[[legacy_image_312043]] O que fazer quando não somos bem-vindos em um país ao qual não pertencemos? A questão voltou a ser assunto após, recentemente, uma brasileira ter sido alvo de ofensas enquanto estava no aeroporto da cidade de Porto, em Portugal. A agressora era uma portuguesa que, aos gritos, a discriminou por ser brasileira e a mandou 'voltar para casa'. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Morar em um outro país requer, acima de tudo, planejamento. Seja para estudos, trabalho ou até mesmo se for uma mudança definitiva. Além disso, é preciso decidir as metas pretendidas, e se organizar em tudo antes de tomar a decisão. Em se tratando de Portugal, a língua não vira, exatamente, um problema. Mas isso não significa que o país europeu tenha os mesmos costumes, tradições e cultura do Brasil. Por isso, como em qualquer outro lugar, é preciso saber respeitar. Para José Gabriel Andrade, doutor em Ciências da Comunicação e professor de Relações Internacionais entre Portugal e Brasil na Universidade do Minho, em Portugal, é preciso entendimento entre as partes. ‘O que vejo necessário é se criar um processo para haver um modelo híbrido entre portugueses e brasileiros. Na educação e nas famílias, por exemplo’, aponta o professor. [[legacy_image_312044]] Estudo e trabalhoDesde o início dos anos 2000 o empresário Luiz Plácido viaja para Portugal para estudar e trabalhar. Há dez anos, depois de concluir o mestrado decidiu ficar no país. Ele montou uma agência de turismo e, apesar de todo o preparo, enfrentou muitos desafios, entre eles a pandemia da covid-19. Atualmente, os negócios não estão como o esperado, e ele pretende voltar ao Brasil. Mas o problema financeiro não é o único a despertar nele o interesse em voltar para Santos. Plácido diz já ter sido alvo de muitos momentos constrangedores. ‘Preconceito tem bastante aqui. Sempre teve’. Ele conta que depois de receber uma multa de trânsito foi até uma agência do governo para entender os motivos da ocorrência. Mas ao questionar o funcionário público, foi surpreendido. Segundo ele, o atendente disse ‘olha, se você não está satisfeito, tem um bom remédio pra você. Voltar para o seu país’, relembra com indignação. E essa não foi a única vez. Em outro momento, ao tentar comprar um lanche o vendedor se recusou a atendê-lo porque ele falava “português brasileiro”. ‘Ele disse que não entendia o que eu falava. Falou que não conversa em “brasileiro”, apenas em português [de Portugal]’. Não é possível generalizarPor outro lado, há relatos de caiçaras que estão satisfeitos com a vida que levam em Portugal e nunca presenciaram atos de xenofobia, como a professora aposentada Vera Lúcia Corse. Com os pais e os filhos já morando no país, ela e o marido decidiram se mudar para o continente europeu há um ano e meio. Eles fizeram a cidadania portuguesa e desde então não se arrependem. ‘Meus avós e pais nasceram em Póvoa de Varzim, região do Porto. Eu e minha família já tínhamos vindo a Portugal por cinco vezes. Meus filhos já residiam aqui há três anos, fizeram cidadania, e foi quando tomamos a decisão de vir pra cá em busca de segurança e qualidade de vida’, explica. Vera conta já ter conhecido muitos brasileiros em Braga, onde vive, mas garante que respeitar leis, costumes e tradições é essencial. ‘Muitos brasileiros vêm pra cá sem nenhum planejamento, sem estrutura, sem saber onde morar”, e toda essa falta de planejamento compromete a imagem dos imigrantes no país. Quem também não tem do que reclamar é Bruno Gaignoux. Ele e a esposa decidiram se mudar para Portugal para trabalhar com programação de sistemas. ‘Moramos há 11 meses em Braga. Por aqui há muitos brasileiros e os portugueses que encontramos são muito receptivos’, afirma. Assim como a família da professora aposentada Vera Corse, o casal foi para Portugal em busca de melhor qualidade de vida e segurança, e já faz planos. ‘Pretendemos ficar aqui e quem sabe montar algo próprio’, enfatiza Bruno. Onda migratóriaMilhares de imigrantes vivem hoje em Portugal. Além de brasileiros, também há muitos árabes e indianos. E esse novo perfil tem ocupado bairros de grandes centros do país. E um reflexo disso está no consumo do que é produzido nos países estrangeiros. É o que conta o empresário Luiz Plácido. ‘Eles consomem tudo o que é nosso. Música, filmes, vídeos nos streamings. É muita coisa’, afirma. Conforme o professor José Gabriel Andrade, ‘a própria arquitetura das casas vem se alterando para esses novos consumidores, como novas lojas estão comercializando certos produtos para atender esses novos imigrantes', detalha. Proteção contra crimes de xenofobiaDe acordo com o professor, os métodos de proteção à vítima de crime de preconceito são os mesmos do Brasil. ‘Há sim uma associação de proteção e consultoria ao imigrante. Portanto, casos de xenofobia devem com denúncias policiais e depois seguir para processos judiciais’, explica.