Abandonada, Hospedaria dos Imigrantes gera temor em Santos

Cotada desde 2012 para ser a sede da Faculdade de Tecnologia (Fatec) da Baixada Santista, construção motiva temores na vizinhança

O que já foi uma construção imponente na Vila Mathias, abrigou a Hospedaria dos Imigrantes e estava cotado desde 2012 para ser a sede da Faculdade de Tecnologia (Fatec) da Baixada Santista permanece abandonado. O projeto do Governo de São Paulo nunca saiu do papel e, para quem vive ou trabalha no entorno de um dos edifícios históricos mais importantes de Santos, estar por perto virou sinônimo de problema.

Do prédio original – trata-se de uma construção tombada e sob os cuidados do Estado – sobram apenas as paredes externas. Em parte de uma delas, ainda há um andaime que restou do início de uma obra inacabada. Na calçada, sujeira, material descartado e restos de entulho.

O arquivista Thiago Rodrigues, de 32 anos, passa pelo local diariamente para ir ao trabalho e diz tomar muito cuidado no percurso. “Há oito anos olho para o alto para ver se não vai cair nada na minha cabeça. É um perigo essa estrutura estar desse jeito.”

Morador no entorno, o motorista Ronaldo Pontes, de 50 anos, sonha com o dia em que a antiga Hospedaria dos Imigrantes se transforme em algum empreendimento que beneficie a vizinhança. “Podia ser um pequeno Ceasa (central para venda de alimentos), sabe? Para venda de alimentos. Seria bom e ainda iria gerar emprego. Do jeito que está, esse casarão atrai ladrão. A gente sente medo quando passa por perto.”

Segundo ele, há expectativa de melhora com a chegada do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) ao bairro. Na segunda fase do projeto, está previsto que o transporte circulará pelas proximidades. “Assim, quem sabe, resolvem fazer algo logo para melhorar a Vila Mathias.”

Ilária Macieiro, de 43 anos, montou uma pequena lanchonete nas proximidades da antiga hospedaria há cinco meses e conta que também fica com medo, principalmente, quando permanece de portas abertas até mais tarde. “Teve um assalto aqui no domingo passado (dia 2), às 15 horas. É um perigo. Insisto porque tem cliente. Não dá para ficar sozinha.”

Uma profissional da área da saúde, que não quis se identificar, também reclamou da insegurança ao ser abordada por A Tribuna. “Tem muito usuário de drogas ocupando o lado externo do prédio.”

Pandemia bloqueia investimento, alega Paula Souza

Em nota, o Centro Paula Souza (CPS) informou que a Fatec Baixada Santista foi transferida, no início do ano passado, para um novo prédio na Avenida Senador Feijó, também na Vila Mathias, e não há previsão financeira para investimento na restauração da Hospedaria dos Imigrantes. “Devido à pandemia, os recursos para investimento estão contingenciados por um decreto estadual.”

A Prefeitura de Santos informou que o casarão e o entorno passam por limpeza e estão incluídos na programação das atividades da força-tarefa realizada de segunda a sexta-feira, em conjunto com Guarda Civil Municipal (GCM) e Polícia Militar, com objetivo de recolher tudo o que é abandonado por pessoas em situação de rua na área.

Ainda de acordo com a Administração Municipal, em nota, o local é monitorado diariamente pela equipe de abordagem social, oferecendo orientações, encaminhamento a serviços públicos e identificando locais de fixação de pessoas em situação de rua para “formação de vínculos de confiança, com o objetivo de encorajar o acesso a equipamentos como Centro Pop, Seacolhe e Seabrigo, além de duas instituições conveniadas: o Albergue Noturno e a Casa das Anas”.

A equipe de abordagem da Prefeitura pode ser acionada a qualquer momento pelo telefone 0800- 177-766, que tem atendimento diário e 24 horas. Também é realizado trabalho educativo com munícipes e comerciantes mediante o Programa Novo Olhar.

O 6º Batalhão da Polícia Militar do Interior (6º BPM/I) garantiu fazer constantes rondas nas imediações da Hospedaria dos Imigrantes, da Vila Mathias e de bairros próximos, como Vila Nova e Paquetá, que têm construções similares. A PM afirma, ainda, que é importante o registro de ocorrências, o que auxilia no planejamento estratégico operacional, para “distribuição do policiamento nas áreas com incidência de delitos”.

Idas e Vindas

Construído em 1912 para receber imigrantes que chegavam a Santos pelo Porto, a hospedaria teve diversas finalidades ao longo dos anos. O prédio funcionou como depósito de café e armazém de bananas destinadas à exportação. Foi cogitado montar um centro de convenções no local, mas a ideia não vingou. Em 2005, o casarão foi cedido pelo então governador Geraldo Alckmin à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Chegou, ainda, a ser encaminhado à Prefeitura de Santos para fins turísticos. Contudo, o Município concordou com o pedido da Unifesp de usá-lo para instalação de um campus. Seis anos depois, a Unifesp devolveu a edificação ao Estado. Em 2012, foi anunciada a destinação à Fatec. A obra não saiu do papel desde então.

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