Canal 6, em Santos: presença de tilápia-do-nilo é acompanhada por biólogos marinhos e já preocupa (Vanessa Rodrigues/ AT) Quem passa pelas margens dos canais de Santos, no litoral de São Paulo, tem notado uma transformação silenciosa em sua paisagem. Nos últimos anos, uma espécie de peixe vem se multiplicando cada vez mais por diferentes trechos do sistema de drenagem, adaptada às condições urbanas e até à água salobra. O avanço da espécie, porém, preocupa especialistas pelos impactos ambientais que pode causar. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! De acordo com o biólogo Eric Comin, trata-se da tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus). “É uma espécie invasora, originária da África, que não possui predadores naturais nos canais, permitindo uma multiplicação rápida e sem controle”, explica. Segundo o biólogo, as tilápias suportam baixos níveis de oxigênio, poluição, variações de salinidade e conseguem sobreviver em ambientes urbanos degradados. Além disso, atingem maturidade sexual com cerca de 3 a 6 meses e podem desovar mais de quatro vezes por ano em condições ideais – o que explica o crescimento exponencial da população. Consumo contraindicado É justamente por conta de sua facilidade reprodutiva que a espécie foi introduzida no Brasil e se tornou amplamente utilizada na piscicultura. Dados da Embrapa apontam que, atualmente, as tilápias representam 70% de todo o peixe criado no país, sendo 700 mil toneladas anuais, o que torna o País o quarto maior produtor mundial da espécie. No entanto, o consumo das tilápias retiradas dos canais é, além de proibido, totalmente contraindicado. “Metais como chumbo, mercúrio e cádmio ficam depositados nos sedimentos. Como a tilápia é detritívora (alimenta-se de detritos), ela absorve e acumula esses metais em seus tecidos”, explica Comin. O especialista alerta ainda que os peixes podem acumular bactérias, vírus e parasitas, bem como resíduos de combustíveis e outros contaminantes presentes na água urbana, os quais “alteram o sabor e oferecem riscos carcinogênicos a longo prazo”. De acordo com a Lei Complementar Municipal 932/2016, a captura de peixes nos canais de drenagem pode resultar em advertência, multa de R\$ 500 e apreensão de equipamentos em caso de reincidência. Tilápias suportam baixo oxigênio, poluição e ambientes degradados (Vanessa Rodrigues/ AT) Impactos ambientais Com hábitos alimentares onívoros, mas com tendência herbívora, as tilápias consomem fito-plâncton, algas, detritos e pequenos invertebrados. Para Comin, essa versatilidade contribui para o sucesso da espécie, mas também aumenta os riscos ambientais associados à sua presença fora da área de origem. O especialista destaca que a tilápia compete por alimento e espaço com peixes nativos dos canais, como o lebiste (Poecilia reticulata). “A redução de peixes nativos que comem larvas de mosquitos pode levar ao aumento do Aedes aegypti na região”, afirma Comin. Ele também aponta que a espécie representa uma ameaça à biodiversidade, já que pode se alimentar de ovos e larvas de outros organismos aquáticos, incluindo espécies marinhas. Ainda de acordo com o biólogo, o acúmulo de dejetos produzido pelas tilápias em um ambiente relativamente confinado “pode acelerar a degradação da água e causar mau cheiro, modificando a qualidade da água”. Em estudo Em nota, a Prefeitura de Santos informou que “não há como precisar como e nem quando os peixes foram introduzidos nos canais”. A Administração afirmou que estuda soluções em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que já iniciou pesquisas em diversos pontos dos canais. Os resultados serão divulgados após a conclusão dos estudos. Debate adiado A presença da tilápia em ambientes naturais também tem gerado discussões em âmbito nacional. No último dia 29, a Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio), órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), decidiu adiar por 90 dias a deliberação sobre a inclusão da espécie na Lista Nacional de Espécies Exóticas Invasoras. O MMA informou que a eventual inclusão teria caráter técnico e preventivo, servindo como referência para políticas públicas voltadas ao monitoramento e controle de espécies com potencial de impacto sobre a biodiversidade nativa. A pasta ressaltou que a medida não significaria a proibição do cultivo nem o banimento da espécie.