[[legacy_image_69707]] No meio de vigas de madeira, sobre um chão ainda sem piso e com poucas lâmpadas expostas, Demetrio Nicolau Obeidi disse “sim” para o grande amor da sua vida, Marina Mahtuk, em 16 de janeiro de 1960, dentro da Igreja Ortodoxa São Jorge, em Santos. Estava feito o segundo casamento no único templo ortodoxo do litoral paulista, que os pais dele ajudaram a erguer. Ao olhar o álbum de casamento hoje, quase seis décadas depois e com 84 anos de vida, Obeidi recorda do que descreve como um dos momentos mais importantes de sua vida. Agora sozinho, sentado na sala de sua casa na Aparecida, ele revive a cerimônia “bonita e diferente”, diz ele. “A igreja nem estava pronta. Tinha muita madeira ainda, estava no meio da construção. O padre coloca uma coroa na cabeça da noiva e do noivo e o casal dá três voltas no altar, foi tudo lindo”, diz Demetrio, viúvo há três meses. Ele de ascendência antioquina (de Antioquia, antiga cidade da Turquia) e ela com ancestrais árabes, os dois escolheram a igreja ortodoxa para casar e, anos depois, batizar os filhos. “Quando era pequeno, fui batizado em casa, pois não tinha igreja ainda. O padre veio de São Paulo rezar a missa e me mergulhou por inteiro dentro de uma bacia muito grande”. Novos tempos A ligação com suas raízes era algo comum dentro da Igreja Ortodoxa São Jorge, tempos atrás. Hoje, conta o historiador Domingos Pardal Braz, de 42 anos, a maioria é de convertidos. Ele, aliás, é um deles. Quando pisou na igreja pela primeira vez, há mais de 20 anos, ficou encantado com as pinturas no teto e nas paredes, que até hoje nunca passaram por restauração. Elas contam as passagens mais importantes da vida de Jesus e as principais crenças ortodoxas, mostrando os santos mais populares e a Santa Ceia. Os lustres suntuosos saltaram-lhe aos olhos, assim como os detalhes dos vitrais. Braz já via realizado o sonho da comunidade ortodoxa em Santos. “Estudei muito sobre a religião e me interessei cada vez mais. Por volta de 2000, fiz adesão oficial à ortodoxia”, diz o historiador. De toda a história que a igreja guarda desde 1958, quando começou a ser construída, algo sempre permaneceu vivo na comunidade ortodoxa: a acolhida. Tanto que, nas festas de São Jorge, a igreja dá as boas-vindas aos fiéis da Igreja Romana e membros do Candomblé e da Umbanda, diz Braz. “A festa do padroeiro sempre chama a atenção. Pessoas com as mais diversas crenças se reúnem para homenageá-lo”. Novidade A igreja, que teve as obras finalizadas só em 1966 e realizou centenas de casamentos, batizados, missas e até velórios, agora tem o título de paróquia ou diocese ortodoxa de Santos. Isso significa que o bispo poderá ordenar párocos, diáconos ou monges sem precisar da autorização da cúria de São Paulo, explica o historiador. “É uma conquista que transcende todo e qualquer valor. É algo bastante importante para a nossa igreja. Que seja um novo tempo de alegrias para todos nós”.