Alcindo, cientista política e engenheiro, chega ao primeiro romance (Divulgação) Um pedaço da história mais antiga de seus antepassados, escolhido de forma proposital por representar um momento inusitado de arte e cultura em um tempo difícil e desafiador para quem imigrava para o Brasil, transformou-se no primeiro romance do escritor, professor universitário, engenheiro e cientista político Alcindo Gonçalves. A Xícara de Prata, da Editora Garoupa, tem 432 páginas e será lançado neste sábado, às 17 horas, na Pinacoteca Benedicto Calixto (Av. Bartolomeu de Gusmão, 15, Boqueirão, Santos). Alcindo já escreveu e organizou diversos livros ao longo de sua carreira pública e acadêmica, mas esta é a primeira vez em que se lança no estilo romance, escolhendo como enredo a história de seus trisavós Francisco Escudero e Bárbara, nascidos na Espanha em meados do século 19, mas com parte de suas trajetórias cumprida em solo brasileiro. Francisco Escudero era coreógrafo e bailarino, mestre em balé e mímica, uma arte valorizada na Europa naquele tempo. Casou-se com Bárbara em 1849 em Cartagena, cidade espanhola próxima a Murcia, e logo se mudaram para a França, onde as oportunidades artísticas eram maiores. Em 1863, após um espetáculo no Teatro Eldorado, em Paris, foram convidados para se apresentar no Rio de Janeiro, e então começa um novo capítulo na trajetória da família, que não retornaria mais à Europa. Pesquisas Entre decidir escrever um livro com parte da história da família e efetivamente publicá-lo foram dez anos, conta Alcindo Gonçalves. Sua fonte principal de pesquisa foram os arquivos da Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. “Decidi contar essa história porque eles eram uma família incomum para aquela época, com apresentações que impactavam a sociedade. Meu trisavô chegou a ter uma companhia de teatro em São João del Rei, em Minas Gerais. Eles tinham uma visão diferenciada de mundo”, diz. A consulta aos arquivos da Biblioteca Nacional foi possível porque, naquela época, os jornais tinham espaço diário em suas páginas para toda a agenda cultural das cidades, com detalhes sobre elenco, nomes de artistas, locais de apresentação e o dia a dia de cada grupo de dança, música e teatro. Foi com base nessa imersão ao acervo dos jornais que Alcindo descobriu que uma das filhas de Escudero e Barbara, Marie, casou-se com Alberto Veiga, português, que trabalhou no grupo artístico de Escudero, onde a conheceu. Alberto Veiga foi jornalista de A Tribuna, vereador em Santos e um dos defensores do abolicionismo. Ele dá nome a uma rua no Marapé. Francisco Escudero morreu em 1890, aos 65 anos, e junto com ele morreu também o perfil artístico da família. A xícara E por que a escolha do nome A Xícara de Prata para o livro? Alcindo Gonçalves explica: nos tempos áureos da companhia de dança, um dos símbolos do grupo eram xícaras de prata, que vinham com o nome impresso de seus mentores. A xícara que sobreviveu ao tempo foi entregue há anos a Alcindo, que a guarda como uma relíquia de família. Além de contar parte de sua própria história, A Xícara de Prata evidencia a riqueza cultural e o valor ao teatro, à música e à dança, especialmente nas cidades do interior, onde teatros e salas de espetáculos estavam sempre com as agendas cheias. “É curioso notar esse movimento, que nas décadas seguintes diminuiu bastante”. Neste sábado, durante o lançamento do livro, haverá apresentação de dança e música extraídos das peças do grupo de Francisco Escudero e Bárbara. A entrada é gratuita.