Cleverton passou um ano, sete meses e 21 dias internado (Vanessa Rodrigues/ AT) Um ano, sete meses e 21 dias de internação. Seria um fardo pesado para qualquer pessoa, quanto mais para um bebê. Pois Cleverton Vieria Santos, que nasceu com 31 semanas e pouco mais de 1,5 kg, enfim ganhou o mundo que tanto lhe espera. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Ele deixou ontem a UTI Pediátrica do Hospital Guilherme Álvaro (HGA) no colo da mãe, a dona de casa Josefina Vieira, de 38 anos, sob aplausos da equipe do hospital. O milagre da vida prevaleceu. Pouco antes de deixar o quarto da unidade hospitalar, os últimos preparativos. Alimentação, troca de roupa, e Cleverton sempre sorridente, agitado. Parecia entender que era um dia especial – e era. Na porta, os últimos detalhes para uma despedida recheada de carinho e gratidão. “Foi uma jornada de muitos altos e baixos. Mas o Cleverton é uma criança que sorri para todo mundo, que cativa. E um fator importante é essa parceria entre familiares e equipe médica. Porque ambos os lados trabalham junto e acreditam no sucesso, que é ele ir para casa. É a vitória da vida”, afirma a coordenadora médica Marcella Galafassi Catharino. Mas o triunfo não veio sem luta. Embora tenha assumido o caso do pequeno há apenas quatro meses, a trajetória dele é compartilhada pela equipe, que aguardava a saída de Cleverton. Por ser prematuro, ele teve complicações, como a anóxia neonatal, quando falta oxigenação no cérebro ao nascer. Na UTI, outras dificuldades, como infecções, crises convulsivas e insuficiência respiratória, que fez com que fosse intubado. Ele passou 1 ano e 7 meses sob ventilação mecânica. Isso sem falar na contaminação pela covid-19, quando sua saturação chegou a 43. A cada situação revertida, ia crescendo a esperança em uma alta hospitalar. “Ele não tem um pulmão que se espera para a idade. O desenvolvimento não é o esperado. Mas a luta pela melhora foi constante”, reforça Marcella. Cleverton nasceu com 1,5 kg (Vanessa Rodrigues/ AT) Enfermagem Do lado de fora da UTI, a coordenadora da Enfermagem, Hellen Karina dos Santos, era a imagem da emoção. Foi dela o discurso na hora que Cleverton saiu do quarto, acompanhado do louvor Existe Vida, tocado no saxofone. Foi exatamente às 9h42 que os aplausos marcaram o fim de uma jornada que envolveu uma grande equipe. Lágrimas não faltaram. “Ele é um pinguinho de 31 semanas, que tinha 1,640 kg e que está indo embora com 8 kg. Foram 25 minutos de reanimação na sala de parto. Mas valeu muito a pena, porque nosso compromisso é sempre o de devolver um filho para sua mãe, à família”, relata. Ela admite que alguns momentos não foram felizes, exigindo resiliência da equipe médica e cumplicidade com a família. “A gente tem que ser forte e é preciso trabalhar também o emocional da equipe, sempre mostrar a qualidade da assistência”. Mãe-coragem Josefina não desgrudou de Cleverton um segundo sequer após a alta – exatamente como foi ao longo dos últimos 19 meses. Mas a sensação era diferente. A fé na alta nunca foi desafiada pelas adversidades. E a moradia da família, no Caieiras, em Praia Grande, era o destino esperado. “Estou louca para mostrar a casa dele, o berço, o desenho do Bolofofo, que ele ama”, descreve a mãe-coragem. Ela precisou mandar as duas filhas, de 19 e 12 anos, para Sergipe, para centrar esforços na recuperação do pequeno. Mas, em breve, a família estará toda reunida – aí inclui-se o marido, o calceteiro Felipe Vieira, de 33 anos. O pai biológico abandonou mãe e filho após quatro meses de vida do garoto. Os cuidados não vão cessar após a saída do HGA. Alimentação, cuidados com a traqueostomia, reabilitações fisiomotora e fisiorespiratória, cuidados pulmonares e neurológicos. Enquanto isso, uma vaquinha em dinheiro tratou de garantir condições de vida adequadas para Cleverton, como um estoque de fraldas, brinquedos etc. – totalizando mais de R\$ 3 mil. Nem berço havia. Para a mãe do menino, mais um milagre de Deus. “O sonho de uma mãe é ter um filho e ir para casa. E eu fui escutada. Chegou o momento. Quero que ele possa estudar, pois em breve ele poderá caminhar”, complementa Josefina. Para quem nasceu com espírito de guerreiro, nada é impossível para Cleverton.