Uma história familiar para construir uma reflexão sobre afeto, reciprocidade e os diferentes significados que as obras de arte ganham ao longo do tempo. É dessa ideia que nasce Amadores, primeira exposição individual do santista Ilê Sartuzi em sua cidade natal. O artista, que vive na Europa, apresenta a mostra na Pinacoteca Benedicto Calixto (Av. Bartolomeu de Gusmão, 15, no Boqueirão, em Santos). Aberta neste sábado (13), fica em cartaz gratuitamente até 13 de setembro, de terça-feira a domingo, das 9 às 18 horas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O desejo de Sartuzi de presentear o avô com uma pintura de Benedicto Calixto é o que dá vida à exposição. Foi assim: o artista trocou, com uma colecionadora, uma de suas obras por uma pintura de Calixto. Depois, ofereceu o quadro ao avô em troca de uma pintura feita por este. O resultado é uma cadeia em que cada participante recebe algo. E as três telas passam a ser partes de uma mesma obra conceitual. Mas o foco de Amadores, afirma Sartuzi, é homenagear o avô João Alves Franco, que ama artes, e a Cidade, onde ainda não havia feito uma mostra. “Meu avô migrou de Sergipe para São Vicente muito tempo atrás. De uma família muito simples, meu avô, na adolescência, começou a trabalhar para conseguir pagar um curso de pintura com uma senhora de São Vicente. Então, ele tinha uma prática amadora de pintura, entre os 13 e 14 anos. Pintava paisagens, flores e se apaixonou pela pintura, mas não conseguiu seguir isso ao longo da vida.” Franco se surpreendeu com a homenagem. “Há muitos anos atrás, eu era menino, quando pintei esse quadro (que está na mostra), junto com outros. Infelizmente, todos eles desapareceram, não tive mais notícia de nenhum deles. Fiquei só com uma meia dúzia deles comigo, que estão com minha filha e meus netos”, relata. A empresária Ana Paula Moreno afirmou que foi um prazer fazer parte dessa história. “O Ilê conseguiu essa obra no mercado, que estava disponível para realizar o sonho, que foi essa exposição”, disse, em entrevista à TV Tribuna. O objetivo do artista plástico Ilê Sartuzi era homenagear Santos e o avô, pintor, e amante das artes (Sílvio Luiz/AT) As obras A pintura de Sartuzi, que levou cerca de oito meses para ficar pronta e foi feita na Itália, foi batizada 17091995. Tem por base uma foto publicada em A Tribuna em 17 de setembro de 1995, dia em que o artista nasceu. Mostra a paisagem da orla em direção à Ilha Porchat, em São Vicente, e foi escolhida após pesquisa da iconografia das paisagens da Baixada Santista. A exposição reúne, ainda, Santos, de Benedicto Calixto, de 1894, e Praia de Florianópolis, de João Alves Franco, de 1950. Reflexivo e minimalista:são os conceitos da mostra Curadora da exposição, Thamyres VM ressalta que Ilê Sartuzi procura estimular uma reflexão sobre afetos, trocas e sobre o circuito da arte como sistema, um dos grandes temas de seu trabalho. Segundo ela, o artista chegou ao projeto com uma ideia madura. “Minha função foi muito mais essa troca crítica, afinar alguns detalhes e, também, observar camadas que talvez não estivessem ali ou tão visíveis”, explica a curadora. Thamyres VM, curadora, explica os significados do trabalho de Ilê (Sílvio Luiz/AT) O presidente da Fundação Pinacoteca Benedicto Calixto, Roberto Clemente Santini, destaca que Amadores foge do que o público está acostumado a encontrar no espaço. “Vão ver uma exposição minimalista, um conceito muito presente na Europa. (...) É a exposição mais diferenciada em muitos anos na Pinacoteca”. Roberto adiantou ainda que a Pinacoteca fechará uma parceria para que Thamyres seja sua curadora internacional. “A partir do ano que vem, vamos dar um salto, trazer exposições diferentes e levar nossos quadros também”.