tipos mais comuns são a hiperacusia e a misofonia. O projeto de lei complementar (PLC) poderá obrigar responsáveis por locais de grande aglomeração a oferecer abafadores de ruído a pessoas com hipersensibilidade auditiva (Pixabay) Autistas e hipersensibilidade Cerca de 90% das pessoas com TEA sofrem com hipersensibilidade auditiva. A psicóloga Roberta Von Zuben, do Hospital Vera Cruz, em Campinas (SP), explica que, para autistas, é como se os sons chegassem de uma forma tão rápida e forte que não há tempo de interpretar o que significam. “A criança autista não consegue entender aquele barulho. Então, ela grita, se esconde, fica irritada, tapa os ouvidos. Porque, se ela não está acostumada a ouvir aquela sirene de ambulância, por exemplo, vai ser um barulho ensurdecedor e assustador”, exemplifica. Geralmente, esses barulhos provocam um comportamento negativo da pessoa autista. Até por isso é comum que a suspeita do transtorno comece em casa, quando a criança começa a ficar extremamente incomodada com ruídos domésticos, como o som de um liquidificador ou uma porta batendo. A solução é criar, aos poucos, uma espécie de biblioteca auditiva, apresentando, aos poucos, os sons para a criança. Essa exposição é uma tática para que, quando o autista for exposto ao som mais intenso, não se assuste. “O problema do autista é ele conviver em sociedade. (...) O que a gente tem de fazer é com que a criança se adapte a esses barulhos para poder ter uma vida normal”, diz a psicóloga. Neste caminho de adaptação, os abafadores de ruído são aliados, porque podem transformar o que pode ser um barulho de uma ressaca marítima, por exemplo, no barulho de ondas de um mar tranquilo. “Aquele som não vem tão grave ou tão agudo, tão forte. Um fone ou os tampões de espuma são excelentes aliados para isso, só que você tem que adaptar aquela criança para os barulhos normais também”, alerta Roberta.