[[legacy_image_230760]] A arquitetura diferenciada, fruto de um projeto premiado na década de 1960 e reconhecido internacionalmente, não foi suficiente para garantir vida plena e ininterrupta ao majestoso prédio da Escola Acácio de Paula Leite Sampaio, na esquina das ruas Braz Cubas e Sete de Setembro, na Vila Nova, em Santos. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Prestes a completar uma década fechado, o prédio, todo de concreto, amarga os efeitos da ação do tempo, parcialmente visíveis para quem caminha por aquela quadra: portões enferrujados, vidros e janelas quebrados, limo encobrindo boa parte da estrutura das paredes e dos muros. A história da Acácio começa em 1967, quando entrou em funcionamento a Escola Técnica de Comércio de Santos, denominada Acácio de Paula Leite Sampaio. Destinava-se a atender as áreas administrativas portuárias e do setor de serviços. O prefeito era Silvio Fernandes Lopes, que morreu em 2005. Com projeto assinado pelos renomados arquitetos Décio Tozzi e Luiz Carlos Ramos, a escola era considerada, na época, a mais moderna do Estado. Recebeu prêmios em reconhecimento ao valor arquitetônico e foi contemplada pelo Museu Nacional de Arte Moderna do Centro Georges Pompidou (Paris, França), figurando como destaque no catálogo da exposição de obras modernas (Modernités Plurielles de 1905 à 1970). Inovador, o edifício tem três pavimentos. Uma das entradas está abaixo do nível da rua, com pátio suspenso e aberto. Além das salas de aula, havia auditório, biblioteca, laboratórios de Química, Física e Mecanografia, sala de desenho e escritório modelo. Gerações de formados O perfil da escola sempre foi voltado à formação profissional, com cursos de Contabilidade e Magistério. Em 2013, a Prefeitura encerrou as atividades e estabeleceu um convênio com o Centro Paula Souza, do Estado, para que ali fosse montada uma nova escola técnica (Etec). O projeto não saiu do papel e, em 2019, a Prefeitura transferiu o imóvel à Câmara de Santos, que ali instalaria, após ampla reforma e restauração (o prédio é tombado pelo Condepasa) e obras de acessibilidade, seções administrativas da Casa. Também abrigaria os departamentos de Gestão e Controle e da Escola do Legislativo e da Cidadania. Nada aconteceu desde então. Percalços O vereador Adilson Júnior (PP), presidente da Câmara até o próximo dia 31, acompanhou a equipe de A Tribuna até a escola na última sexta-feira. Ele explica que, desde que assumiu a presidência, no início do ano passado, promoveu ações para executar um amplo programa de reforma e ocupar os espaços conforme a proposta original. No ano passado, uma parceria foi firmada com a Unesco para que o projeto ganhasse peso e tivesse supervisão e relevância internacionais. A Unesco assumiria todas as etapas das obras, com recursos da Câmara já previstos em orçamento. Questões jurídicas e legais impediram que o convênio tivesse continuidade. Próximos passos Agora, um novo edital está sendo lançado, para convidar empresas a estabelecerem valores mínimos e máximos para todas as obras necessárias, inclusive instalação de elevadores e rampas de acesso, e ar-condicionado, que precisará de projeto especial por ser prédio tombado. A partir dos resultados desse edital, a Câmara terá noção mais próxima dos valores a serem lançados em novo certame para aí, sim, contratar os serviços. Adilson Júnior descarta devolver o imóvel à Prefeitura. “A Câmara precisa desse espaço e está muito em sintonia com atividades de Educação. A Escola do Legislativo, que já funciona plenamente, estaria mais bem instalada aqui. Além disso, ampliaríamos os espaços para atividades legislativas, audiências e eventos”, diz o vereador, que mantém guarda patrimonial permanente na escola para evitar roubos e vandalismo. Autor do projeto se diz à disposição Decio Tozzi, autor do projeto da Escola Acácio de Paula Leite Sampaio, se diz disposto a colaborar na discussão das obras de restauração e adaptação do prédio, e acompanhar o projeto da empresa que vencer o edital para o trabalho. Aos 86 anos e ainda em atividade, o arquiteto entende que a finalidade do prédio deve permanecer como educativa, e lamenta que nada esteja sendo feito lá há quase dez anos. “Quando ficou pronto, o projeto chamou a atenção do mundo inteiro. Naquele período, a arquitetura paulista estava propondo uma arquitetura brutalista, uma arquitetura pura, sem revestimentos. Era a verdade construtiva aparecendo no seu desenho. Esse movimento da arquitetura paulista foi muito prestigiado no mundo inteiro, gerando produções bem importantes”, disse, na sexta-feira, por telefone. Ativo cultural Para o professor da Universidade Católica de Santos (UniSantos) e arquiteto José Maria de Macedo Filho, a “arquitetura é um ativo das cidades e deveria ser valorizada”. Ele cita outros prédios de escolas e universidades como símbolos valiosos da arquitetura brasileira, além de teatros e espaços culturais, como a Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo (USP) e o Teatro Municipal de Santos. “Fazer uma escola com projeto modernista era quase um ato revolucionário”, lembra. “Havia um ideário para mostrar que a escola paulista estava com sua arquitetura alinhada às técnicas construtivas, diferentemente da arquitetura carioca, que tinha um refinamento maior nos detalhes”. O prédio da Acácio, diz, reflete um momento importante da arquitetura brasileira, e isso precisa ser valorizado como destaque de Santos. Ele cita elementos diferenciados do projeto, como o pátio elevado, a ausência de muros e a integração visual com quem passa pela rua. “Isso é muito revolucionário e icônico”, observa. O professor sugere usos para o prédio: “A motivação original da escola, com perfil técnico e profissionalizante, continua com demanda. Fala-se em empreendedorismo, em carreiras ligadas ao Porto e não faltam demandas nessa área”.