Mario Covas morreu em 06 de março de 2001 (Divulgação) Temporal, inundação, desmoronamentos, 50 casas destruídas, pelo menos 22 mortes. Setenta anos atrás, em março de 1956, o desabamento de parte da encosta do Morro Santa Terezinha causou uma tragédia no Marapé, em Santos. Mobilizaram-se governos, comunidade e outras cidades no socorro às vítimas. Um engenheiro da Diretoria de Obras e Serviços Públicos da Prefeitura comandou ações de resgate: Mario Covas Júnior. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Covas, um santista de nascimento cujo trabalho na Administração o fez despontar para a carreira política, concorreu à Prefeitura em 1961, mas ficou em segundo lugar. Depois, tornou-se deputado federal, prefeito de São Paulo, senador. Tentou a Presidência da República em 1989. E foi governador paulista: estava no segundo mandato quando morreu, de câncer. Sua ausência completa 25 anos nesta sexta-feira (6). “Ele (Covas) falou que foi ali (no desastre de 1956) que ‘senti o lado que eu tinha que cumprir, a política que eu tinha de fazer’”, recorda o ex-deputado estadual Nelson Fabiano Sobrinho, que foi secretário de Governo na gestão de Covas na Prefeitura paulistana, entre 1983 e 1985. Os dois se aproximaram em meados da última ditadura (1964-1985). Na década de 1970, com os direitos políticos suspensos (leia adiante), Covas recebeu Fabiano, então vereador em Santos, em sua casa, na Rua Guaibê, na Aparecida. Sugeriu a ele que concorresse a deputado estadual em 1974, ano que se tornaria favorável ao crescimento da oposição nacionalmente. “Fui muito preocupado. Era uma época de ditadura militar, Santos estava sob intervenção federal. ‘Mario, se eu sair candidato, não estou coonestando (fazendo com que pareça virtuoso) esse regime de exceção?’. Ele falou: ‘Fabiano, se você, como deputado, evitar que uma única violência seja cometida contra uma única pessoa humana, seu mandato já valeu’. Saí candidato. Fui o deputado mais votado aqui em Santos”, lembra. E terminou cassado, em 5 de janeiro de 1976, por denunciar tortura em órgãos de repressão. Princípios Mario Covas sofreu com a defesa de questões democráticas. Fora segundo colocado na eleição para a Prefeitura de Santos em 1961. O prefeito eleito, Luiz La Scala Júnior, sofreu um acidente de trânsito no dia da diplomação e morreu dias depois. Havia dúvida sobre quem governaria a Cidade. O motivo é que se votava separadamente para prefeito e vice, e não se sabia se o sucessor seria Covas (o segundo colocado para prefeito) ou José Gomes (escolhido vice-prefeito). Covas defendeu a posse do vice, por entender que este seria o substituto natural, em um entendimento confirmado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). No ano seguinte, Covas foi eleito deputado federal e reeleito em 1966, já após o Golpe de 1964 e sob o bipartidarismo: havia somente a Aliança Renovadora Nacional (Arena) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Tornou-se líder da oposição na Câmara em 1967. Em 1968, um deputado da Guanabara — estado que abrigava a antiga Capital, o Rio de Janeiro —, Márcio Moreira Alves, discursou em favor do “boicote ao militarismo” pela população, a fim de que não comparecesse aos desfiles de Sete de Setembro, e nem mesmo “moças” namorassem jovens oficiais, em reação às “violências” e à “opressão” por parte da “cúpula militarista”. Por causa desse discurso, o ministro da Justiça, Luís Antônio da Gama e Silva, requereu à Câmara licença para processar Alves. Líder do MDB, Covas discursou pela rejeição do pedido: “(...) Tenho ouvido insistente e ansiosamente repetida a afirmação de que não sobrarão outras oportunidades para que o Poder Legislativo manifeste sua independência. É um imperativo (...) que preserve suas prerrogativas”. Em 12 de dezembro de 1968, a despeito da maioria arenista, a Câmara negou a licença por 216 votos a 141. No dia seguinte, o regime baixou o Ato Institucional número cinco (AI-5), o mais duro dos instrumentos do gênero na ditadura, e fechou o Congresso. Em 16 de janeiro de 1969, Covas teve o mandato cassado e os direitos políticos suspensos por dez anos. Covas, em meio a Fernando Henrique Cardoso e Afonso Arinos: o PSDB (Célio Azevedo/Senado) Nova sigla, por princípios e política Com os direitos restituídos e o MDB transformado em PMDB, com o ‘p’ de partido, Mario Covas voltou à vida pública. Eleito deputado federal em 1982, foi nomeado secretário estadual de Transportes em março de 1983 e, em maio, indicado prefeito de São Paulo pelo então governador, Franco Montoro. Em 1986, a eleição de Covas ao Senado, com 7,785 milhões de votos, contribuiu para lhe conferir também a liderança da bancada do PMDB na Casa na Assembleia Nacional Constituinte, para a elaboração da Constituição Federal de 1988. Foi um período no qual o partido se dividiu. O jornalista Raul Christiano lembra que uma parcela do PMDB seguia uma orientação “do Governo (do então presidente José) Sarney, mais conservadora, na Constituinte”, fazendo a sigla não honrar “bandeiras programáticas desde a época do MDB”. Nesse período, como lembra o ex-deputado federal Koyu Iha, surgiu o Centrão, mais identificado a ideias conservadoras, o que levou emedebistas como Covas a pensar em um novo partido. Também em 1988, haveria eleições municipais, e governadores do PMDB não queriam a ascensão de líderes não alinhados a eles. Em São Paulo, Orestes Quércia, como recordam Koyu e Christiano. “O PMDB tinha tomado um caminho meio fisiológico, que contrariava a nossa linha de pensamento, nossa linha ética, política”, acrescenta Nelson Fabiano, que, indicado por Covas, presidiu a Empresa Paulista de Turismo (Paulistur) no Goveno Quércia e deixou tanto o cargo quanto o PMDB. A solução, em 25 de junho de 1988, foi fundar o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que teve Covas como seu primeiro presidente e disputou as eleições municipais já naquele ano — Fabiano tentou a Prefeitura e ficou em quarto lugar. Foi a base para o PSDB se lançar à Presidência da República, com Covas mesmo, em 1989, na primeira eleição ao cargo em 29 anos. Terminou na quarta colocação. Cumpriu mandato de senador. Em 1994, elegeu-se governador, reeleito em 1998. “Longe das benesses oficiais e perto do pulsar das ruas”, lembra Koyu, sobre o mote do PSDB ao surgir. Mas que, anos depois, “se desfigurou dos seus objetivos. Políticos começaram a sair do partido. Quem restou não sabe como reagir”. Doente e afastado, Covas quis ver como iam as obras de moradia no México 70, em São Vicente. Ali, uma despedida (João Vieira/AT/Arquivo) Influência e despedida O segundo mandato foi marcado por problemas de saúde de Covas. O mais grave, um câncer na bexiga, com metástase. Ele se afastou em 22 de janeiro de 2001, substituído pelo vice, Geraldo Alckmin. Mas, no dia seguinte, quis visitar obras no México-70, na Vila Margarida, em São Vicente — para surpresa do então prefeito, Márcio França (PSB), hoje ministro do Empreendedorismo. Covas percorreu o bairro em cadeira de rodas (foto acima). Em 25 de fevereiro, na casa que possuía em Bertioga, Covas passou mal. Internado, morreu em 6 de março, aos 70 anos. Seu corpo foi sepultado no Cemitério do Paquetá, em Santos. Para França, “o Mario Covas está ente as duas pessoas que mais me influenciaram na vida pública (o outro era Miguel Arraes, ex-governador de Pernambuco). Das figuras públicas no (governo do) Estado, é a mais marcante”. Sucessor O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin (PSB), sucedeu Covas no Governo Estadual. Nesta quinta-feira (5), enviou vídeo para A Tribuna para dizer que o tucano deixou como lição que a política é “um exercício de caráter e de amor ao próximo”. Ao destacar a cassação de Covas no período ditatorial, exaltou o ex-governador por estar “sempre ao lado das liberdades”. “Sem jamais abdicar das suas convicções democráticas, enfrentou a ditadura com valentia”. Também tratou do período em que Covas governou São Paulo, com o “desafio de reerguer” o Estado: “Mario Covas escolheu o caminho árduo da responsabilidade. Saneou as contas, combateu privilégios e provou que é possível gerir com o coração nas pessoas e os olhos na eficiência. Para mim (...), foi o grande mestre, de quem guardo preciosos ensinamentos que seguem me inspirando no exercício da vida pública. Como ele mesmo dizia, a ética política demanda crença no povo e na democracia”.