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Terça-feira

11 de Agosto de 2020

Aos 83 anos, jornalista sobrevive ao coronavírus: 'É bom voltar para casa'

Edison Martinez Alonso ficou quase um mês na UTI do Hospital dos Estivadores

Se Edison Martinez Alonso imaginou que, aos 83 anos, já não haveria mais nenhum novo capítulo para somar às suas memórias, enganou-se. A idade e todos os problemas de saúde que tem enquadram “seu” Edison naquele grupo de risco de onde os pacientes de covid-19 têm mais dificuldade para sair. Ele saiu. E virou história justamente por contrariar as estatísticas.

Contar história foi a especialidade de Edison na vida. Durante 37 anos foi jornalista correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, o popular Estadão. Trabalhava na sucursal de Santos, de onde cobriu várias tragédias, a vida política das cidades da Baixada Santista nos anos de ditadura, as administrações que vieram depois, o cotidiano do Porto, do comércio, as praias, o movimento turístico.

Aposentado há mais de 20 anos, vive com a mulher, Lauraci, e o filho Ramsés em um modesto sobrado da Vila Mathias, de onde ficou longe por quase um mês, tempo que durou sua internação no Hospital dos Estivadores. Ele não sabe como contraiu o coronavírus, porque a baixa mobilidade já não permite que ele saia de casa com muita frequência.

“Nós não imaginávamos que sobreviveria”, diz o filho, que chegou a temer que, na falta de respiradores, os médicos pudessem optar por salvar um paciente mais novo. Isso não aconteceu, e seu Edison teve alta na semana passada, com direito a vídeo comemorativo feito pela equipe médica.

Aposentado há mais de 20 anos, jornalista vive com a mulher, Lauraci, e o filho Ramsés  (Foto: Alexsander Ferraz/AT)

Histórias

Edison Martinez Alonso nasceu na pequena aldeia de Goyan, ao norte da Espanha, mas veio para o Brasil com três meses de vida. Ele, os pais e o irmão 14 anos mais velho. Nunca mais voltou à Espanha.

Aos 18 conheceu Lauraci, que fazia curso de Corte e Costura nas oficinas do Instituto Dona Escolástica Rosa. Estão casados há mais de 60 anos.

“Sempre sonhei ser jornalista”, diz Edison, que trabalhou no Diário de Santos, do grupo Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Com o passar do tempo, ganhou notoriedade e conseguiu uma vaga como repórter no Estadão, onde escrevia e fotografava.

A memória já barra alguns detalhes, como datas e fatos, mas uma pesquisa rápida no acervo digital do jornal da Capital mostra reportagens suas datadas da década de 60.

“O senhor teve alguma matéria vetada durante a ditadura”. Resposta: “Não, filha, sempre fui comedido, nunca me excedi. Sabia onde podia pisar”.

O velho jornalista ainda se emociona com algumas coberturas que fez, como o descarrilamento de trens que ocorreu no alto da Serra do Mar, a partir da Estação de Paranapiacaba. “Foram mais de 20 toneladas serra abaixo. Uma tristeza”. Duas pessoas morreram, mas seu Edison chora ao lembrar.

Tragédia maior estava por vir anos depois, em 1984: o incêndio da Vila Socó, em Cubatão, que deixou 93 mortos e mais de 3 mil desabrigados. “Lembro de percorrer o que sobrou com os bombeiros. E nós encontramos corpos dentro de geladeiras, de pessoas que tentavam fugir do fogo e acabaram carbonizadas”.

jornalista se emociona com algumas coberturas que fez, como o descarrilamento de trens que ocorreu na Serra do Mar (Foto: Alexsander Ferraz/AT)

Rudimentar

Naquela época, a única tecnologia disponível era o telefone, que tanto servia para fazer entrevistas, como ditar as matérias para a sede, em São Paulo, no final do dia. Por malote iam os filmes fotográficos e documentos. Todos os dias.

Edison Martinez Alonso não pensa em escrever um livro de memórias, mas tem noção de que sobreviver ao coronavírus foi um feito e tanto. “Não lembro de muita coisa, filha, mas sei que é bom estar de volta em casa”.

A esposa e o filho concordam. Assim como Domênica, a filha mais velha, e os netos Lorenzo e Laura.

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