[[legacy_image_256472]] As doenças cardiovasculares são as que causam mais mortes no Brasil. Entre elas, o acidente vascular cerebral (AVC) tem acometido pessoas mais jovens desde o início da pandemia de covid-19. Para especialistas ouvidos por A Tribuna, fatores como sedentarismo, obesidade, hipertensão e estresse são determinantes para o aumento do número de casos. Diagnósticos precoces do quadro também, devido aos avanços da medicina. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! “A gente tem um aumento considerável (de casos de AVC) em relação a pacientes de terceira, quarta e quinta décadas (de 30 a 59 anos). Primeiro, porque temos um maior diagnóstico agora em paciente jovem, o que antes passava batido. Novos diagnósticos de hipertensão e diabetes, que antes tinham que ter exame mais específico, hoje você consegue com exame laboratorial de rotina diagnosticar e evitar”, diz o chefe do Departamento de Neurologia da Santa Casa de Santos, Fernando Pierini Costa. Segundo o neurologista, a causa mais comum do acidente vascular cerebral isquêmico (AVCI) em pessoas mais novas é resultado de um “evento cardioembólico, uma provável anomalia cardíaca ou uma arritmia cardíaca previamente não diagnosticada”. O quadro geralmente é relacionado ao “estilo de vida” da pessoa. “Ele é associado ao sedentarismo, que vem muitas vezes em algumas patologias, como diabetes e hipertensão. Ao tabagismo e ao estilo de vida cada vez mais hiperativo, em relação a não dormir, não se alimentar adequadamente, sobrepeso e a obesidade. Tudo isso aumenta muito mais o índice de um AVCI agudo”, aponta Costa. De acordo com o neurologista, antes da pandemia, estatísticas indicavam que um a cada seis indivíduos da população sofreria um AVC, independentemente da idade. “Agora, provavelmente, pode estar chegando a um para cinco”. Oito fatores A chefe do Departamento de Cardiologia da Beneficência Portuguesa, em Santos, Juliana Filgueiras Medeiros, lista oito fatores de risco para a ocorrência de um AVCI, AVC hemorrágico ou infarto: hipertensão, diabetes, dislipidemia (colesterol alto), obesidade, sedentarismo, tabagismo (tabaco e cigarro eletrônico), alteração do sono e estresse. Além desses, ela cita o consumo excessivo de drogas durante a pandemia e fatores genéticos e etários. "Quanto mais idoso, maior o risco de AVC e infarto. A genética também pesa. Se os seus pais tiveram AVC ou infarto, a chance de você ter é maior. Hipertensão não dá sintomas, é difícil o diagnóstico, por isso a necessidade de ir ao médico. Diabetes, geralmente, dá sintomas: você tem muita sede e fome, perda de peso, urina muito. O colesterol alto não dá sintoma, só se sabe se fizer exame”. A cardiologista diz que, apesar de ser comum associar o aumento do número de casos de AVC em pessoas mais jovens às mudanças no estilo de vida, ela também aponta os avanços da medicina para que mais casos sejam diagnosticados precocemente. “Antigamente, era mais difícil diagnosticar um AVC. Hoje em dia, é muito fácil: a pessoa vai ao pronto-socorro, faz uma tomografia ou uma ressonância magnética e diagnostica um AVC pequeno”. Sinais e orientações -Os principais sinais de AVC são tontura, confusão mental, dor de cabeça, visão limitada, perda de força ou formigamento de um lado do rosto ou do corpo, alterações na fala, desvio no canto da boca (boca torta) e dificuldade de compreensão; -A recomendação é que, logo que for identificada a suspeita de um AVC, a pessoa deve ser deitada, com apoio para elevar a cabeça. Um serviço de socorro tem de ser acionado imediatamente. “Quanto mais rápido o socorro, menor o risco de sequelas”, orienta a Secretaria Estadual de Saúde. Prevenção e mudança de hábitos são necessárias Os profissionais da Saúde são unânimes ao citar a prevenção e a mudança de hábitos como as melhores armas para evitar problemas cardiovasculares. Consultar um especialista ou um clínico geral se a pessoa tiver um dos oito fatores de risco, optar por uma alimentação saudável e se exercitar com frequência podem fazer a diferença para prevenir AVC e infarto. “A gente recomenda procurar um cardiologista a partir de 35 anos e, se você tem fator de risco, procure antes. Obesidade na infância é doença e precisa ser tratada. Não fazer atividade física é tão grave como a obesidade. Eu falo que é igual a escovar os dentes; você tem que treinar. E qual treino? Alguma coisa que te dê prazer. Precisa treinar cinco vezes na semana”, recomenda Juliana Medeiros. Não fumar, cuidar do sono e da saúde mental também estão na cartilha da cardiologista. “Procure ajuda com um nutricionista se você não conseguir perder peso. A apneia do sono é um fator de risco superimportante que a gente precisa avaliar. Geralmente, os sintomas são ronco, fadiga excessiva e cansaço. Eu encaminho para o psicólogo ou psiquiatra quando vejo que a pessoa está muito ansiosa, porque é um fator importante para ter AVC”. Fernando Costa diz que os médicos têm um algoritmo a seguir para cada paciente, de acordo com a faixa etária. “Se ele é jovem, vamos fazer exame de rastreio, ecocardiograma, doppler de carótidas, vertebrais, tomografia de crânio. Algo que sugira que você possa ter adquirido, ou de forma congênita, uma patologia que pode te levar a ter um AVC”. As pessoas que estão acima de 40 ou 50 anos têm um roteiro diferente. “O especialista vai orientar a respeito de colesterol, glicemia, estilo de vida e alimentação. Até mesmo de estudos que a gente tem em relação à evolução técnico-científica, o quanto eu posso prevenir um evento isquêmico vascular ou até mesmo uma demência a longo prazo. O especialista é a palavra-chave”, cita o neurologista, que inclui cardiologista e geriatra, se a pessoa for idosa, nesta lista de suporte. Ao comparar taxas globais e regionais há uma variação Enquanto dados da Organização Mundial de AVC (WSO, na sigla em inglês) mostram que a taxa de pessoas com menos de 45 anos acometidas por AVC subiu de 10%, antes da pandemia, para 18%, no final do ano passado, o número de casos oscila na região. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, foram realizados na Baixada, em 2018, cerca de 5,5 mil atendimentos ambulatoriais e hospitalares a pessoas com menos de 50 anos de idade que sofreram um AVC. Em 2019, conforme a secretaria, foram 9,6 mil atendimentos na Baixada. Em 2020, cerca de 4,8 mil. Em 2021, 3,6 mil e, em 2022, 1,8 mil. Prefeituras Considerando menores de 50 anos, segundo a Prefeitura de Santos, na UPA Central foram registrados 288 casos em 2019, 183 em 2020, 190 em 2021 e 169 em 2022. Na UPA Zona Noroeste, conforme os dados disponíveis, em 2020 foram 47 casos; em 2021, 40, e em 2022, 36. Na UPA Zona Leste, inaugurada em 2020, a unidade atuou só para casos de covid-19 naquele ano. Em 2021, não houve registro e, em 2022, foram 13. Em Bertioga, segundo dados do Instituto Nacional de Tecnologia e Saúde (INTS), responsável pela gestão do Hospital Municipal, foram cinco casos a partir de maio de 2019, 14 em 2020, 15 em 2021 e 16 em 2022. Em Guarujá: 245 em 2019, 215 em 2020, 274 em 2021 e 283 em 2022. Em Itanhaém, de acordo com a Secretaria de Saúde, os dados de acidentes vasculares isquêmicos transitórios e síndromes correlatas foram quatro em 2019, três em 2020, dois em 2021 e oito em 2022. Os AVCs não especificados como hemorrágicos ou isquêmicos corresponderam a 32 em 2019, 31 em 2020, 22 em 2021 e 21 em 2022. A Prefeitura de São Vicente alegou que, como o AVC é uma doença de notificação não compulsória, não possui dados. Cubatão, Praia Grande, Mongaguá e Peruíbe não responderam.