[[legacy_image_304471]] É inegável que, ao longo do curso da história, as inovações tecnológicas trouxeram facilidades que, por consequência, tiveram impactos no bem-estar e na qualidade de vida. Para o futuro, inovações prometem causar impactos significativos na vida da humanidade, e podem resultar em uma maior longevidade e, quem sabe, na imortalidade. Por outro lado, o assunto deve ser observado com cautela, visto que a inteligência artificial, um dos temas que mais mobiliza estudos no campo da tecnologia, pode colocar em risco nossa própria existência. Esses são alguns dos pontos levantados pelo antropólogo, professor e terapeuta norte-americano radicado em Santos, Darrell Champlin. Estudiosos de temas relacionados à bem-estar e saúde, Champlin já publicou três livros: Antropo+logia, O Portal dos Sonhos e iEu: como desacelerar uma mente turbinada na era da ansiedade. Hoje, ele concentra seu interesse em IA e nanotecnologia, e discute o impacto que essas inovações podem causar no modo de viver dos seres humanos em sua palestra “O Futuro de Bem-Estar na Era da Inteligência Artificial”. O antropólogo discute, em entrevista, alguns dos principais pontos trazidos na palestra. Confira: Há um dado trazido na palestra que indica que 60% dos adultos atualmente sofrem com alguma condição crônica. Quais são as causas desses problemas?A causa subjacente de todas essas condições crônicas, como diabetes, hipertensão e até mesmo câncer, é o estresse. O estresse altera a bioquímica do corpo, produz substâncias bastante tóxicas, e essas alterações afetam o cérebro. Então, a causa raríssimas vezes é “genética”; ela pode ser hereditária, mas não é genética. O que predispõe, por exemplo, uma mulher a ter câncer de mama? Pode ser que exista nela um gene, mas, se esse gene vai ou não ser acionado, depende do estilo de vida que ela leva, do ambiente onde vive e do estresse ao qual ela foi sujeita ao longo da vida. Isso se inicia geralmente na infância, e se estende ao longo da vida adulta por causa do estilo de vida muito ruim ao qual temos sujeitado nossos corpos. A ausência de sono; a humanidade dorme pouco e, quando dorme, dorme em horários ruins. Depois, tem uma questão de dieta. A nossa dieta é composta em grande parte de alimentos ultraprocessados e a nossa microbiota, que é o que adquirimos da nossa dieta, hoje deriva de poucos ingredientes, como milho, trigo e soja. Isso degenera a qualidade da nossa saúde. A maior parte de nós vive uma vida sedentária. O sedentarismo permite, por exemplo, o desenvolvimento de obesidade, e nos rouba uma série de hormônios que produziremos em maior volume se estivéssemos nos exercitando. Além disso, muitos de nós vivem sob ansiedade. Por isso, é importante fazer a gestão do estresse, o aterramento emocional, que é ter um bom diálogo com você mesmo, e a meditação. As pessoas estão cada vez mais doentes porque negligenciam esses aspectos em particular. Como a tecnologia pode colaborar com nosso bem-estar e longevidade?Hoje, tem coisas absurdas sendo desenvolvidas em laboratório. O câncer, por exemplo, poderá ser tratado por um robô feito de DNA ou de tecido biológico na escala nanométrica. Equipado com IA e com uma carga de quimioterapia, esse robô sabe localizar exatamente a célula doente. Ele vai até a célula, deposita o quimioterápico, mata a célula e depois é expelido pela urina. Há também processos para melhorar a fertilidade e de reconstrução de lesões. Então, alguém com problema no coração poderia ter o órgão reparado pela nanotecnologia. E, se não for dessa maneira, será possível utilizar um coração impresso em 3D, do tamanho e funcionamento corretos. A grande questão é conseguir operacionalizar essas invenções já existentes. Na palestra, você faz uma provocação a respeito da possibilidade de os seres humanos alcançarem a imortalidade no futuro. Essa possibilidade existe de fato?No momento, isso é um exercício de futurologia, mas quantos mais anos serão necessários para que isso seja superado? Vamos supor que exista um casamento entre a inteligência de silício e a humana, incorporado dentro do corpo. Em caso de falência renal, você pode colocar um rim novo, feito de silício ou impresso biologicamente e equipado com IA. Com isso, é possível evitar mortes por problemas renais. Com as inovações tecnológicas na área da saúde, poderá ser possível evitar mortes por câncer, por problemas cardíacos, por infecções bacterianas, além de recuperar lesões físicas. Problemas neurológicos como mal de Parkinson também poderão ser resolvidos; há um implante intracraniano desenvolvido pela Neuralink, empresa do bilionário Elon Musk, que é promissor, e pode trazer resultados em um futuro não tão distante. Acredito que seja uma questão apenas da virada dessa próxima década. Com toda essa tecnologia, em algum momento talvez seja possível pensar: “Por que morrer?”. Quando paramos para pensar no estado atual do conhecimento médio do ser humano, parece uma ficção absoluta, mas, quando você coloca isso em uma perspectiva de evolução exponencial da tecnologia e como isso tem acontecido nos últimos cinco anos, você pensa de novo. Você fala muito sobre as IAs, que talvez seja um dos temas mais debatidos no âmbito da tecnologia atualmente. Quando se fala nelas, há muitos medos sentidos pelas pessoas, como o de perderem suas profissões. No entanto, esse não é um processo natural da humanidade, que muda conforme novas tecnologias surgem? Ou, neste caso, tem algo de diferente?Não tem diferença quando pensamos que a extinção de profissões acontece justamente porque a tecnologia veio para substituir. Mas, neste caso, falamos sobre uma extinção em massa. Um piloto de avião, por exemplo, pode tornar-se desnecessário. O computador é quem pilota do começo ao fim, e o piloto torna-se uma figura para manter dentro da cabine e dar uma tranquilidade aos passageiros. No entanto, dificilmente uma decisão tomada por esse humano será melhor do que uma tomada por uma máquina. A profissão de tradutor também, e falo como tradutor. Meu trabalho nessa área caiu brutalmente nos últimos quatro ou cinco anos, porque o Google Tradutor, hoje em dia, consegue fazer um trabalho muito bom. Então, essa extinção em massa de profissões ainda deve acontecer. Há também um medo de as Inteligências Artificiais se “rebelarem” contra a humanidade. Esse temor é produto do imaginário criado por obras de ficção científica ou ele faz algum sentido?Acredito que há, sim, grandes motivos para as pessoas terem receio. O ritmo de aprendizado das IAs é milhares de vezes mais rápido que o dos humanos, e é multiplicado exponencialmente. Seres equipados com IA, por exemplo, conseguiriam ver a destruição que o ser humano “burro” está fazendo. Por quanto tempo esses seres estariam interessados em manter vivos os humanos que estão devastando o planeta e consumindo recursos naturais em uma velocidade sem precedentes? Uma IA, percebendo esses estragos causados pelo homem, poderia desligar o aquecimento no meio do inverno para que, no hemisfério norte, onde ainda neva, morram de frio, ou desligar a inteligência dos serviços de aeroportos e trens, por exemplo. Alguém pode pensar que isso nunca poderia acontecer, mas com algo que é milhares de vezes mais inteligente que nós e se desenvolve em ritmo exponencial, há motivos para preocupação. Por isso, hoje se discute uma regulação da tecnologia de Inteligência Artificial?Vários dos “cabeças” do desenvolvimento da IA se preocupam com isso. Alguns entraram em campanhas mundiais para alertar sobre o risco que existe. Acho que é inocência pensar que as IAs não representam risco nenhum. Hoje, as IAs são treinadas em campos como o desenvolvimento de armamentos, de finanças, onde elas podem aprender fraudes, e pornografia, ou seja, estão sendo treinadas em um nível onde não existe moralidade nem ética. Isso explica a importância dessa discussão sobre regulação das IAs?Há uma comparação que diz que, se você colocar um sapo em uma panela com água fria, ele vai ficar imóvel. Em seguida, você coloca essa panela na boca de um fogão e começa a esquentar a água até chegar em ponto de ebulição. O sistema nervoso desse sapo reage de uma forma tão vagarosa que ele vai cozinhar antes de perceber que esquentou. Da mesma forma, eu digo que o “sistema nervoso comunitário” reage de uma forma muito lenta; a nossa percepção sobre a nossa existência muda vagarosamente. Então, as coisas acontecem de forma muito rápida e, quando percebemos, não reagimos a tempo. Vejo o aquecimento global como exemplo disso. Então pode ser que, quando nos dermos conta dos perigos das IAs, seja tarde demais?Segundo alguns autores, estamos praticamente em um ponto de não retorno. O autor do livro Scary Smart (em português, pode ser traduzido como Assustadoramente Inteligente) e ex-diretor do Google X, departamento de inovações do Google, Mo Gawdat, coloca nesse livro que é quase tarde demais.